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Imagina ter apenas sete funcionários quando um dos maiores conflitos modernos irrompe literalmente na sua porta.

Foi exatamente isso que a Airis Labs viveu em outubro de 2023, uma startup israelense que operava em total sigilo desde abril daquele mesmo ano e que, de repente, se viu no centro de uma demanda operacional urgente e real.

Agora, saindo oficialmente do modo stealth, a empresa revelou algo que surpreende até quem acompanha de perto o mercado de inteligência artificial aplicada à defesa: ela já captou US$ 60 milhões em financiamento, com uma Série B de US$ 31 milhões liderada pela PSG Equity como rodada mais recente.

Mas o que realmente chama atenção não é só o número.

É como essa plataforma foi construída, direto de um ambiente de guerra, com dados operacionais reais, feedbacks imediatos de campo e uma pressão que nenhum laboratório consegue simular artificialmente.

A proposta da Airis Labs é resolver um dos problemas mais complexos da análise visual com IA: transformar um caos de imagens fragmentadas, de drones, câmeras corporais, câmeras de segurança e até vídeos do TikTok, em inteligência estruturada e pesquisável em tempo real. 🎯

Vem entender como essa startup nasceu dentro da guerra e o que ela está construindo para o futuro da segurança global.

Uma startup forjada em campo de batalha real

A maioria das startups de tecnologia nasce em aceleradoras confortáveis, com meses de pesquisa, protótipos controlados e hipóteses que precisam ser validadas aos poucos. A Airis Labs não teve esse luxo. Fundada em abril de 2023 por três veteranos do establishment de defesa de Israel, a empresa mal havia completado seis meses de existência quando o conflito de outubro de 2023 redefiniu completamente o que seria o seu ambiente de desenvolvimento. De uma hora para outra, a plataforma que estava sendo construída em modo experimental passou a ser testada em condições absolutamente reais, com consequências reais e com uma cadência de feedback que nenhum ambiente de laboratório no mundo conseguiria replicar.

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Os três fundadores, todos na faixa dos 40 anos, trazem bagagens complementares que explicam muito sobre a capacidade da empresa de se mover com velocidade nesse cenário. Noam Friedman, que atua como CEO, Amos Lahav, responsável pelas operações nos Estados Unidos, e Rotem Abeles, que lidera o desenvolvimento de produto como Chief Product Officer. Antes de criar a Airis, os três ocuparam posições de liderança em diferentes braços da comunidade de inteligência israelense e do ecossistema de tecnologia de defesa, com passagens que incluem o Gabinete do Primeiro-Ministro, a Palantir Technologies e diversas empresas de cibersegurança.

Esse contexto importa muito para entender o que diferencia a Airis Labs de praticamente qualquer outra empresa que trabalha com inteligência artificial aplicada à segurança. Quando você desenvolve tecnologia dentro de uma operação ativa, cada erro tem peso imediato, cada melhoria tem impacto direto e cada decisão de produto precisa ser tomada com uma clareza brutal sobre o que funciona e o que não funciona na prática. A equipe precisou escalar sistemas, aprender com falhas em tempo real e adaptar a arquitetura da plataforma enquanto ela já estava sendo usada. Isso criou uma base técnica que vai muito além do que qualquer benchmark sintético poderia garantir.

O resultado foi uma plataforma que cresceu não só em funcionalidade, mas em maturidade operacional. E foi justamente essa maturidade que chamou atenção dos investidores. Empresas como a PSG Equity não colocam dezenas de milhões de dólares em algo que funciona apenas em demos. Elas querem ver tecnologia que já sobreviveu ao mundo real, e a Airis Labs tinha exatamente isso para mostrar quando chegou às conversas de financiamento. A trajetória da empresa é, em si mesma, uma prova de conceito bastante convincente. 💡

O problema que a Airis Labs resolve com análise visual

Para entender a relevância da solução, é preciso entender primeiro a dimensão do problema. Em qualquer operação de segurança moderna, seja num conflito armado, numa investigação policial ou num monitoramento de infraestrutura crítica, a quantidade de dados visuais gerados é absolutamente avassaladora. Drones transmitindo vídeo em tempo real, câmeras corporais registrando cada movimento de uma equipe em campo, sistemas de vigilância espalhados por dezenas de pontos, e ainda por cima fontes abertas como redes sociais e plataformas de vídeo que capturam acontecimentos de ângulos que nenhum sensor oficial consegue cobrir. Tudo isso cria um volume de informação visual que é simplesmente impossível de processar manualmente com a velocidade que situações de alta pressão exigem.

A análise visual com IA da Airis Labs entra exatamente nessa lacuna. A plataforma foi projetada para ingerir todas essas fontes heterogêneas de imagem e vídeo, de formatos, resoluções e origens completamente diferentes, e transformar esse material fragmentado em uma base de dados estruturada, indexada e pesquisável. Isso significa que um analista consegue fazer perguntas específicas sobre o que aconteceu em determinado local, em determinado horário, com determinadas características visuais, e receber respostas organizadas em segundos, em vez de passar horas ou dias revisando material bruto. A diferença operacional que isso representa é enorme, especialmente quando o tempo é o recurso mais escasso disponível.

