O investimento em travel tech caminha para o nível mais baixo em anos. Segundo o Crunchbase News, startups do setor levantaram US$ 2,2 bilhões no mundo entre janeiro e setembro de 2026, em apenas 302 rodadas. Pelas contas do veículo, 2026 pode fechar como o ano mais fraco desde pelo menos 2018, tanto em dinheiro quanto em número de negócios. E isso acontece justo quando a inteligência artificial no turismo virou a grande aposta de muita empresa nova.
Vale entender o recorte. O Crunchbase News usa uma definição ampla de travel tech, que inclui software para hotéis, plataformas de reserva, hospedagem alternativa, eventos corporativos, aviação elétrica, finanças e seguros de viagem e negócios de hospitalidade voltados ao consumidor. Ou seja, a queda não está restrita a um nicho. Ela aparece no setor como um todo.
A comparação com anos anteriores mostra o tamanho do recuo. Em todo o ano de 2025, de acordo com o veículo, o setor captou US$ 3,7 bilhões. Em 2021, passou de US$ 12 bilhões, um número que o próprio Crunchbase News considera um pouco surpreendente, já que boa parte das viagens estava parada por causa da pandemia. Antes da covid, os valores também eram bem maiores: US$ 9,4 bilhões em 1.277 rodadas em 2018 e US$ 10,4 bilhões em 1.190 rodadas em 2019.
Tem outro dado importante. O veículo aponta que o número de rodadas deve cair pelo terceiro ano seguido, sinal de um mercado em que os investidores colocam mais dinheiro em menos empresas. Menos apostas, cheques mais concentrados.
O curioso é o descompasso. A demanda por viagens dá sinais de estar firme, segundo o Crunchbase News, mas o apetite dos investidores pelas startups de turismo esfriou. A Skift, empresa de pesquisa do setor de viagens citada na reportagem, também notou a queda em uma newsletter recente. Para ela, o recuo é um retrato claro do momento, embora ainda seja cedo para dizer se é uma mudança de longo prazo.
A IA está nos maiores cheques, mas não virou o jogo
Entre as empresas que mais captaram em 2026, a inteligência artificial aparece com frequência. Segundo o veículo, muitas usam a tecnologia para automatizar operações de hospitalidade, personalizar reservas e simplificar o planejamento de viagens. Mesmo assim, essa onda não foi suficiente para reverter a desaceleração.
O maior aporte do ano até setembro, de acordo com o Crunchbase News, foi da Mews, de Amsterdã. A empresa de software para hotelaria, que ajuda hotéis a gerenciar reservas, pagamentos e operações, fechou em janeiro uma Série D de US$ 300 milhões liderada pela EQT Growth, com avaliação de US$ 2,5 bilhões. O plano declarado é ampliar o uso de agentes de IA para automatizar fluxos de trabalho. É um movimento parecido com o que já mostramos sobre o uso de inteligência artificial e automação na gestão de viagens.
A canadense Stay22, de Montreal, recebeu em fevereiro um investimento minoritário de US$ 122 milhões da Summit Partners. A startup usa IA para ajudar criadores, publicações e organizadores de eventos a transformar o interesse do público por viagens em reservas e receita de afiliados. Para quem trabalha com marketing de conteúdo, é um modelo que conversa bem com a realidade de quem já tem audiência.
Já a francesa Naboo, de Paris, levantou também em fevereiro uma Série B de US$ 70 milhões, liderada pela Lightspeed Venture Partners. A empresa usa IA para ajudar negócios a encontrar locais, organizar eventos corporativos e cuidar das compras e pagamentos ligados a eles.
A lista vai além. A Kindred, de São Francisco, rede de troca de casas só para membros, anunciou uma Série C de US$ 85 milhões liderada pela Index Ventures. No mesmo dia divulgou uma Série B de US$ 40 milhões, somando US$ 125 milhões, segundo o veículo. A chinesa Aerofugia, de Chengdu, captou cerca de US$ 144 milhões para desenvolver aeronaves elétricas de decolagem vertical, os chamados táxis aéreos. Um detalhe chama atenção: vários dos maiores aportes foram para empresas sediadas fora dos Estados Unidos.
O que isso sinaliza para quem quer empreender em turismo no Brasil
A reportagem não traz dados sobre o mercado brasileiro, então o cenário pede leitura cuidadosa. Uma interpretação possível é que, com o venture capital em startups de turismo mais seletivo, colocar IA no discurso tende a pesar menos do que mostrar um problema real bem resolvido. Para quem pensa em empreender em turismo no Brasil, a tecnologia parece funcionar melhor como meio do que como argumento principal.
As categorias que conseguiram dinheiro dão pistas. Software para hotelaria, eventos corporativos e monetização de audiência têm em comum um cliente bem definido e um ganho que dá para medir. Imagine, só como exemplo, uma pousada que perde horas conciliando reservas de vários canais. Uma ferramenta que resolve isso tem um valor fácil de explicar. Quem está montando produto pode se inspirar em casos de inteligência artificial e automação de negócios em startups que atacam tarefas concretas.
Também não dá para cravar o motivo da retração. O próprio Crunchbase News deixa em aberto se a incerteza sobre como a IA vai mudar o planejamento e a reserva de viagens ajuda a explicar a cautela dos investidores. É uma pergunta que segue sem resposta.
Por enquanto, o quadro é de viajantes animados e investidores contidos, com o capital concentrado em poucas startups de turismo. Para entender como esse movimento se compara a outras áreas, acompanhe o que acontece com inovação deep tech com IA e venture capital em 2026.
