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Câmeras com IA provocam estado de emergência em cidade americana e escancararam debate sobre vigilância e privacidade

Tecnologia de vigilância virou o centro de uma baita polêmica nos Estados Unidos, e tudo começou com uma mãe passeando com seu bebê recém-nascido.

Dierdre Shea notou um objeto estranho no final da rua: uma câmera preta com um painel solar no topo. Parecia algo simples, quase insignificante. Mas aquele pequeno dispositivo foi o estopim para uma das maiores crises políticas já vividas por Troy, uma cidade de 52 mil habitantes às margens do Rio Hudson, no estado de Nova York.

O que veio depois foi uma sequência de eventos que mistura inteligência artificial, debate sobre privacidade, disputa política acirrada e, pasmem, uma declaração de estado de emergência por causa de câmeras de rua. 😮

As câmeras em questão são da empresa Flock Safety, e elas não são câmeras comuns. Elas leem placas de veículos automaticamente, criam uma espécie de impressão digital de cada carro que passa — incluindo dados como cor, modelo, adesivos no para-choque e até suportes de armas — e alimentam um banco de dados nacional compartilhado com departamentos policiais em mais de 6.000 comunidades americanas. Tudo isso sem que os moradores de Troy soubessem que as câmeras tinham sido instaladas, sem aprovação do conselho municipal e sem qualquer participação cidadã no processo.

O resultado foi uma cidade dividida, uma prefeita republicana de um lado, um conselho democrata do outro, mais de 150 pessoas protestando em reunião pública e um processo judicial rolando até hoje. ⚖️

O caso de Troy não é só uma história local curiosa. Ele funciona como um espelho para um debate que está crescendo em todo o território americano sobre os limites da vigilância com IA, o direito à privacidade nas vias públicas e quem, afinal, tem o poder de decidir como a tecnologia entra nas nossas vidas.

Como tudo começou: câmeras instaladas sem aviso

Shea, uma designer industrial de 39 anos que se mudou da região da Baía de São Francisco para Troy durante a pandemia, pesquisou sobre o dispositivo que encontrou e rapidamente identificou que se tratava de um leitor automático de placas assistido por inteligência artificial. Ela e o parceiro até brincaram sobre acertar a câmera com um balão de tinta ou derrubá-la com um estilingue. Mas em vez de partir para a ação direta, Shea fez algo que acabou tendo um efeito muito maior: enviou um e-mail para vizinhos e amigos com o assunto Flock Cameras in Troy — Please Share.

A mensagem se espalhou rápido. Moradores foram às redes sociais, procuraram vereadores e começaram a fazer perguntas que ninguém havia respondido antes. Quantas câmeras foram instaladas? Onde exatamente? Quem tem acesso às imagens e aos dados coletados? Por quanto tempo essas informações ficam armazenadas? As respostas demoraram a chegar, e quando chegaram, vieram de forma fragmentada e pouco satisfatória, o que só aumentou a desconfiança da população em relação ao projeto.

De acordo com a presidente do conselho municipal, Sue Steele, a polícia de Troy instalou 26 câmeras sem a aprovação do conselho e sem informar os cidadãos. O programa começou como um piloto em 2021 e depois foi expandido. O vice-chefe de polícia, Steven Barker, afirmou que o departamento aderiu ao programa após uma série de tiroteios e seguiu o procedimento normal de aquisição para o contrato, que atualmente custa 156 mil dólares por dois anos. Porém, o conselho questiona essa versão, já que qualquer contrato acima de 35 mil dólares normalmente exige aprovação legislativa.

O conselho municipal, formado em maioria por democratas, ficou furioso ao descobrir que a decisão havia sido tomada sem qualquer consulta ou aprovação legislativa. Para os vereadores, a instalação das câmeras sem o aval do conselho representava uma violação direta dos processos democráticos da cidade. Eles direcionaram a equipe da cidade a pausar os pagamentos à Flock Safety.

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A prefeita Carmella Mantello, por sua vez, se recusou a aceitar a decisão e, no mês passado, ladeada por policiais fardados, declarou estado de emergência para manter as câmeras funcionando e pagar os 78 mil dólares devidos à empresa. Ela acusou o conselho de estar fazendo um defunding da polícia. A situação escalou rapidamente para os tribunais, com o conselho processando a prefeita e exigindo que ela revogue a declaração que classificaram de ilegal. 🏛️

O que a Flock Safety realmente faz

A Flock Safety não é uma startup obscura tentando testar uma tecnologia experimental em comunidades pequenas. A empresa já está presente em mais de 6.000 comunidades nos Estados Unidos e trabalha diretamente com departamentos de polícia em todo o país. O produto principal deles é exatamente o que foi instalado em Troy: câmeras com leitura automática de placas, conhecidas no setor como ALPR (Automatic License Plate Recognition). Mas o sistema vai muito além de simplesmente fotografar uma placa. Ele registra cor, modelo e até características específicas do veículo, como adesivos no para-choque e suportes para armas, construindo o que a própria empresa chama de uma impressão digital do carro — um perfil único que pode ser rastreado sempre que o veículo passar por qualquer câmera da rede.

