A disputa entre OpenAI e Anthropic ficou pessoal — e o Pentágono está no meio
A competição entre as duas startups mais relevantes do Vale do Silício acaba de ganhar um capítulo que ninguém esperava. E dessa vez, o campo de batalha não é um produto de consumo ou uma rodada de investimento — é o coração da defesa nacional dos Estados Unidos.
Até pouco tempo atrás, a OpenAI parecia navegar com folga absoluta na corrida da inteligência artificial. O ChatGPT se tornou o aplicativo de consumo com o crescimento mais rápido de toda a história da tecnologia, a empresa acumulou mais de 100 bilhões de dólares em caixa e firmou parcerias estratégicas com as maiores gigantes da computação do planeta, incluindo a Microsoft. Tudo apontava para uma liderança confortável que dificilmente seria ameaçada no curto prazo.
Só que o Vale do Silício não perdoa quem pisca. E a Anthropic, fundada por ex-funcionários da própria OpenAI, decidiu que não seria coadjuvante nessa história.
Em questão de poucos meses, a empresa liderada por Dario Amodei virou o jogo de um jeito que poucos previram. A Anthropic dobrou sua receita esperada para impressionantes 19 bilhões de dólares projetados para 2026, contra 9 bilhões no ano anterior. Conquistou milhares de grandes empresas como clientes corporativos e passou a ser apontada em círculos técnicos como dona da melhor tecnologia de modelos de linguagem entre todos os seus pares. O Claude, modelo de IA da empresa, ganhou reputação entre desenvolvedores e pesquisadores como sendo mais preciso, mais confiável e mais alinhado em diversas tarefas complexas.
Como resumiu Siri Srinivas, investidor de capital de risco que atua no setor de IA: levou anos para que narrativas sobre uma única empresa se consolidassem no passado. Agora, essas narrativas viram de ponta-cabeça em questão de meses.
O contrato do Pentágono que mudou tudo
O que transformou essa rivalidade corporativa em algo verdadeiramente explosivo foi um contrato com o Pentágono que expôs não apenas visões opostas sobre o futuro da inteligência artificial, mas uma disputa profundamente pessoal entre dois homens que já trabalharam lado a lado — Sam Altman e Dario Amodei.
A Anthropic estava negociando diretamente com o Departamento de Defesa, mas insistiu em incluir no contrato cláusulas que impedissem o uso de sua IA em sistemas de armas autônomas e em vigilância doméstica. A posição da empresa irritou profundamente os oficiais do Pentágono, que argumentaram que empresas privadas não deveriam tentar ditar como os militares operam. Dario Amodei se recusou a ceder.
O resultado foi drástico. O secretário de Defesa Pete Hegseth rotulou formalmente a Anthropic como um risco à cadeia de suprimentos, uma declaração que impede a tecnologia da empresa de ser utilizada em qualquer contrato de defesa. Emil Michael, o diretor de tecnologia do Pentágono — que já conhece bem batalhas brutas no mundo tech, tendo saído da Uber em 2017 após uma série de escândalos —, foi direto ao afirmar em um evento de tecnologia de defesa que a escolha sobre como usar a tecnologia precisa ser do governo.
E foi aí que Sam Altman entrou em cena com um timing que dividiu opiniões. Poucas horas depois de as negociações entre a Anthropic e o Pentágono desmoronarem numa sexta-feira à tarde, Altman anunciou que a OpenAI havia fechado seu próprio acordo com o Departamento de Defesa. A reação foi imediata — e nada gentil com a OpenAI.
A reação pública que ninguém previa
O que aconteceu nas horas e dias seguintes ao anúncio do acordo entre a OpenAI e o Pentágono pode ser comparado a momentos icônicos de revolta digital na história recente do Vale do Silício. Trabalhadores de tecnologia e consumidores elogiaram Dario Amodei por manter sua posição sobre armas autônomas e vigilância. Manifestantes foram até os escritórios da OpenAI em São Francisco e escreveram frases como No AI Weapons e What are your red lines? com giz nas calçadas em frente ao prédio.
