Bill Gurley, Inteligência Artificial e o reset que pode mexer com todo o mercado
Bill Gurley, sócio da Benchmark e um dos investidores mais conhecidos do Vale do Silício, voltou a chamar atenção para um tema que está tirando o sono de muita gente ligada a tecnologia e finanças: a possibilidade de uma bolha em torno da Inteligência Artificial e de ações de software.
Em entrevista ao programa Money Movers, da CNBC, Gurley resumiu bem o momento atual: muita gente ficou rica muito rápido com a onda de IA, o que atraiu ainda mais investidores e empreendedores querendo repetir essa história. Para ele, essa combinação costuma levar ao mesmo lugar: formação de bolhas e, inevitavelmente, um reset de mercado.
O ponto central não é negar a revolução tecnológica da IA. Pelo contrário: Gurley reforça que a onda é real, profunda e com impacto econômico gigantesco. O problema está no excesso de capital especulativo que se acumula em cima dessa tendência, distorcendo preços, expectativas e avaliações de empresas, até que o mercado resolve recalibrar tudo de uma vez.
Quando muita gente enriquece rápido, o risco de bolha aumenta
Segundo Gurley, existe um padrão que se repete em diferentes momentos da história econômica. Assim que um grupo relativamente pequeno ganha muito dinheiro em pouco tempo com uma nova tecnologia, isso dispara um gatilho psicológico no mercado: mais pessoas entram, muitas vezes sem entender a fundo o que estão comprando, movidas principalmente pelo medo de ficar de fora.
Ele explica que é justamente aí que as bubbles costumam se formar. A lógica deixa de ser:
- Quanto essa empresa realmente gera de valor?
- Qual é o modelo de negócio sustentável?
- Quais são as margens, riscos e concorrentes?
E passa a ser algo muito mais superficial, quase um mantra: IA está bombando, então qualquer ativo ligado a IA deve subir. Esse tipo de pensamento pavimenta o caminho para que avaliações fiquem desconectadas da realidade por um bom tempo, até que algum evento – como resultados fracos, juros mais altos ou mudança de narrativa – força o ajuste.
Gurley não fala isso só com base em intuição. Ele cita o trabalho da economista Carlota Perez, autora de Technological Revolutions and Financial Capital: The Dynamics of Bubbles and Golden Ages. A tese dela é que grandes revoluções tecnológicas sempre vêm acompanhadas de ciclos de euforia e correção.
Um ponto importante que Gurley destaca ao citar Perez é o seguinte: bolhas só existem quando a onda tecnológica de fundo é real. Ou seja, o fato de haver excesso de especulação não significa que a tecnologia em si seja uma farsa. O que acontece é que o mercado tenta precificar décadas de transformação em poucos anos, criando distorções que mais tarde precisam ser corrigidas.
Reset à vista: onde podem surgir oportunidades em software
Quando Gurley fala em reset, ele não está apenas prevendo quedas ou correções. Ele também aponta para um tipo específico de oportunidade que pode surgir nesse cenário: ações de software-as-a-service (SaaS) que foram amassadas na bolsa e ficaram baratas demais em relação ao seu potencial de negócio.
Na visão dele, quando a poeira começar a baixar, vale a pena ter em mente um preço-alvo ou uma faixa de valor aceitável para esses papéis. A ideia é simples: se o mercado exagerar na correção, pode aparecer aquele momento em que empresas com receita recorrente, produto sólido e base de clientes forte estejam sendo negociadas como se fossem negócios sem futuro.
Nesse contexto, Gurley sugere que investidores mais atentos possam começar a “engolir” essas ações, aproveitando o pessimismo temporário. Mas, claro, isso depende de análise de fundamentos, não de seguir modinha.
Software na linha de frente da pancada
Enquanto o entusiasmo com IA cresce, o setor de software tradicional vem apanhando na bolsa. Gurley chama atenção para esse contraste: a tecnologia que mais consome software e infraestrutura está no auge do hype, mas muitas empresas de software listadas vivem uma fase de forte reavaliação de preço.
Alguns números recentes ajudam a ilustrar esse cenário:
- Salesforce já perdeu cerca de 25% de valor em 2026.
- ServiceNow também acumula queda na casa dos 25% no ano.
- O ETF iShares Expanded Tech-Software Sector (IGV), que acompanha o setor de software, já recua em torno de 20% em 2026.
Ou seja, enquanto a narrativa de IA domina todas as conferências, keynotes e timelines, parte relevante das empresas de software que sustentam esse ecossistema vem sendo reprecificada de forma agressiva. Esse descompasso entre narrativa e preço é justamente o tipo de sinal que costuma aparecer em períodos de transição de ciclo.
O custo invisível da corrida pela IA
Outro ponto que Gurley destaca é o nível de gasto das grandes empresas de tecnologia para sustentar a atual corrida de IA. Não se trata apenas de contratar equipes ou lançar novos produtos: estamos falando de investimentos colossais em infraestrutura, chips e memória.
De acordo com projeções recentes, apenas Amazon, Meta, Google e Microsoft devem somar algo em torno de 700 bilhões de dólares em gastos com IA só neste ano. Esse número envolve desde data centers e GPUs de última geração até memória de alta largura de banda, em um cenário em que os custos desse tipo de componente dispararam.
