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Ações de tecnologia despencam pelo segundo dia seguido e investidores questionam os lucros da inteligência artificial

Os investidores estão em modo de alerta. 📉

Pela segunda vez consecutiva, as ações de tecnologia derreteram na Nasdaq, e o clima no mercado financeiro ficou bem pesado nos últimos dias. Na terça-feira, 23 de junho de 2026, o índice Nasdaq Composite perdeu 580 pontos, uma queda de 2,2%, fechando em 25.587 pontos. O tombo veio logo depois de uma retração de 1,3% na segunda-feira, configurando dois pregões seguidos de perdas expressivas que acenderam sirenes em Wall Street.

A grande questão que todo mundo está se fazendo agora é simples, mas poderosa: a inteligência artificial vai mesmo entregar os lucros que o mercado tanto prometeu?

Por muito tempo, bastava mencionar IA em uma apresentação para as ações dispararem. Só que agora o jogo mudou.

A volatilidade do mercado voltou com força, gigantes como Meta e Microsoft já estão em território de bear market — quando as ações caem pelo menos 20% em relação ao pico mais recente — e até o hype em torno da SpaceX deu uma esfriada bem rápida após um IPO que parecia imparável.

Vamos entender o que está acontecendo, por que isso importa e o que os especialistas estão dizendo sobre esse momento. 🔍

O que fez as ações de tecnologia caírem dessa vez

A queda não veio do nada. Ela é o resultado de uma pressão que vinha se acumulando há semanas, misturando expectativas de lucros infladas, valuations esticados e uma mudança bem clara no humor dos investidores em relação ao setor de inteligência artificial. O índice Nasdaq, que historicamente concentra as maiores empresas de tecnologia do mundo, registrou perdas expressivas em dois pregões seguidos, levantando comparações com os momentos mais tensos dos últimos anos.

James Reilly, economista sênior de mercados da Capital Economics, resumiu a situação de forma bem direta em uma nota enviada a clientes: as quedas fortes em ações de tecnologia sem nenhum catalisador específico são mais uma evidência da crescente volatilidade nesses papéis, resultado do que cada vez mais parece ser expectativas de lucros e valuations exagerados.

Empresas como Meta, Microsoft, Alphabet e Nvidia viram bilhões de dólares evaporarem da sua capitalização de mercado em questão de horas. O que chama atenção é que não foi um evento isolado ou uma notícia específica que derrubou tudo. Foi uma combinação de fatores que, juntos, criaram um ambiente de desconfiança generalizada. Os investidores começaram a questionar se os gastos absurdos com infraestrutura de IA, data centers, chips e modelos de linguagem realmente vão se traduzir em receita real no curto e médio prazo. E quando essa dúvida bate, o mercado responde rápido, e raramente de forma gentil.

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O S&P 500 também não escapou, recuando 1,4% no dia. Já o Dow Jones Industrial Average teve uma queda mais modesta, inferior a 0,1%, mostrando que o impacto foi concentrado principalmente no setor de tecnologia.

Apesar do banho de sangue generalizado, alguns papéis conseguiram se recuperar ao longo do pregão. A Alphabet, controladora do Google, fechou em queda de 0,8%, enquanto a Amazon encerrou o dia em alta de 0,6%. A Nvidia, fabricante de chips que se tornou sinônimo do boom da IA, despencou 4,2%, e a Broadcom afundou 3,1%. As ações da SpaceX subiram 1,51 dólar, ou 1%, fechando em 156,11 dólares, um alívio tímido depois da queda de 16% registrada na segunda-feira.

A inteligência artificial ainda é o grande tema, mas agora com perguntas difíceis

Durante meses, a narrativa era simples: inteligência artificial é o futuro, quem investe nisso vai ganhar muito dinheiro. Essa ideia foi suficiente para empurrar as ações de tecnologia a patamares históricos na Nasdaq, com múltiplos de avaliação que em muitos casos não tinham muito respaldo nos fundamentos financeiros reais. Mas agora o mercado está cobrando a conta, e a pergunta que os analistas estão fazendo é direta: onde estão os lucros que a IA deveria gerar?

A resposta honesta é que ainda é cedo para mensurar com precisão o retorno sobre os investimentos bilionários em IA. As empresas estão gastando quantias inimagináveis em chips da Nvidia, em data centers de última geração, em equipes de pesquisa e em infraestrutura de nuvem, mas a monetização efetiva desses ativos ainda está em construção. Isso não significa que a tecnologia não funciona ou que o potencial não existe, mas significa que o mercado talvez tenha precificado um futuro que ainda vai levar alguns anos para chegar de verdade.