Numa dinâmica que lembrou muito o movimento #DeleteUber de quase uma década atrás, uma hashtag pedindo a demissão de Sam Altman — #FireSamAltman — começou a viralizar no X. Na calçada em frente ao escritório da Anthropic, por outro lado, mensagens de apoio apareceram escritas em giz colorido. Uma delas, em verde neon, dizia simplesmente: GOD LOVES ANTHROPIC. Outra, em rosa vibrante: YOU GIVE US COURAGE.
O representante Ro Khanna, democrata da Califórnia, elogiou publicamente a Anthropic por não ter cedido. E os números comprovaram o sentimento: o aplicativo do Claude, chatbot da Anthropic, disparou para o primeiro lugar em downloads na App Store da Apple em 16 países, segundo dados da AppFigures. Na quinta-feira daquela semana, mais de um milhão de pessoas estavam baixando o Claude a cada dia. Até a cantora pop Katy Perry aderiu ao aplicativo. 😄
Pete Warden, CEO da Moonshine AI e ex-pesquisador de IA no Google, observou que desde sua fundação a Anthropic construiu uma parte central de sua identidade em torno da ideia de ser cuidadosa e responsável com o uso de inteligência artificial. E esse posicionamento, testado num momento de enorme pressão, acabou sendo validado pelo público de uma forma que poucos poderiam prever.
A rivalidade pessoal entre Altman e Amodei
Para entender a intensidade dessa competição, é preciso voltar alguns anos no tempo. Dario Amodei foi vice-presidente de pesquisa na OpenAI antes de sair, levando consigo um grupo talentoso de pesquisadores para fundar a Anthropic como uma espécie de empresa com fins lucrativos que se compromete a cumprir padrões de impacto social e responsabilidade. A saída não foi exatamente amigável. Amodei e outros membros fundadores da Anthropic deixaram a OpenAI por discordâncias profundas sobre a direção que a empresa estava tomando, especialmente no que diz respeito à comercialização acelerada de modelos de IA sem o que eles consideravam salvaguardas suficientes de segurança.
Desde então, a relação entre os dois líderes tem sido marcada por uma tensão que oscila entre o profissional e o pessoal, com farpas ocasionais trocadas em entrevistas, documentos internos e até em linguagem corporal. Em uma cúpula na Índia no mês passado, uma dúzia de líderes de IA deu as mãos em um gesto de solidariedade ao lado do primeiro-ministro Narendra Modi. Todos, exceto Altman e Amodei, que conseguiram apenas tocar os cotovelos de forma constrangedora. O momento viralizou e se tornou um símbolo visual da rivalidade que permeia toda essa indústria.
Sam Altman empurra a OpenAI para se mover rápido. Dario Amodei prega cautela por causa de preocupações com segurança. E os funcionários da Anthropic parecem apoiar essa filosofia. No verão passado, quando rivais endinheirados começaram a jogar ofertas na faixa de 100 a 500 milhões de dólares para atrair talentos da Anthropic, a maioria dos pesquisadores disse não.
Em uma conferência fechada do Morgan Stanley com investidores nesta semana, Amodei revelou o número final: a empresa perdeu apenas dois funcionários para a Meta nessa ofensiva de contratação. Na visão dele, isso prova que a Anthropic está fazendo algo genuinamente diferente.
O que aconteceu dentro da OpenAI
Internamente, a reação ao acordo com o Pentágono também não foi tranquila para a OpenAI. Em sistemas internos de mensagens, funcionários questionaram se o timing de Altman havia sido sábio diante da repercussão negativa. Pressionaram o CEO e outros executivos sobre se a empresa havia capitulado às exigências do governo. Pelo menos um funcionário da OpenAI pediu demissão para se juntar à Anthropic.
O próprio Altman reconheceu publicamente que o anúncio do acordo poderia ter sido conduzido de outra forma. Em uma postagem nas redes sociais, ele admitiu que não deveria ter se apressado para divulgar a notícia naquela sexta-feira. Segundo ele, a intenção era genuinamente tentar desescalar a situação e evitar um resultado pior, mas reconheceu que tudo acabou parecendo oportunista e desleixado.
