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A Perplexity acaba de tomar uma decisão que vai agitar o mercado de publicidade digital de um jeito que poucos esperavam.

Em menos de duas semanas após o site Digiday reportar as primeiras notícias sobre os anúncios que a Time começou a veicular dentro das versões em markdown das suas páginas, voltados para AI agents em vez de leitores humanos, a plataforma de busca baseada em inteligência artificial confirmou que bloqueou completamente esses anúncios de influenciarem seu índice de busca, classificando a prática como enganosa.

E olha, não é um bloqueio qualquer.

Em comunicado enviado por e-mail ao Digiday, o diretor de comunicação da Perplexity, Jesse Dwyer, afirmou que a empresa trabalha continuamente para proteger seus usuários de práticas enganosas, patrocinadas ou não. Ele foi direto ao avisar que publishers que adotam publicidade enganosa como os markdown ads correm o risco de sofrer uma queda reputacional dentro do índice proprietário da Perplexity, incluindo um impacto direto na pontuação de confiança.

Isso significa que, na prática, uma publicação que tenta usar anúncios disfarçados de conteúdo editorial para influenciar os resultados entregues pelos AI agents da Perplexity pode acabar perdendo relevância dentro do sistema como um todo, e não apenas ter aquele conteúdo específico ignorado.

A Perplexity, vale destacar, não respondeu às perguntas sobre como está definindo exatamente o que são práticas ou publicidade enganosas, nem sobre como está bloqueando os anúncios da Time do ponto de vista logístico. A Time também não respondeu ao pedido de comentário.

Tudo isso levanta uma pergunta que ninguém consegue responder ainda com clareza: onde termina o conteúdo editorial e onde começa o conteúdo pago quando estamos falando de páginas consumidas por agentes de IA?

Essa história vai muito além de uma briga entre uma revista e uma plataforma de busca. Ela toca em algo muito maior, que é o futuro de como a publicidade vai funcionar num mundo cada vez mais mediado por inteligência artificial. 🤖

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O que a Time tentou fazer, exatamente?

Para entender o tamanho do problema, é preciso dar um passo atrás e olhar para o que a Time estava fazendo antes de a Perplexity tomar essa decisão. A revista começou a inserir mensagens patrocinadas dentro das versões em markdown das suas páginas, um formato de texto simplificado que os AI agents conseguem ler, processar e eventualmente citar como se fosse informação orgânica.

O funcionamento é engenhoso. A empresa de ad tech Mobian gera conteúdo no formato de perguntas e respostas com base em um briefing da marca, insere esse material nas páginas em markdown da Time e depois rastreia com que frequência os motores de busca por IA exibem aquele conteúdo, e o quão favoravelmente. Anunciantes como o Ally Bank e o Project Management Institute foram os primeiros compradores, e tiveram suas mensagens aprovadas pela própria marca posicionadas dentro da mesma versão em markdown que um agente lê como se fosse um fato.

O problema aqui não é só técnico, é também ético. Quando um usuário humano lê uma página na internet, ele tem sinais visuais que ajudam a identificar o que é anúncio e o que é conteúdo jornalístico genuíno, como labels, cores diferentes, disclaimers e toda uma linguagem visual que foi desenvolvida ao longo de décadas exatamente para criar essa separação. Mas quando quem consome o conteúdo é um AI agent, esses sinais visuais simplesmente não existem da mesma forma.

Se a versão em markdown de uma página pode ser silenciosamente semeada com conteúdo pago, os usuários não têm como saber se uma resposta reflete a apuração de um veículo jornalístico ou o briefing de um cliente. Essa parece ser justamente a lógica por trás da decisão da Perplexity.

A Time não é a única publicação explorando esse território, mas foi a que acabou se tornando o exemplo central dessa discussão por conta da escala e da visibilidade da iniciativa. A equipe de vendas da revista, inclusive, já estava oferecendo os anúncios para agentes a marcas que haviam convertido seus próprios sites corporativos para markdown.

Como a Perplexity identificou e respondeu ao problema

A Perplexity não entrou em detalhes técnicos completos sobre como está bloqueando os anúncios da Time, mas segundo apurou o Digiday, a plataforma vem impedindo toda a publicidade em markdown do site Time.com de influenciar seus agentes desde que a prática foi reportada pela primeira vez. As equipes de busca e segurança da empresa também estão trabalhando em outras soluções para proteger seus usuários dos markdown ads de forma mais ampla.

Steven Liss, cofundador da plataforma de publicidade nativa OpenAds.AI, avaliou que o bloqueio pode ser algo tão simples quanto a Perplexity instruir seus agentes a não recuperarem publicidade ou informações irrelevantes do site da Time. No curto prazo, isso significaria que o conteúdo patrocinado simplesmente não apareceria nos resultados de busca da plataforma.

O que chama atenção nessa resposta é a transparência com que a Perplexity comunicou o bloqueio. Em vez de simplesmente deixar os anúncios da Time serem ignorados silenciosamente, a plataforma optou por tornar público o critério que motivou a decisão e sinalizou que esse critério vai se aplicar a qualquer publisher que adote estratégias similares.

A decisão da Perplexity também respondeu a uma pergunta que os próprios executivos da Time haviam deixado em aberto. Quando o diretor de operações da Time, Mark Howard, e o cofundador e CEO da Mobian, Jonah Goodhart, descreveram o produto ao Digiday, ambos disseram que ainda era cedo para saber como os motores de busca por IA tratariam anúncios embutidos em páginas markdown. Nas palavras de Howard na época: não sabemos ainda, porque isso é totalmente novo, e acreditamos que estamos abrindo o primeiro caminho aqui.