Esse banco de dados é compartilhado entre os departamentos de polícia parceiros, o que significa que um carro fotografado em Troy pode ser identificado em outra cidade a centenas de quilômetros de distância. Do ponto de vista policial, isso é uma ferramenta poderosa para rastrear veículos furtados, recuperar drogas, identificar suspeitos e resolver crimes com mais agilidade. O vice-chefe de polícia de Troy afirmou que as câmeras são usadas em praticamente todas as investigações do departamento e ajudaram a solucionar crimes graves, incluindo dois homicídios.

Chris Castaldo, diretor de segurança da informação da Flock Safety, disse em comunicado que a empresa acredita que segurança e privacidade devem andar juntas, e que a plataforma inclui salvaguardas como trilhas de auditoria para garantir responsabilidade em cada etapa. A empresa também afirmou que tribunais já decidiram que não existe expectativa razoável de privacidade em vias públicas.

Do ponto de vista de quem defende a privacidade, é exatamente aí que mora o problema. Qualquer pessoa que dirigir por uma dessas câmeras tem seus dados registrados, independentemente de ter feito algo errado ou não. E essa coleta acontece de forma contínua, silenciosa e, como ficou claro no caso de Troy, muitas vezes sem o conhecimento dos próprios moradores.

Andrew Guthrie Ferguson, professor de direito na Universidade George Washington e autor do livro Your Data Will Be Used Against You, explicou que essa rede inescapável de vigilância dá à polícia um poder totalmente novo. Segundo ele, as câmeras permitem monitorar espaços públicos com pouca responsabilização e rastrear deslocamentos que podem revelar informações extremamente pessoais, como frequentar uma reunião de Alcoólicos Anônimos ou visitar um advogado de imigração. 🔍

A rede se expande — e a resistência também

O projeto DeFlock, uma iniciativa de mapeamento nacional desses leitores de placas, estima que existam mais de 90 mil câmeras desse tipo em uso nos Estados Unidos. Mais de uma dúzia de estados já aprovaram leis limitando seu uso, e mais de 60 comunidades cancelaram ou rejeitaram contratos com a Flock Safety e outras empresas do setor. O lema do movimento é direto: Get the Flock Out.

E a resistência não se limita a estados tradicionalmente progressistas. Na pequena Bandera, no Texas, o conselho municipal votou para encerrar o contrato com a Flock depois que moradores levantaram preocupações e alguém vandalizou uma das câmeras — episódio que a imprensa local chamou de justiça cowboy do Velho Oeste.

No ano passado, a Flock Safety cancelou programas pilotos com a Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) e o braço investigativo do ICE, que estavam sendo usados para combater tráfico de fentanil e tráfico de pessoas. Porém, especialistas em privacidade alertam que agentes federais de imigração ainda conseguem acessar o banco de dados da Flock através de parcerias com departamentos de polícia locais.

Um estudo do Centro de Direitos Humanos da Universidade de Washington mostrou que diversas agências no estado de Washington compartilharam dados da Flock com a Patrulha de Fronteira no ano passado. Já a comunidade de Shaker Heights, em Ohio, limitou recentemente as buscas em seus sistemas Flock depois que ativistas descobriram documentos mostrando que forças de segurança haviam conduzido mais de 200 pesquisas relacionadas a imigração.

E os casos de uso indevido não param por aí. Um chefe de polícia no Kansas foi forçado a renunciar depois de usar dados das câmeras Flock para perseguir sua ex-namorada. Episódios como esse alimentam o argumento de que sem controles rigorosos, esses sistemas podem facilmente ser usados para fins que nada têm a ver com segurança pública. 😬

A crise política que as câmeras provocaram em Troy

A declaração de estado de emergência pela prefeita Carmella Mantello foi o ponto de virada que transformou uma disputa local em notícia nacional. Usar esse tipo de medida, normalmente reservada para enchentes, nevasca e desastres naturais, para manter câmeras de vigilância instaladas foi algo que surpreendeu até analistas políticos experientes. A prefeita, filha de um detetive policial e natural de Troy, demonstrou ser uma defensora entusiástica das câmeras durante seu primeiro mandato.

Mais de 150 pessoas compareceram a uma reunião pública em 19 de março marcada para debater o tema, o que, para uma cidade de 52 mil habitantes, é um número expressivo de engajamento cívico. A multidão lotou o pequeno salão da câmara e se espalhou pelo corredor. O clima era agitado. A presidente do conselho, Sue Steele, bateu o martelo repetidamente para manter a ordem enquanto manifestantes gritavam para a prefeita. Muitos moradores chegaram com cartazes, outros com perguntas detalhadas sobre como os dados deles estavam sendo usados.

