Centenas de avatares falsos pró-Trump gerados por IA invadem as redes sociais
As redes sociais viraram um campo de batalha silencioso às vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA, e o exército que avança por lá não é feito de gente de verdade.
Mais de 300 contas foram identificadas no TikTok, Instagram, Facebook e YouTube, todas protagonizadas por avatares gerados por inteligência artificial com um objetivo bem claro: parecer humanas, ganhar seguidores e empurrar mensagens pró-Trump para o maior número de pessoas possível.
O New York Times rastreou esse fenômeno desde janeiro de 2026 e o que encontrou é, no mínimo, perturbador. Algumas dessas contas já acumulam mais de 35 mil seguidores, e certos posts ultrapassaram meio milhão de visualizações, sem que nenhuma delas fosse identificada como conteúdo gerado por IA. E o detalhe que talvez mais chame atenção em tudo isso: o próprio presidente Trump republicou o conteúdo de um desses avatares no Truth Social, uma figura loira platinada que espalhava alegações sem fundamento sobre o governador da Califórnia. 😬
A pergunta que fica é simples e ao mesmo tempo assustadora: se até o presidente compartilhou conteúdo fabricado, o que esperar do eleitor comum rolando o feed numa tarde qualquer?
Os vídeos que parecem reais mas são 100% fabricados
O padrão dessas contas é tão repetitivo que, olhando de fora, fica quase óbvio. Em um vídeo no TikTok, uma loira se filma com um grupo de mulheres numa pista de corrida e diz: se você apoia Trump, acabou de fazer uma amiga. Em outro, uma morena aparece com um grupo num estádio e repete a mesma frase. Num terceiro, uma ruiva está numa quadra de basquete e, adivinhe, diz exatamente a mesma coisa.
Cada vídeo ainda vem acompanhado de uma legenda idêntica e gramaticalmente estranha, algo como: sou nova aqui e amo Deus, a América e Trump!! Todos esses vídeos são obra da inteligência artificial, e esse é apenas um dos muitos formatos que essas contas utilizam para tentar parecer autênticas e conquistar engajamento.
Os avatares costumam se apresentar como homens e mulheres comuns, quase sempre com aparência atraente, olhando de forma cativante para a câmera enquanto falam sobre temas quentes como a guerra no Irã, aborto ou até artistas como Bad Bunny. As postagens são recheadas de referências ao chamado America First e ao que descrevem como esquerda radical. Tudo embalado num formato que imita perfeitamente o comportamento de influenciadores reais.
A escala da operação e quem está rastreando
O New York Times começou a monitorar esses posts de avatares pró-MAGA gerados por IA em janeiro de 2026 e identificou pelo menos 304 contas espalhando esse tipo de conteúdo, algumas das quais já desapareceram desde então. Pesquisadores do Governance and Responsible AI Lab da Universidade de Purdue, conhecido como GRAIL, encontraram outra dúzia de contas distribuídas entre TikTok, Instagram e Facebook. Eric Nelson, analista de investigações especiais da empresa de mitigação de ameaças digitais Alethea, identificou mais nove contas no YouTube.
Nenhuma dessas contas revisadas pelo jornal estava identificada como conteúdo gerado por inteligência artificial. E o mais importante: nem o New York Times nem os pesquisadores consultados encontraram redes semelhantes operando em favor de candidatos ou pautas de esquerda. Esse detalhe é relevante porque mostra que, pelo menos nessa escala e com esse grau de coordenação, a operação identificada tem um direcionamento político muito específico.
Quem está por trás de tudo isso ainda é um mistério. Especialistas dizem que determinar se essas contas são produto de uma fazenda de conteúdo contratada, de uma operação de influência estrangeira, de um experimento ou de algo completamente diferente é extremamente difícil. O consenso entre os pesquisadores, no entanto, é que criar esse tipo de avatar está ficando cada vez mais fácil e barato, principalmente para empresas de marketing e contractors que agora se especializam em desenvolver e distribuir avatares de IA em massa.