Em um memorando interno para funcionários — que vazou para a imprensa e foi reportado pelo The Information —, Dario Amodei não recuou nem um centímetro. Ele escreveu que a Anthropic não conseguiu fechar o acordo com o Pentágono porque se recusou a oferecer elogios no estilo ditatorial à administração Trump, algo que, segundo ele, Altman estava disposto a fazer. A frase mais contundente do memorando foi direta: ele disse querer deixar muito claro sobre a natureza enganosa das mensagens vindas da OpenAI, e que aquele episódio era um exemplo de quem eles realmente são.
Mas os números da OpenAI continuam impressionantes
Como em tudo no Vale do Silício, porém, as fortunas podem mudar rapidamente. A OpenAI anunciou recentemente que mais de 900 milhões de pessoas usam seus produtos, tendo mais que dobrado sua base de clientes em um ano. Mais de nove milhões de empresas pagantes utilizam o ChatGPT para trabalho, e a receita da empresa deve ultrapassar 25 bilhões de dólares em 2026, segundo o The Information. A empresa também está mirando um IPO até o final do ano.
Num detalhe interessante que ecoa a história de Uber e Lyft, a Anthropic está tentando abrir capital antes da OpenAI, segundo pessoas familiarizadas com os planos da empresa. Assim como o Lyft correu para fazer seu IPO antes do Uber em 2019, a estratégia da Anthropic seria garantir uma vantagem inicial junto aos investidores do mercado público.
O fator Trump
E como se a situação não fosse complexa o bastante, a Anthropic agora enfrenta adversários novos e bastante imprevisíveis na Casa Branca. Em entrevista ao Politico nesta semana, o presidente Donald Trump não poupou palavras ao falar sobre a empresa.
Trump disse que demitiu a Anthropic, que a empresa está em apuros e que foram dispensados como cachorros. Segundo ele, eles não deveriam ter feito o que fizeram. É uma escalada que coloca a Anthropic em uma posição complicada, navegando não apenas a competição com a OpenAI, mas também uma relação potencialmente hostil com a administração mais poderosa do mundo.
O que está em jogo para o futuro da inteligência artificial
Além do aspecto financeiro — que por si só já é monumental —, a competição entre OpenAI e Anthropic levanta questões que vão muito além do mundo corporativo. Quando empresas de inteligência artificial fecham acordos com aparatos militares, as implicações éticas, geopolíticas e sociais são enormes.
A indústria de tecnologia já passou por batalhas intensas antes. Nos anos 1990, a Microsoft esmagou a Netscape com táticas que resultaram em um processo antitruste que mudou a indústria. Em 2017, no auge dos escândalos da Uber, a Lyft surfou a onda com bigodes cor-de-rosa e propaganda amigável para motoristas, se posicionando como a alternativa mais gentil. Mas a corrida da IA é uma escalação de todas essas batalhas anteriores. O dinheiro envolvido é maior. E na visão de muitos que trabalham com essa tecnologia, as consequências são mais profundas: eles acreditam estar criando uma IA capaz de transformar o mundo, com potencial não apenas para reorganizar a força de trabalho, mas eventualmente ultrapassar as capacidades humanas.
Outras empresas como Google, Microsoft, Meta e uma série de startups ao redor do mundo também disputam a liderança em IA. Mas a OpenAI e a Anthropic, com sedes a apenas três quilômetros de distância uma da outra em São Francisco, se tornaram os porta-estandartes da febre de inteligência artificial do setor de tecnologia.
O cenário que se desenha para os próximos meses promete ser ainda mais intenso. Com a OpenAI acelerando sua transição para uma estrutura com fins lucrativos e a Anthropic expandindo agressivamente sua base de clientes corporativos e governamentais, a competição tende a ficar cada vez mais acirrada. E para quem acompanha esse mercado, o recado é claro: a era em que a IA era apenas sobre chatbots e geradores de imagem ficou para trás. Agora, o jogo é geopolítico, bilionário e, acima de tudo, irreversível. 🚀
