Anthropic libera controle de computador para o Claude e SK Hynix fecha pedido histórico de US$ 8 bilhões com a ASML
Anthropic e SK Hynix protagonizaram dois dos movimentos mais comentados do setor de tecnologia nos últimos dias, e não é difícil entender o porquê.
De um lado, a Anthropic acaba de anunciar uma nova capacidade para o Claude que coloca o assistente no controle direto do seu computador, abrindo espaço para uma nova geração de agentes de IA que fazem muito mais do que responder perguntas.
Do outro, a SK Hynix fechou o que pode ser o maior pedido individual da história da ASML, com uma ordem de nada menos que US$ 8 bilhões em equipamentos de última geração para fabricação de chips.
São dois eventos que, à primeira vista, parecem não ter nada em comum, mas que na prática contam a mesma história 👇
A inteligência artificial está crescendo em duas frentes ao mesmo tempo: no software, com agentes cada vez mais autônomos e capazes, e no hardware, com uma corrida acelerada para produzir os chips que vão sustentar tudo isso.
Vamos entender o que cada um desses acontecimentos significa e por que eles importam tanto para o setor agora.
Claude no controle do seu computador: o que a Anthropic realmente anunciou
A Anthropic deu um passo que muita gente já esperava, mas que ainda assim surpreendeu pela forma como foi executado. A empresa anunciou uma nova funcionalidade para suas ferramentas Claude Cowork e Claude Code, permitindo que o Claude assuma o controle direto de um computador. Na prática, isso significa que ele pode mover o cursor, clicar em botões, digitar texto, navegar por páginas da web e acessar arquivos e aplicativos diferentes, tudo isso de forma autônoma, sem que o usuário precise intervir a cada etapa.
Isso não é só uma atualização de recurso. É uma mudança de paradigma no que se espera de um assistente de inteligência artificial.
Essa funcionalidade, chamada internamente de computer use, coloca o Claude em um território que vai muito além do que modelos de linguagem costumavam fazer até então. Antes, o papel de um assistente como esse era basicamente responder perguntas, resumir textos, gerar código ou ajudar em tarefas de escrita. Agora, ele pode literalmente operar um ambiente de trabalho digital da mesma forma que um humano faria, abrindo arquivos, interagindo com interfaces gráficas e encadeando ações complexas para completar um objetivo definido pelo usuário. É como ter um estagiário digital que não precisa de instruções a cada clique.
O impacto prático disso é enorme para quem trabalha com automação, desenvolvimento de software, análise de dados ou qualquer área que envolva tarefas repetitivas em computador. Empresas que hoje gastam horas configurando pipelines de automação com ferramentas tradicionais de RPA podem encontrar no Claude uma alternativa mais flexível e adaptável, já que ele consegue lidar com mudanças de interface e contextos imprevistos de uma forma que scripts tradicionais simplesmente não conseguem.
Segurança é uma preocupação central
A Anthropic fez questão de ressaltar que está implementando salvaguardas para evitar que atores mal-intencionados explorem essas capacidades avançadas de agente. Essa é uma preocupação legítima e que ganhou destaque nos últimos meses, especialmente após a popularização do OpenClaw, uma plataforma de agentes de IA de código aberto lançada em novembro.
O OpenClaw, desenvolvido por Peter Steinberger, que depois se juntou à OpenAI, permite que usuários configurem agentes de IA capazes de executar tarefas diretamente em seus computadores, desde verificar e-mails até gerenciar arquivos do sistema. A ferramenta virou um sucesso entre o público mais técnico, mas também acendeu alertas entre especialistas em cibersegurança.
Em fevereiro, por exemplo, uma pesquisadora de segurança e alinhamento de IA no laboratório de Superinteligência da Meta relatou no X que seu próprio agente OpenClaw deletou e-mails em massa sem nenhuma permissão. Esse tipo de incidente mostra por que empresas como a Cisco e a NVIDIA estão correndo para lançar ferramentas de segurança específicas para proteger contra agentes de IA descontrolados.
A própria Cisco apresentou recentemente uma série de novas ofertas de segurança projetadas exatamente para esse cenário, reconhecendo que dar a um modelo de IA o poder de controlar um computador inteiro é ótimo quando funciona, mas pode causar problemas sérios quando algo sai errado, como a exclusão permanente de e-mails importantes ou programas inteiros do sistema.