Um dado novo e bastante revelador vem do Bank of America Institute. Segundo a instituição, apenas cerca de 3% dos seus clientes pagam por serviços de IA, e a maior parte dessas pessoas pertence a famílias com renda anual superior a 125 mil dólares. O gasto mediano desses clientes é de 20 dólares por mês em aplicativos de inteligência artificial. Ou seja, apesar do barulho enorme em torno de ferramentas como o ChatGPT da OpenAI e o Claude da Anthropic, a grande maioria das pessoas ainda utiliza versões gratuitas.

Por outro lado, o mesmo relatório traz uma perspectiva mais animadora: o número de famílias que pagam por serviços de IA cresceu 38% desde 2024. E conforme a tecnologia vai se incorporando a áreas como produtividade, buscas, entretenimento, compras e assistentes pessoais, o Bank of America projeta que o mercado americano de IA voltado ao consumidor pode escalar até 75 bilhões de dólares anuais.

Esse descompasso entre expectativa e realidade é exatamente o que alimenta a volatilidade do mercado agora. Os investidores mais experientes já conhecem esse ciclo bem — ele aconteceu com a internet nos anos 90, com as redes sociais no início dos anos 2010 e agora parece se repetir com a IA. O hype inicial cria uma bolha de expectativa, e quando os resultados reais não chegam no ritmo esperado, o mercado corrige, às vezes de forma brusca. Isso não elimina o valor real da tecnologia, mas redefine os prazos e as expectativas de forma bem mais realista. 🤔

O caso SpaceX e o que ele revela sobre o apetite dos investidores

Um dos episódios mais reveladores desse momento de mercado foi o que aconteceu com a SpaceX. A empresa liderada por Elon Musk realizou seu tão aguardado IPO no início de junho, e a resposta inicial dos investidores foi avassaladora. As ações ultrapassaram os 200 dólares em poucos dias, impulsionadas por um entusiasmo que combinava tecnologia de ponta, a narrativa poderosa da exploração espacial e o magnetismo da marca Musk.

Só que o entusiasmo esfriou com uma velocidade impressionante. Desde o dia 17 de junho, os papéis da SpaceX vêm recuando à medida que os investidores passaram a questionar se a empresa consegue justificar um valuation que superou os 2 trilhões de dólares. Na segunda-feira, as ações desabaram 16% em um único pregão, um tombo que sacudiu o mercado e colocou em evidência os riscos de se apostar em valuations extremamente elevados em tempos de incerteza.

O contexto geral de volatilidade do mercado, somado às dúvidas crescentes sobre o setor de tecnologia como um todo, fez com que os investidores adotassem uma postura bem mais cautelosa. A ideia de manter posições em um ativo de altíssimo risco num momento em que até as gigantes já estabelecidas da Nasdaq estão perdendo valor deixou muita gente hesitante. O que parecia uma aposta óbvia passou a ser visto como um risco desnecessário num ambiente de incerteza crescente.

Esse episódio é um termômetro importante do humor atual do mercado. Quando até os projetos mais empolgantes e bem narrados enfrentam ceticismo, é sinal de que os investidores estão exigindo mais do que histórias bonitas. Eles querem números concretos, modelos de negócio sustentáveis e previsibilidade de receita.

O que os especialistas estão dizendo sobre esse momento

Analistas de mercado têm opiniões bem divididas sobre o que esperar daqui para frente, mas um ponto em comum une a maioria deles: essa correção, por mais dolorosa que seja, pode representar uma mudança saudável de postura.

Nigel Green, CEO da consultoria financeira deVere Group, foi bem claro ao afirmar que, por muito tempo, o mercado tratou os gastos com IA como algo inquestionavelmente positivo. Agora, segundo ele, os investidores estão se tornando mais exigentes e querem evidências de que os gastos sem precedentes vão se traduzir em lucros sem precedentes. Em suas palavras, o que estamos vendo agora são investidores exigindo provas em vez de promessas, e essa mudança, apesar de desconfortável, é fundamentalmente saudável.

Brock Weimer, analista de estratégia de investimentos da Edward Jones, trouxe um contexto importante para colocar a queda em perspectiva. Ele lembrou que o Nasdaq acumulou alta de 26% entre 30 de março e o fechamento do dia anterior, enquanto o índice PHLX de semicondutores avançou mais de 100% no mesmo período. Visto por essa ótica, um período de consolidação é razoável após uma alta tão acentuada.

