Drones e mísseis: startups de defesa surfam onda de demanda no conflito com o Irã
Em poucos anos, o setor de tecnologia de defesa saiu da lista de assuntos evitados por investidores de risco para virar um dos mercados mais quentes do mundo. O que antes era visto como tabu em muitos fundos de venture capital, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, hoje movimenta bilhões de dólares em rodadas de investimento, contratações aceleradas e disputas comerciais entre startups e gigantes tradicionais da indústria militar.
De acordo com dados da plataforma Dealroom, o salto foi brutal: em 2020, empresas de defesa tech levantaram cerca de 869 milhões de dólares em todo o mundo. Em 2025, esse número passou da casa dos 11 bilhões de dólares, mais de dez vezes acima do nível registrado apenas cinco anos antes. Não foi um crescimento orgânico qualquer: ele é diretamente ligado à escalada de tensões geopolíticas e a guerras que colocaram drones, sistemas de interceptação e softwares de comando no centro da estratégia militar moderna.
No meio desse cenário, o conflito envolvendo Irã, Estados Unidos, Israel e países do Golfo virou um divisor de águas. Para muitas startups, esse é o momento em que a defesa tecnológica deixa de ser promessa e vira contrato assinado. Como descreveu a repórter Samantha Subin, a guerra no Irã se tornou o momento que o ecossistema de defesa tech e o Vale do Silício estavam esperando: uma combinação explosiva de urgência operacional, orçamentos bilionários e abertura política para que empresas jovens disputem espaço com os grandes fornecedores tradicionais.
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Em 2020, defense tech ainda era nicho. Em 2025, já passava de 11 bilhões de dólares em investimentos globais, impulsionada por guerras, drones e pela entrada definitiva de startups no jogo da defesa.
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Como o conflito com o Irã virou motor de demanda para defense tech
A ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciada no fim de fevereiro, desencadeou uma sequência de ataques, retaliações e operações defensivas que colocaram drones e mísseis como protagonistas. O Oriente Médio, que já era uma das regiões mais sensíveis em termos de segurança, passou a registrar um volume impressionante de ataques aéreos, muitos deles direcionados a aliados dos americanos na região do Golfo.
Segundo dados compilados pelo think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS), mais de 3.000 drones e mísseis já foram lançados contra Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Bahrein e Kuwait desde o início do conflito atual. Para governos que lidam diariamente com esse tipo de ameaça, não se trata mais de previsões ou cenários hipotéticos, e sim de uma pressão real para modernizar defesas, reforçar sistemas de alerta e comprar tecnologia que esteja pronta para uso imediato.
É aí que as startups de defesa entram com força. Tanto Subin quanto outros repórteres da CNBC ouviram empresas dos Estados Unidos e da Europa relatando um aumento claro na procura por seus produtos logo após os primeiros ataques contra o Irã. Muitas dessas companhias passaram a receber ligações e e-mails de clientes ligados ao Departamento de Defesa dos EUA e de governos no Oriente Médio querendo discutir contratos, aumentar pedidos ou até mesmo comprar toda a capacidade de produção disponível em curto prazo.
Em vários casos, oficiais militares e equipes de compras governamentais pediram para ampliar turnos, acelerar linhas de fabricação e antecipar entregas. Para algumas empresas, a demanda chegou em forma de proposta direta: comprar toda a produção prevista para determinado sistema de interceptação ou de monitoramento por meses seguidos, desde que a startup aceitasse escalar rápido.
Frankenburg, Uforce e a corrida por presença no Oriente Médio
Na Europa, o movimento não é diferente. Startups focadas em interceptação de drones e mísseis, sistemas de comando em nuvem e plataformas de vigilância avançada estão, nas palavras de executivos ouvidos pela CNBC, em modo de negociação intensa com governos da região do Golfo. Em várias delas, o Oriente Médio saiu da coluna de “mercado em potencial” para virar prioridade absoluta na estratégia de expansão internacional.