Por que essa mudança importa além do hype
Quando a Anthropic lança algo assim, vale a pena pausar e pensar no que está acontecendo no nível mais estrutural do setor. O Claude deixando de ser apenas um modelo de texto para se tornar um agente com capacidade de agir no mundo real representa uma transição que muitos pesquisadores de inteligência artificial consideravam o próximo grande salto da área. E esse salto está acontecendo agora, não em algum futuro distante.
Agentes de IA autônomos, que conseguem perceber o ambiente digital ao redor e tomar decisões baseadas nisso, são o tipo de tecnologia que começa a redefinir o que significa produtividade no trabalho. Uma pessoa com acesso a um agente assim pode delegar não só a criação de conteúdo ou a análise de dados, mas também a execução de processos inteiros, desde a pesquisa até a entrega final de um resultado. Isso tem implicações profundas para carreiras, para fluxos de trabalho corporativos e para o próprio conceito de trabalho digital.
A movimentação da Anthropic nessa direção coloca pressão direta sobre concorrentes como OpenAI, Google DeepMind e Meta AI, que também estão desenvolvendo capacidades similares para seus próprios modelos. O mercado de agentes de IA está se tornando um dos campos de batalha mais disputados da tecnologia, e quem conseguir entregar a experiência mais confiável, segura e útil vai sair na frente.
A Anthropic tem apostado forte na narrativa de segurança e controle, e o lançamento do computer use parece ter sido cuidadosamente calibrado para manter essa reputação intacta enquanto expande as fronteiras do que o Claude pode fazer.
SK Hynix e ASML: US$ 8 bilhões que dizem muito sobre o futuro dos chips
Do outro lado do mundo, a SK Hynix estava fechando um acordo que fez o setor de semicondutores parar para prestar atenção. A empresa sul-coreana, uma das maiores fabricantes de memória do planeta, fez um pedido de 11,95 trilhões de wons (cerca de US$ 7,97 bilhões) em equipamentos avançados de litografia EUV junto à ASML, a empresa holandesa que fabrica as máquinas mais avançadas do mundo para produção de chips.
Para contextualizar: a ASML é praticamente um monopólio em tecnologia EUV, o processo usado para fabricar os semicondutores mais modernos e densos que existem. Sem ela, nenhuma fábrica de chips de ponta consegue operar.
Segundo o registro regulatório da SK Hynix, a compra dos equipamentos deve ser concluída até 31 de dezembro de 2027, e os mesmos serão utilizados para a produção em massa de novos produtos. Analistas do mercado apontam que os equipamentos serão destinados tanto à nova planta da empresa na cidade de Yongin, cuja abertura foi antecipada para fevereiro de 2027, quanto à fábrica M15X em Cheongju, que vai produzir chips de memória de alta largura de banda, os famosos HBM.
HBM: o ingrediente que a IA não vive sem
O HBM é exatamente o tipo de chip usado nos aceleradores de IA como os da NVIDIA. Ele é um ingrediente crítico para GPUs de última geração, e a demanda por ele explodiu junto com o boom de inteligência artificial dos últimos dois anos. Sem memória HBM em quantidade suficiente, não há como escalar os data centers que rodam modelos como o próprio Claude ou qualquer outro grande modelo de linguagem.
Esse cenário de alta demanda ficou ainda mais evidente com os resultados recentes da Micron, outra gigante do setor de memória. A empresa reportou lucro por ação de US$ 12,20 sobre receita de US$ 23,86 bilhões no segundo trimestre, o que representa um aumento de 682% no lucro e 196% na receita em comparação com o mesmo período do ano anterior. A projeção para o terceiro trimestre também superou as expectativas dos analistas, mostrando que a fome por chips de memória para IA não dá sinais de desaceleração.
O que torna o acordo da SK Hynix com a ASML ainda mais relevante é o contexto em que ele acontece. O setor de semicondutores passou por um ciclo de queda entre 2022 e 2023, com excesso de estoque e queda de preços. A retomada foi puxada justamente pela demanda de IA, e a SK Hynix está apostando que essa demanda vai continuar crescendo por muitos anos. Um pedido de US$ 8 bilhões é, na prática, uma declaração de que a empresa acredita que o mercado de chips para IA não vai desacelerar tão cedo.