Sinais que denunciam a artificialidade
Apesar da sofisticação visual, muitas dessas contas carregam sinais que entregam sua origem artificial para quem presta atenção. Os mesmos personagens aparecem em múltiplas contas diferentes: uma loira de tranças com vestido esvoaçante numa fazenda ao entardecer, uma mulher de blusa roxa sentada em cadeira de rodas, uma mulher negra usando um boné vermelho MAGA e óculos aviador. Vários desses perfis se seguem mutuamente, formando clusters interligados que compartilham linguagem idêntica, imagens repetidas, fotos de perfil similares e até os mesmos efeitos sonoros.
A maioria das contas afirma ser de diferentes estados americanos, mas utiliza um inglês truncado e cheio de erros gramaticais que denunciam inconsistências. Trump é chamado de presidont nas legendas. As bios dizem coisas como sharing you the truth e pedem para os espectadores follow me first if like my live. Pelo menos 13 contas tinham bios praticamente idênticas, declarando orgulho republicano e pedindo que apoiadores de Trump se manifestassem. 🇺🇸
Um caso particularmente curioso é o do avatar repostado pelo próprio Trump, que tem mais de 51 mil seguidores no TikTok. Nos seus dois primeiros posts, em 15 de janeiro, esse avatar falava com um sotaque estrangeiro carregado. No dia seguinte, já tinha adotado um sotaque americano. Esse tipo de inconsistência é um dos sinais clássicos de conteúdo sintético que muda rapidamente de configuração conforme o operador ajusta os parâmetros do modelo de geração.
Como esses avatares funcionam na prática
A mecânica por trás dessas contas é mais sofisticada do que parece à primeira vista. Os avatares de inteligência artificial são criados com ferramentas de síntese de imagem e vídeo que já estão amplamente disponíveis no mercado, algumas delas gratuitas ou com planos acessíveis. Eles recebem rostos gerados digitalmente, vozes clonadas ou sintetizadas, e até histórias de vida fictícias que tornam o perfil mais crível para quem passa rapidinho pelo feed.
O resultado é uma persona completa, com foto de perfil convincente, bio elaborada e um estilo de postagem que imita o comportamento de criadores de conteúdo reais, com direito a stories, reels e até comentários respondidos de forma automatizada.
O que torna essa operação ainda mais eficiente é o volume. Com centenas de contas operando de forma coordenada, o mesmo tipo de mensagem política consegue atingir públicos diferentes em plataformas diferentes ao mesmo tempo, criando aquela sensação de que aquele assunto está em todo lugar. Segundo Zuhair Lakhani, cofundador da startup de publicidade com IA chamada Doublespeed, apoiada pela Andreessen Horowitz, cada post com esses avatares pró-Trump provavelmente custa entre 1 e 3 dólares para ser gerado. A empresa, que opera fazendas de bots movidas por smartphones e distribui hordas de influenciadores sintéticos, divulga que uma única pessoa agora consegue orquestrar o que antes exigia uma equipe de 30 criadores e 40 mil dólares, por apenas 10% desse custo.
Lakhani afirmou que a Doublespeed recusou trabalhar com campanhas políticas, apesar de ter sido procurada por democratas, republicanos e partidos estrangeiros. Segundo ele, a recusa veio por uma questão de bússola moral. Mas ele reconheceu que existem muitas empresas por aí aceitando esses contratos, e que os valores envolvidos são grandes e muito tentadores. 🤖
A estratégia por trás do conteúdo misto
Nem todas as contas identificadas se dedicam exclusivamente à política. Pelo menos por enquanto, algumas parecem mais focadas em inflar métricas de engajamento, solicitando seguidores e comentários de forma insistente. Outras se parecem com golpes românticos de catfishing. Algumas vendem cremes depilatórios ou pacotes turísticos para a China, enchendo seus feeds com conteúdo gerado artificialmente sobre entretenimento, esportes, religião e outros assuntos não políticos.
Essa mistura de temas não é acidental. Ao intercalar conteúdo leve e de entretenimento com mensagens políticas direcionadas, essas contas constroem uma aparência de autenticidade que dificulta a detecção tanto pelos algoritmos das plataformas quanto pelos próprios usuários. Um perfil que fala sobre basquete, receitas e fé cristã parece muito mais humano do que um que só publica propaganda política 24 horas por dia.