Shikole Struber, vereadora que trabalha com cibersegurança, levantou preocupações específicas sobre os métodos da Flock para proteger os dados coletados. Segundo ela, a empresa não forneceu nenhum relatório de conformidade ou documentação ao conselho mostrando como os dados estão sendo protegidos, mesmo após repetidos pedidos. A polícia liberou apenas auditorias parciais do material.

Após o conselho direcionar a pausa nos pagamentos, Mantello declarou o estado de emergência para pagar a Flock. Ela acusou o conselho de ultrapassar sua autoridade legislativa. O conselho, por sua vez, processou a prefeita esta semana, exigindo que ela revogue a ação que consideram ilegal.

A polícia de Troy informou que pausou a participação da cidade no banco de dados nacional em março, após a pressão popular, e que os dados são deletados após 30 dias. Mas para os ativistas e vereadores, essas concessões vieram tarde demais e não são suficientes. 📢

O que vem pela frente: nova lei e batalha judicial

Neste mês, o conselho municipal divulgou uma proposta de nova lei que limitaria o uso das câmeras, exigindo que a maioria dos dados seja deletada após apenas dois dias. A prefeita Mantello já classificou a proposta como perigosa, equivocada e um presente para criminosos.

A aprovação da lei pode levar semanas. Enquanto isso, a cidade permanece sob estado de emergência. Em uma reunião recente do conselho, Shea e outros ativistas pediram novamente que a prefeita revogasse a declaração, argumentando que Mantello está fazendo Troy parecer um lugar perigoso. Uma pessoa carregava uma câmera Flock de mentira com uma placa dizendo I am Surveillance Not Safety. Outra leu uma lista de declarações de emergência anteriores feitas pela prefeita, incluindo uma para a demolição de um restaurante de cachorro-quente em ruínas.

Mantello ficou nos fundos do salão com seus assessores, sorrindo, aparentemente nada incomodada com as críticas.

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Quando chegou sua vez de falar, Shea disse do púlpito que sentia aquilo tudo como uma escalada dramática dos eventos e que nem a prefeita nem a polícia realmente entendiam como as câmeras funcionavam. Depois de terminar, ela foi até Mantello e sussurrou que achava que deveriam se encontrar para conversar.

A prefeita respondeu sorrindo: Claro, claro, claro.

Apesar dos apelos dos ativistas, no entanto, a posição da prefeita não mudou. O estado de emergência continuará em vigor, disse ela. E acrescentou: as câmeras nunca serão removidas.

Por que esse debate importa muito além de Troy

O que aconteceu em Troy é, na verdade, um reflexo de algo que está se repetindo em dezenas de cidades americanas e que começa a aparecer também em outros países. A tecnologia de vigilância avança em um ritmo muito mais rápido do que as leis e as políticas públicas conseguem acompanhar. Empresas como a Flock Safety oferecem seus produtos diretamente para prefeitos e chefes de polícia, com promessas de redução de crimes e agilidade nas investigações. E muitas vezes, os gestores municipais assinam esses contratos sem entender completamente o que estão adquirindo, sem consultar a população e sem estabelecer regras claras sobre uso, armazenamento e acesso aos dados.

Esse modelo cria um problema estrutural sério. A privacidade dos cidadãos acaba sendo tratada como um detalhe secundário, algo que pode ser resolvido depois, enquanto a tecnologia já está instalada, coletando dados e alimentando bancos de informações que podem ser acessados por múltiplas agências. E uma vez que esses sistemas estão em operação, é extremamente difícil removê-los, seja por razões políticas, contratuais ou simplesmente porque as autoridades já se acostumaram a depender deles. O caso de Troy mostra exatamente essa dinâmica em ação, com uma prefeita disposta a declarar estado de emergência para manter as câmeras funcionando.

A discussão sobre até onde vai o direito à privacidade em espaços públicos é uma das mais complexas e relevantes da nossa era digital. Câmeras em vias públicas existem há décadas, mas a combinação de inteligência artificial, reconhecimento automatizado, cruzamento de dados em tempo real e redes compartilhadas entre diferentes jurisdições cria algo qualitativamente diferente do que uma câmera comum gravando uma esquina. É um sistema capaz de reconstruir a rotina de qualquer pessoa que utilize um veículo, saber onde ela esteve, com que frequência, em que horários — e tudo isso sem qualquer suspeita prévia ou mandado judicial.

Entender esses limites, e decidir coletivamente onde traçá-los, é um dos maiores desafios que cidades e governos vão enfrentar nos próximos anos. Como Shea resumiu de forma direta: existem muitas formas pelas quais empresas de tecnologia estão tirando pedaços da nossa individualidade, mas esta é uma situação em que é possível agir. 🤖

O caso de Troy deixa claro que tecnologia, vigilância e privacidade precisam caminhar juntas com transparência, participação cidadã e regras bem definidas. Sem isso, qualquer câmera instalada numa esquina pode se tornar o estopim de uma crise que vai muito além da rua onde ela foi colocada.

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Rafael

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