O panorama mais amplo do setor de tecnologia
Enquanto Anthropic e SK Hynix dominavam os holofotes, o restante do setor também não ficou parado. As ações de tecnologia operaram em tom contido nesta terça-feira, depois de uma recuperação dos mercados impulsionada por esperanças de negociações entre Estados Unidos e Irã que poderiam aliviar tensões geopolíticas.
Investidores também continuam digerindo os anúncios da NVIDIA feitos durante a conferência GTC na semana anterior, onde o CEO Jensen Huang previu que as vendas de chips para IA poderão superar a marca de US$ 1 trilhão até 2027. A empresa apresentou novos chips e uma plataforma de IA agêntica, reforçando sua posição como líder do mercado de inferência e treinamento de modelos.
Outras movimentações que chamaram atenção
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A Wing, empresa de entregas por drone da Alphabet (controladora do Google), anunciou planos para expandir suas operações de entrega aérea para São Francisco em breve. A companhia aposta nos drones como solução para os desafios da entrega de última milha de itens domésticos e refeições em áreas residenciais densas.
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A Apple confirmou que realizará sua conferência anual WWDC em 8 de junho, na sede em Cupertino. O evento será particularmente importante porque a empresa deve apresentar mais detalhes sobre a reformulação da Siri com inteligência artificial, que enfrentou atrasos repetidos, além de aprofundar sua estratégia de IA. O CEO Tim Cook também comentou que a semana do lançamento do MacBook Neo, o primeiro MacBook de baixo custo da Apple com preço a partir de US$ 599, foi a melhor semana da história do Mac em termos de novos usuários.
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A Amazon informou que os serviços da AWS no Bahrein sofreram interrupções devido a atividades de drones na região, em meio ao conflito no Oriente Médio. A empresa está ajudando clientes a migrar para regiões alternativas da AWS enquanto trabalha na recuperação.
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Elon Musk apresentou o projeto Terafab, uma megafábrica de chips em Austin, Texas, que seria um empreendimento conjunto entre Tesla, SpaceX e xAI. Com custos iniciais estimados entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões, Musk chamou o projeto de o mais ambicioso da história da fabricação de semicondutores, argumentando que fabricantes como TSMC e Samsung não conseguem produzir chips rápido o suficiente para as necessidades de IA e robótica de suas empresas.
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A OpenAI anunciou a aquisição da Astral, empresa que desenvolve ferramentas para a linguagem de programação Python, com o objetivo de turbinar sua ferramenta de codificação Codex e competir de forma mais efetiva com o Claude Code da Anthropic.
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A Uber fechou um acordo de até US$ 1,25 bilhão com a Rivian para a compra de até 50 mil robotáxis totalmente autônomos, com entregas iniciais previstas para San Francisco e Miami a partir de 2028.
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Ações da Figma continuaram em queda após o Google atualizar sua plataforma de design Stitch, que compete diretamente com as ferramentas da Figma e da Adobe. O Google adicionou comandos de voz ao Stitch, permitindo que usuários façam design de interfaces por meio de linguagem natural.
Software e hardware: as duas rodas do mesmo veículo
É tentador tratar esses eventos como histórias separadas, mas eles estão profundamente conectados. O avanço do Claude como agente autônomo só é possível porque existe infraestrutura de hardware capaz de rodar modelos cada vez maiores e mais complexos em tempo real. Cada vez que a Anthropic ou qualquer outra empresa de inteligência artificial expande as capacidades de seus modelos, a demanda por poder computacional cresce junto, e esse poder computacional depende diretamente de chips como os que a SK Hynix produz e das máquinas que a ASML fornece.
Essa interdependência entre software e hardware é um dos aspectos mais fascinantes do atual momento da IA. O progresso em um lado alimenta e exige o progresso no outro, criando um ciclo de investimento que está movimentando trilhões de dólares ao redor do mundo. Países, empresas e governos estão todos tentando entender como se posicionar nessa corrida, seja investindo em fábricas de chips, seja desenvolvendo modelos de linguagem, seja criando regulações que definem as regras do jogo.
Para quem acompanha o setor de tecnologia, o que está acontecendo agora é um daqueles momentos raros em que é possível ver claramente a direção para onde as coisas estão indo. A combinação de agentes de IA mais capazes, como o Claude com computer use, com uma infraestrutura de hardware sendo turbinada por investimentos como o da SK Hynix na ASML, aponta para um setor que está longe de ter atingido seu teto.
As peças estão se movendo rápido, e entender cada uma delas separadamente é tão importante quanto enxergar o quadro completo. 🚀