Kaylyn Jackson Schiff, codiretora do GRAIL, observou que algumas contas parecem estar tentando atingir públicos específicos fazendo ajustes mínimos nos avatares. O New York Times acompanhou uma conta desde o início de fevereiro, quando ela começou a postar como um avatar moreno de olhos castanhos dentro de um carro. Desde então, a conta publicou 37 vídeos. O avatar mudou seis vezes: o cabelo ficou loiro, os olhos ficaram azuis e assim por diante. Esses ajustes sutis sugerem uma operação de teste A/B, onde diferentes versões do mesmo perfil são testadas para ver qual gera mais engajamento com cada tipo de audiência.
Avatares militarizados e a exploração de conflitos
Com frequência, esses avatares aparecem em cenários militares ou vestidos como agentes de imigração, como se tentassem capitalizar sobre conflitos recentes. Uma conta no Instagram analisada pelo Washington Post mostrava um avatar de uma soldada loira gerada por IA posando com Trump e outros líderes mundiais, e essa conta conseguiu acumular mais de um milhão de seguidores.
Durante uma única semana na primavera de 2026, dez contas diferentes publicaram vídeos semelhantes de mulheres em uniformes militares, todas usando a mesma cadência artificial de fala para dizer que se aquilo ofendesse, tudo bem, era só continuar rolando, antes de pedir que os espectadores clicassem em seguir. Outros posts mostram bandeiras americanas distorcidas e outros sinais característicos de conteúdo gerado por inteligência artificial.
Apesar da qualidade de alguns desses vídeos beirar o que se convencionou chamar de slop, aquele conteúdo de baixa qualidade gerado em massa por IA, e de parte do engajamento possivelmente vir de atividade automatizada de bots, os pesquisadores notaram algo preocupante nos comentários dessas postagens: muitos usuários reais acreditavam que os avatares eram pessoas de verdade.
O impacto real nas eleições e na opinião pública
Falar que isso afeta as eleições pode soar como exagero para quem ainda associa influência política a comícios e debates televisivos, mas os números contam uma história diferente. Quando um único post de um avatar de IA ultrapassa meio milhão de visualizações sem nenhuma marcação de conteúdo sintético, ele entra no mesmo fluxo de informação que notícias verificadas, opiniões de especialistas e declarações oficiais. Para o algoritmo das redes sociais, engajamento é engajamento, independentemente de quem ou o que gerou aquele conteúdo.
Andrew Yoon, membro da equipe técnica da CivAI, organização sem fins lucrativos dedicada a educar o público sobre as capacidades e consequências da IA, foi direto ao ponto: esses avatares estão tentando espalhar mensagens políticas e dar a ilusão de consenso. Inundar a zona com toneladas de vídeos parece ser uma estratégia desenhada para criar uma falsa sensação de opinião majoritária.
Pesquisadores que estudam desinformação apontam que o perigo maior não está necessariamente em convencer alguém a mudar de voto de forma direta, mas em criar uma atmosfera de realidade alternativa onde certas alegações parecem amplamente aceitas porque aparecem em muitos lugares ao mesmo tempo. Quando você vê a mesma história sendo contada por dez perfis diferentes em duas plataformas diferentes no mesmo dia, o cérebro humano tende a interpretar aquilo como consenso social, mesmo que todos esses perfis sejam controlados pela mesma operação. Um especialista descreveu essa abordagem como modo spray em vez de precisão, referindo-se à estratégia de saturar o ambiente informacional em vez de mirar indivíduos específicos. 🧠
O episódio em que o presidente Trump republicou conteúdo de um desses avatares é emblemático justamente porque expõe uma vulnerabilidade que vai além do eleitor médio. Se uma figura com acesso a assessores, equipes de comunicação e estrutura de verificação consegue ser alcançada por um perfil sintético, o problema está muito além da alfabetização digital da população.