Mas a Airis Labs não parou na organização passiva dos dados. A plataforma também incorpora capacidades de reconhecimento de padrões, detecção de objetos, rastreamento de indivíduos entre diferentes câmeras e fontes, e correlação entre eventos visuais separados no tempo e no espaço. Tudo isso com uma interface que foi pensada para ser usada por pessoas que estão sob pressão, que precisam de respostas rápidas e que não têm tempo para aprender um sistema complexo no meio de uma operação. Essa combinação de profundidade técnica com usabilidade orientada para o campo é, segundo a própria empresa, um dos pilares centrais do produto. 🔍

A voz dos fundadores sobre a construção em tempo de guerra

Em entrevista ao Calcalist, Noam Friedman explicou que a construção da plataforma começou a partir de lições aprendidas durante a guerra na Ucrânia. A ideia era criar uma infraestrutura de IA capaz de dar sentido ao caos informacional típico de cenários de conflito. Mas os planos ganharam uma urgência completamente diferente após os ataques de outubro de 2023.

Segundo Friedman, a empresa começou a receber pedidos quase imediatos para ajudar a extrair inteligência do volume gigantesco de material visual que havia sido coletado, incluindo imagens de drones, câmeras de campo, câmeras corporais e até vídeos publicados no TikTok. Na época, a Airis Labs tinha apenas sete funcionários. A solução foi recrutar voluntários conhecidos de unidades de inteligência e organizações onde os fundadores haviam trabalhado anteriormente. Em poucos dias, o sistema já estava sendo implantado em campo.

Friedman foi direto ao ponto sobre a natureza dessa experiência: diante dos eventos, não existiu o luxo de construir a empresa de forma gradual. Tudo foi desenvolvido em um ambiente operacional real, sob pressão de tempo de guerra. A vantagem, segundo ele, era que o feedback vinha de forma imediata, e a equipe enxergava instantaneamente o que funcionava e o que precisava ser ajustado. Essa dinâmica criou uma diferenciação que o CEO considera central: a IA da Airis Labs não é treinada em dados sintéticos nem baseada em suposições de desenvolvedores. Ela é construída sobre dados operacionais do mundo real.

Friedman também destacou que, embora muitas empresas estejam correndo para se posicionar como plataformas de IA para o campo de batalha, a maioria ainda depende de modelos genéricos que deixam os analistas sobrecarregados por volumes enormes de informação sem a capacidade de gerar inteligência realmente significativa. É nesse ponto que a Airis Labs acredita ter uma vantagem difícil de replicar.

O financiamento e o que ele revela sobre o setor

Os US$ 60 milhões captados pela Airis Labs não são apenas uma validação financeira da empresa em si. Eles dizem muito sobre como o mercado de startups em defesa e segurança está se comportando diante do avanço da inteligência artificial. Nos últimos anos, o interesse de fundos de venture capital em tecnologias de defesa cresceu de forma bastante significativa, especialmente para empresas que conseguem demonstrar aplicação real e não apenas potencial teórico.

A rodada mais recente e maior, uma Série B de US$ 31 milhões, foi liderada pela PSG Equity e contou com a participação da TLV Partners, que também havia liderado a rodada anterior, além da Stepstone Group, Redseed Ventures e investidores-anjo como Eyal Waldman, Jeff Horing, Yasmin Lukatz e David Chinn. Antes disso, a empresa captou US$ 11 milhões em uma Série A, enquanto a rodada Seed foi fechada em setembro de 2023, também com a liderança da TLV Partners.

A presença de Eyal Waldman como primeiro investidor e membro do conselho da empresa merece destaque. Waldman é o fundador da Mellanox Technologies, companhia vendida para a Nvidia por US$ 7 bilhões. Em declaração sobre seu investimento, Waldman afirmou que a Airis Labs é uma empresa nascida de um entendimento profundo do problema que se propõe a resolver. Segundo ele, os fundadores compreendem a necessidade operacional a partir de experiência direta em campo, e não apenas a partir de pesquisa de mercado, uma vantagem extremamente difícil de replicar depois.

O que também é interessante observar é a velocidade com que a empresa chegou a esse nível de captação permanecendo em modo stealth. Isso significa que as conversas com investidores aconteceram de forma bastante discreta, sem o barulho típico de rodadas de financiamento em estágios iniciais, e ainda assim resultaram em números expressivos. Isso só é possível quando a tecnologia fala por si mesma, quando os cases de uso são suficientemente sólidos para convencer sem precisar de uma campanha de relações públicas por trás. Para o ecossistema de financiamento em tecnologia de defesa, esse modelo de crescimento silencioso mas consistente está se tornando cada vez mais comum entre empresas israelenses com DNA em inteligência militar. 🚀

Clientes governamentais e expansão para novos mercados

A plataforma da Airis Labs já está em uso por diversas organizações governamentais ao redor do mundo. Entre os casos mencionados pela empresa, destaca-se a participação em um programa do Exército dos Estados Unidos voltado para acelerar a integração de novas tecnologias. Além disso, a Airis também trabalha com agências de aplicação da lei e de alfândega, ampliando o escopo de atuação para além do campo de batalha tradicional.