Além disso, a indústria vem enfrentando desafios com escassez de memória para IA, especialmente em tecnologias como HBM (High Bandwidth Memory), usadas em placas e sistemas otimizados para treinar e rodar grandes modelos. Essa combinação de demanda explosiva, oferta limitada e investimentos recordes pressiona margens, força decisões estratégicas pesadas e amplia o risco de algumas apostas demorarem muito para se pagar.
Para quem olha de fora, esse nível de gasto pode até parecer abstrato, mas ele tem efeitos práticos:
- Empresas precisam justificar internamente por que continuar despejando bilhões em infraestrutura.
- Qualquer sinal de desaceleração em receita ligada a IA gera preocupação extra em acionistas.
- Negócios mais frágeis, sem caixa robusto, podem ficar pelo caminho se a monetização demorar demais.
Do Uber à IA: o olhar de quem já lidou com queima de caixa extrema
Gurley fala de queima de caixa com a bagagem de quem já passou por experiências intensas. A Benchmark foi uma das primeiras investidoras do Uber, e ele teve papel relevante no processo que levou à saída do então CEO Travis Kalanick em 2017.
Na época, o Uber operava com um burn rate anual de cerca de 2 bilhões de dólares. Segundo Gurley, isso já era um motivo constante de ansiedade. Ele classificou aquele momento como “high anxiety”, tanto pelo tamanho dos valores quanto pelo nível de incerteza sobre quando o negócio passaria a gerar caixa de forma sustentável.
Agora, ao observar as empresas líderes em grandes modelos de IA, como Anthropic e OpenAI, ele vê cifras ainda mais agressivas sendo gastas em prazos muito curtos. E solta um comentário que resume bem a sensação dele em relação a esse modelo:
Deus abençoe essas companhias. É um jeito assustador de tocar uma empresa.
Não é uma crítica vazia, mas um alerta. Quando o custo fixo mensal é gigantesco e depende de capital externo para continuar rodando, qualquer mudança de humor no mercado de financiamento ou em receitas projetadas pode ter efeitos dramáticos. Em ciclos de bonança, isso parece controlável; em períodos de aperto, vira risco sistêmico para startups e até para algumas empresas já consolidadas.
Por que a visão de Carlota Perez ajuda a entender o momento atual
Quando Gurley recorre à obra de Carlota Perez, ele está basicamente sugerindo um enquadramento histórico para o que está acontecendo hoje com a IA. A ideia central é que revoluções tecnológicas seguem um roteiro semelhante:
- Uma nova tecnologia surge e começa a provar seu valor prático.
- O capital financeiro identifica o potencial e entra pesado, acelerando a expansão.
- A euforia faz preços subirem mais rápido que os resultados concretos.
- Em algum momento, expectativas e realidade se chocam, gerando uma fase de ajuste.
- Depois do estouro da bolha, a tecnologia segue sendo adotada de forma mais madura e ampla.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial parece estar entre a fase de euforia e o início de um ciclo de maior questionamento sobre retorno de investimento, especialmente em empresas que dependem de infraestrutura caríssima ou de modelos de negócio ainda pouco comprovados.
Isso não significa que IA vá perder relevância. Pelo contrário: a tendência é que ela se espalhe ainda mais, sendo integrada em serviços de nuvem, plataformas de software, aplicativos de consumo, ferramentas de produtividade e interfaces de usuário em geral. O que tende a mudar é o quanto o mercado está disposto a pagar antecipadamente por essa promessa.
IA real, hype financeiro e o papel da correção
O recado de Gurley, no fim das contas, é duplo. Por um lado, ele reforça que a onda de IA é verdadeira e deve continuar transformando setores inteiros da economia – de atendimento ao cliente a desenvolvimento de software, passando por design, marketing, saúde, educação e além.
Por outro, ele alerta que o ambiente atual combina:
- Casos reais de ganho de produtividade e inovação;
- Exagero de capital apostando em qualquer narrativa ligada a IA;
- Empresas de software e SaaS sendo reprecificadas de forma agressiva;
- Big Techs queimando centenas de bilhões de dólares para liderar a corrida;
- Startups de modelos gigantes rodando com estruturas de custo assustadoras.
Nesse cenário, um reset não é apenas provável: ele pode ser saudável para separar projetos sólidos de iniciativas puramente especulativas. Correções de preço, mesmo dolorosas no curto prazo, costumam abrir espaço para que empresas com fundamentos mais fortes ganhem protagonismo, enquanto as que dependiam só de hype acabam ficando pelo caminho.
Para quem acompanha tecnologia, especialmente IA, vale ficar atento não apenas aos anúncios de novos modelos e integrações, mas também aos sinais financeiros por trás deles: custo de infraestrutura, ritmo de adoção real, impacto em receita, margens e capacidade de manter o ritmo sem depender eternamente de capital barato.
No fim, a leitura de Gurley e de estudiosos como Carlota Perez ajuda a enxergar o momento atual com um pouco mais de calma. A revolução de Inteligência Artificial está em andamento e não deve andar para trás, mas isso não impede que o mercado tenha ido rápido demais na precificação de algumas histórias. Quando o reset chegar, quem tiver conseguido separar tecnologia real de delírio financeiro tende a entender melhor onde estão as oportunidades de longo prazo.