James Reilly, da Capital Economics, acrescentou um alerta mais preocupante: se as empresas de semicondutores, que são os novos líderes do mercado, também começarem a patinar, o mercado de ações como um todo estaria em apuros sérios.

O efeito global da turbulência em Wall Street

A onda de vendas não ficou restrita aos Estados Unidos. Na Coreia do Sul, o índice Kospi despencou 10%, fechando em 8.203,84 pontos, num movimento amplificado por sinais de maior escrutínio regulatório no setor de semicondutores do país. Esse dado é particularmente relevante porque a Coreia do Sul é lar de gigantes como Samsung e SK Hynix, empresas que desempenham um papel central na cadeia global de produção de chips para IA.

Bret Kenwell, analista de investimentos e opções nos EUA pela eToro, explicou à CBS News que essa fraqueza global e a volatilidade generalizada nas ações de tecnologia estão pesando diretamente sobre os papéis americanos. O mercado está cada vez mais interconectado, e quando uma região importante sofre, o efeito cascata é quase inevitável. 🌍

Ansiedade com as taxas de juros pesa no cenário

Como se a turbulência no setor de tecnologia não fosse suficiente, outro fator está adicionando combustível ao nervosismo dos investidores: as taxas de juros.

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O comitê de política monetária do Federal Reserve sinalizou, na semana passada, que pode aumentar os custos de empréstimo em 2026, buscando conter a aceleração da inflação impulsionada por meses de alta nos preços do petróleo, em grande parte decorrente do conflito no Irã.

Economistas projetam que o índice de inflação ao consumidor americano, que será divulgado na quinta-feira, acelerou para 4,1% em maio, ante 3,8% em abril. Números assim reforçam a expectativa de que o Fed precisará agir.

Os traders já estão se posicionando para esse cenário. Segundo dados do CME Group, as apostas em pelo menos uma alta na taxa de juros do Fed até o final do ano subiram para quase 90%, contra 57% apenas uma semana atrás. Juros mais altos encarecem o crédito e naturalmente reduzem o apetite por ativos de maior risco, como as ações de tecnologia listadas na Nasdaq.

Para empresas que estão gastando bilhões em infraestrutura de IA sem retorno imediato, um ambiente de juros mais altos torna tudo mais difícil. O custo de capital sobe, os investidores ficam mais seletivos e a margem de erro diminui drasticamente. Esse é um ingrediente a mais no coquetel de incertezas que está moldando o mercado neste momento.

Por que esse momento importa além do mercado financeiro

É tentador ver tudo isso como um problema exclusivo de quem tem dinheiro investido em bolsa, mas a realidade é que o que acontece com as ações de tecnologia na Nasdaq tem um impacto muito mais amplo do que parece. Quando as grandes empresas de tecnologia enfrentam pressão nos mercados, elas costumam revisar seus planos de contratação, reduzir investimentos em pesquisa e desenvolvimento e adiar lançamentos de produtos. Isso afeta diretamente o ritmo de inovação tecnológica que todo mundo, investidor ou não, acaba sentindo na vida cotidiana.

No caso específico da inteligência artificial, uma desaceleração nos investimentos poderia atrasar o desenvolvimento de ferramentas que têm potencial real de transformar áreas como saúde, educação, produtividade e sustentabilidade. As startups que dependem de rodadas de financiamento para continuar operando ficam especialmente vulneráveis quando o mercado fecha o bolso, e muitas tecnologias promissoras podem acabar não chegando ao mercado simplesmente porque o timing econômico não favoreceu. É um efeito dominó que vai muito além dos gráficos de bolsa.

Por isso, acompanhar esse movimento com atenção faz sentido para qualquer pessoa que se interesse por tecnologia, mesmo que não tenha nenhuma ação na carteira. O que está sendo decidido agora nos pregões da Nasdaq, nas salas de reunião das big techs e nas mesas dos investidores institucionais vai moldar o ritmo com que a IA vai avançar nos próximos anos.

E como bem colocou Nigel Green, essa fase de cobrança pode ser desconfortável, mas é fundamentalmente saudável. O mercado amadurece quando para de comprar promessas e começa a exigir resultados. A inteligência artificial não perdeu seu potencial, mas o caminho entre potencial e lucro real ficou mais nítido, e mais exigente, do que muitos imaginavam. 🌐

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