Ficou claro que a Perplexity não vai tratar esses anúncios de forma neutra e que não vai esperar por um padrão do setor para agir.

A queda na pontuação de confiança dentro do índice proprietário da Perplexity é uma punição que vai muito além daquele conteúdo específico. Um publisher que perde pontos de confiança no sistema vê toda a sua presença na plataforma diminuída, o que significa menos citações, menos visibilidade nas respostas geradas pelos AI agents e, consequentemente, menos tráfego referenciado. 📉

O outro lado da moeda: quem defende os anúncios para agentes

Nem todo mundo enxerga os markdown ads como algo negativo. Jonah Goodhart, da Mobian, afirmou que a resposta aos anúncios voltados para agentes tem sido extremamente positiva até agora, com base nas conversas que teve desde o lançamento, embora não tenha apresentado números para ilustrar esse sucesso.

O argumento dele é interessante. Segundo Goodhart, um modelo que está formando uma resposta obtém informações atuais, com fontes e verificadas pela marca, no exato momento em que consome a página, e pode escolher usar ou não esse conteúdo. Ele chegou a dizer que acha curioso a Perplexity bloquear esse tipo de material, defendendo que quando os modelos erram fatos sobre marcas, as pessoas que fazem as perguntas acabam recebendo respostas piores. Na visão dele, os fatos mais precisos e mais atualizados vão conquistar a confiança do consumidor com o tempo.

Por outro lado, o risco foi sinalizado desde o início. Rob Derow, diretor-executivo e sócio da BCG X, alertou que o maior perigo dos markdown ads é a ausência de qualquer regra que governe como os LLMs os tratam, e que os motores de busca por IA poderiam eventualmente enxergar a prática como uma forma de cloaking, aquela tática de SEO que consiste em mostrar aos rastreadores um conteúdo diferente do que os visitantes humanos veem.

A Time tentou se antecipar a isso rotulando seus anúncios para agentes como conteúdo patrocinado no topo da página, mesmo sem nenhuma política exigir isso. Mas o comunicado da Perplexity sugere que o rótulo não fez diferença. A objeção da plataforma é à prática em si, não à divulgação.

O que isso significa para o futuro da publicidade em IA

Esse episódio entre Perplexity e Time é, na verdade, o primeiro grande sinal de que o mercado de publicidade digital vai precisar criar regras específicas para o ambiente dos AI agents, e vai precisar fazer isso com muito mais urgência do que qualquer um estava imaginando há dois anos.

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Analistas e executivos do setor de publicidade em IA ouvidos pelo Digiday disseram que não ficaram surpresos com a decisão da Perplexity, mas também acham improvável que o movimento seja capaz de frear a evolução da publicidade para a web agêntica. Robert Webster, ex-executivo da WPP e fundador da consultoria de marketing em IA TAU, observou que a internet está começando a se dividir em duas trilhas, com conteúdo e publicidade desenhados tanto para humanos quanto para agentes de IA. As empresas, segundo ele, vão encontrar formas de monetizar novos inventários antes que os padrões alcancem essa realidade.

Steven Liss lembrou que a decisão da Perplexity é consistente com o desconforto que as empresas de IA historicamente demonstram em relação à publicidade. Ele especulou, no entanto, que essa postura pode acabar levando publishers a bloquear os rastreadores da própria Perplexity, já que se as publicações encontrarem barreiras nas suas tentativas de monetizar o tráfego dos bots da plataforma, o valor desse tráfego permanece incerto.

Shiv Gupta, fundador do serviço de treinamento U of Digital, apontou que outros LLMs podem seguir os passos da Perplexity e bloquear os anúncios agênticos dos publishers, tanto para proteger a confiança dos usuários e os resultados orgânicos das buscas por IA, quanto para manter o controle sobre como suas plataformas são monetizadas.

As práticas enganosas que a Perplexity identificou na estratégia da Time são um sintoma de algo mais estrutural: a ausência de um padrão claro sobre como conteúdo patrocinado deve ser marcado para que os AI agents possam distingui-lo do conteúdo editorial. Como resumiu Webster, a intenção pode não ser enganar, mas uma alegação promocional pode acabar sendo citada como um fato neutro assim que o rótulo de patrocinado é deixado para trás no momento em que um agente recupera o conteúdo.

O que provavelmente vai acontecer a partir desse episódio é que outras plataformas de busca baseadas em IA vão começar a publicar suas próprias políticas sobre o assunto, e o mercado vai gradualmente convergir para algum tipo de padrão compartilhado. Publishers que quiserem manter uma presença sólida no ecossistema de busca por IA vão precisar adaptar suas estratégias de monetização, o que vai exigir tanto criatividade quanto disposição para abrir mão de práticas que eram lucrativas no curto prazo mas que claramente não são sustentáveis nesse novo ambiente. 🚀

A grande lição que fica desse caso é simples: os AI agents estão se tornando intermediários cada vez mais poderosos entre o conteúdo e o usuário final, e qualquer tentativa de manipular essa camada sem transparência vai encontrar resistência crescente das plataformas que controlam esses agentes.

O episódio com a Time vai ser lembrado como um dos primeiros marcos dessa nova era da publicidade digital, onde as regras do jogo estão sendo escritas agora, em tempo real, e onde as decisões que publishers e plataformas tomam hoje vão definir os padrões que o setor inteiro vai seguir nos próximos anos.

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