Com a saída do modo stealth, a empresa também sinalizou planos de dobrar o quadro de funcionários. Atualmente, a Airis Labs emprega cerca de 50 pessoas, a maioria delas em Tel Aviv, com uma equipe adicional baseada na região de Washington, D.C. O crescimento planejado terá ênfase na expansão do centro de desenvolvimento em Israel, onde o talento em engenharia de IA e experiência em segurança nacional se concentra de forma bastante densa.

Essa combinação de presença em Israel e nos Estados Unidos não é casual. Ela reflete uma estratégia dupla de manter o desenvolvimento técnico próximo de uma das comunidades de inteligência mais ativas do mundo, enquanto posiciona a frente comercial e de operações perto dos maiores compradores governamentais de tecnologia de defesa do planeta. Essa estrutura geográfica também facilita a conformidade regulatória e o relacionamento com agências que exigem proximidade e confiança para adotar novas ferramentas em suas operações.

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O desafio técnico por trás da plataforma

O problema que a Airis Labs se propõe a resolver é considerado um dos mais difíceis na inteligência artificial aplicada atualmente: capacitar máquinas a compreender eventos do mundo real a partir de informações visuais ruidosas, parciais, dessincronizadas e desestruturadas. Diferentemente de muitos sistemas de IA projetados para operar sobre conjuntos de dados limpos e organizados, a Airis foi construída especificamente para condições caóticas de campo, onde a informação chega de múltiplas fontes, em formatos diferentes, com qualidades de imagem variáveis e de perspectivas conflitantes.

Isso significa que a arquitetura do sistema precisa lidar com problemas como variação extrema de iluminação, ângulos inconsistentes entre câmeras, interrupções de transmissão, compressão de vídeo que degrada detalhes visuais e a presença constante de elementos visuais irrelevantes que precisam ser filtrados sem que informações críticas sejam perdidas. Cada um desses desafios isoladamente já representa uma área de pesquisa ativa em visão computacional. Resolver todos simultaneamente, em tempo real, com a confiabilidade que operações de segurança exigem, é o tipo de problema de engenharia que separa protótipos de plataformas prontas para produção.

A abordagem da Airis Labs de treinar seus modelos com dados operacionais reais, e não com datasets sintéticos ou curados, dá à plataforma uma vantagem em termos de robustez e generalização. Modelos treinados em condições reais tendem a lidar melhor com as imperfeições e surpresas que o mundo real apresenta constantemente, algo que sistemas baseados em dados limpos frequentemente não conseguem reproduzir quando são colocados em cenários de produção genuínos.

O que está por vir no cruzamento entre IA e segurança visual

A trajetória da Airis Labs ilumina uma tendência que vai muito além da empresa em si. O cruzamento entre inteligência artificial, análise de imagem em larga escala e aplicações de segurança está criando uma categoria inteiramente nova de ferramentas que vai redefinir como governos, forças de segurança e organizações de defesa operam nas próximas décadas. A capacidade de processar e interpretar dados visuais em tempo real, de múltiplas fontes e com contexto cruzado, é algo que estava reservado para ficção científica há não muito tempo e que hoje já é produto comercializável com casos de uso documentados.

O que empresas como a Airis Labs estão construindo vai além da tecnologia de reconhecimento facial ou de detecção de objetos isolada. Estamos falando de plataformas que constroem um entendimento situacional completo a partir de fragmentos visuais dispersos, que conseguem conectar pontos entre diferentes fontes e momentos, e que entregam esse entendimento de forma que um ser humano consiga agir sobre ele rapidamente. Isso tem implicações diretas não só para operações militares, mas para investigações criminais, resposta a emergências, monitoramento de fronteiras e qualquer cenário onde a velocidade de compreensão visual seja crítica para o resultado.

Com o capital em mãos, a Airis Labs deve acelerar a expansão para novos mercados e ampliar significativamente o time, que ainda é relativamente enxuto para o tamanho do problema que está atacando. O crescimento esperado nas próximas etapas vai demandar tanto engenharia de ponta quanto especialistas em operações de campo, criando um perfil de contratação bastante específico que combina profundo conhecimento técnico com experiência operacional real.

A Airis Labs, ao sair do modo stealth com US$ 60 milhões captados e uma plataforma testada em condições extremas, chega ao mercado em uma posição bastante diferente da maioria das startups que competem nesse espaço. Ela não precisa convencer ninguém de que a tecnologia funciona. Ela já demonstrou. E isso, no setor de defesa e segurança, é uma vantagem competitiva que dinheiro sozinho não consegue comprar. O próximo capítulo da empresa vai depender de como ela consegue escalar essa vantagem para contextos mais amplos sem perder a precisão e a confiabilidade que a tornou relevante desde o início. 🌐

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