O que as plataformas estão fazendo a respeito
TikTok, Instagram, Facebook e YouTube têm políticas que exigem a identificação de conteúdo gerado por inteligência artificial, especialmente em contextos sensíveis. O problema é que essas políticas dependem, em grande parte, de autodeclaração por parte de quem publica ou de denúncias de outros usuários.
O TikTok declarou que realizou uma análise cuidadosa das 304 contas identificadas pelo New York Times e encontrou zero indícios de operações de influência oculta. A plataforma concluiu que as contas eram spammers tentando gerar engajamento, algo que classificou como uma ocorrência regular e infeliz em telefones e redes sociais. O TikTok informou que estava em processo de remoção dessas contas.
A Meta disse que exige que os usuários, sob ameaça de penalidades, divulguem quando postagens com conteúdo fotorrealista são criadas ou editadas usando IA. No entanto, reconheceu que conteúdo gerado por inteligência artificial pode ser difícil de identificar, especialmente à medida que a tecnologia evolui. O YouTube declarou que estava revisando os canais com avatares políticos de IA e encerrando aqueles que violassem as políticas da plataforma contra spam e práticas enganosas.
Depois das reportagens, algumas plataformas agiram para remover os perfis identificados, mas especialistas em segurança digital alertam que isso é pouco mais do que um gesto simbólico diante da escala do problema. A infraestrutura que criou aquelas 300 contas pode criar 3.000 novas em questão de dias, com rostos diferentes, nomes diferentes e histórias de vida ligeiramente modificadas para driblar os sistemas de detecção.
A posição do Partido Republicano
O Comitê Nacional Republicano negou qualquer envolvimento com as contas identificadas. Zach Parkinson, diretor de comunicação do grupo, disse que campanhas republicanas deveriam usar todas as ferramentas possíveis em suas disputas, incluindo inteligência artificial, mas ressaltou que a tecnologia não é uma bala de prata.
Segundo Parkinson, nada vai substituir uma mensagem vencedora ou um grande candidato no lado positivo, ou áudio, vídeo e elementos visuais reais em um anúncio de ataque. Para ele, autenticidade ainda é rei. Essa declaração é interessante porque reconhece a utilidade da IA como ferramenta de campanha ao mesmo tempo em que tenta se distanciar das práticas específicas reveladas pela reportagem.
Por que isso importa além das fronteiras americanas
Seria um erro confortável pensar que esse é um problema exclusivamente americano. O Brasil, assim como praticamente qualquer democracia que realiza eleições com regularidade e tem uma população conectada às redes sociais, está igualmente exposto a esse tipo de operação. As ferramentas de criação de avatares de IA são globais, acessíveis e cada vez mais baratas, e o modelo de negócio por trás de campanhas de desinformação política não respeita fronteiras geográficas. O que os EUA estão enfrentando agora é, em muitos aspectos, um laboratório do que pode acontecer em qualquer processo eleitoral ao redor do mundo nos próximos anos.
A alfabetização digital precisa evoluir junto com a tecnologia, e isso inclui ensinar as pessoas a questionar não apenas o conteúdo que consomem, mas a própria existência de quem o produz. Verificar se um perfil é real, checar se uma face passou por geração sintética, desconfiar de contas que surgem do nada com milhares de seguidores e discurso muito alinhado com um lado político específico são habilidades que estão se tornando essenciais para navegar nas redes sociais com um mínimo de segurança informacional. Não é paranoia, é uma adaptação necessária a um ambiente que mudou drasticamente nos últimos dois anos por conta dos avanços da inteligência artificial generativa.
O cenário que o New York Times revelou em 2026 é um sinal claro de que a relação entre tecnologia, política e verdade ficou muito mais complexa, e que os instrumentos que temos hoje para lidar com essa complexidade ainda estão muito aquém do desafio. Os avatares pró-Trump que invadiram as plataformas são um capítulo dessa história, mas dificilmente serão o último. A questão é saber se as respostas, sejam elas tecnológicas, legais ou educacionais, vão conseguir acompanhar o ritmo antes que o dano às democracias se torne irreversível. 🌐