Um exemplo citado no noticiário é a Frankenburg, empresa sediada na Estônia que desenvolve sistemas de interceptação de drones e mísseis. Em testes de campo recentes, o míssil interceptor Frankenburg Mark I foi avaliado em disparos reais, reforçando a imagem da startup como uma das apostas mais agressivas no segmento de defesa antiaérea. A guerra no Irã acelerou os planos: executivos da companhia confirmaram que estão aumentando o time baseado no Oriente Médio, contratando mais profissionais na região para lidar com suporte, integração de sistemas e relacionamento com governos locais.
Outra empresa em destaque é a Uforce, com base entre Ucrânia e Reino Unido. Em um contexto em que a própria Ucrânia se tornou nos últimos anos um laboratório brutal para novas tecnologias de defesa, a Uforce leva para o Golfo experiência prática de guerra em um ambiente de alta intensidade. Assim como a Frankenburg, a startup também afirmou que está expandindo operações, equipes e presença em países do Oriente Médio, exatamente por causa da escalada do conflito com o Irã e do interesse crescente dos estados do Golfo em reforçar suas defesas.
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Executivos europeus relatam que o interesse de governos do Golfo está “explodindo”, com pedidos para reforçar defesas contra drones e mísseis e acelerar instalações de novos sistemas.
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Defesa tech deixa de ser tabu no Vale do Silício
Por muito tempo, grandes fundos de tecnologia evitaram se associar diretamente a projetos de defesa. A combinação de preocupações de imagem, debates éticos e falta de familiaridade com o ciclo de compras militares afastava o dinheiro de risco do setor. Isso começou a mudar de verdade a partir de 2020, com a intensificação das tensões entre grandes potências, a guerra da Rússia na Ucrânia e, agora, o conflito com o Irã.
No Vale do Silício, fundos e parceiros que antes se mostravam resistentes hoje enxergam a defesa tech como um pedaço estratégico da próxima onda de inovação. Startups que desenvolvem desde software de comando e controle até enxames de drones autônomos entraram nas planilhas de investimento. A percepção é simples: guerras modernas são profundamente dependentes de sensores, dados, algoritmos e integração em tempo real. Isso abre espaço para empresas nativas digitais competirem onde antes só gigantes com décadas de contratos tinham chance.
Os números refletem essa guinada. Além do salto de US$ 869 milhões em 2020 para US$ 11,2 bilhões em 2025 em investimentos globais em defense tech, o setor continua aquecido em 2026, com megarrodadas seguindo em ritmo acelerado. Um dos exemplos recentes foi a rodada de US$ 1,75 bilhão da Saronic, startup norte-americana que constrói embarcações autônomas para uso militar e de segurança marítima. Pouco antes, a empresa de drones Shield AI já havia levantado cerca de US$ 2 bilhões em nova captação, reforçando o peso do segmento dentro do portfólio de investidores globais.
Desafios: contratos irregulares, capacidade produtiva e foco geográfico
Apesar do boom, o caminho não é simples. Como Subin destacou, o governo dos Estados Unidos ainda não oferece um fluxo estável de contratos para muitas startups que tentam vender soluções diretamente ao Departamento de Defesa. Isso cria um dilema bem concreto: aumentar capacidade produtiva para tentar aproveitar a janela de oportunidade ou manter operações mais enxutas para proteger a margem e evitar ficar com fábricas ociosas se a demanda desacelerar.
Algumas empresas americanas relatam estar divididas. Ampliar linhas, contratar mais pessoas e investir em novas instalações pode ser o diferencial para ganhar contratos de maior escala. Mas, sem garantia de continuidade, o risco financeiro cresce. O medo é claro: apostar pesado agora e, em dois ou três anos, ver o ritmo de compras cair, deixando estoques encalhados e estruturas caras demais para manter.
Na Europa, o cenário é ainda mais delicado. Startups de defesa costumam ter menos acesso a capital que suas equivalentes americanas, o que limita a capacidade de fazer apostas agressivas em infraestrutura e expansão. Com a explosão de oportunidades no Oriente Médio, muitas empresas europeias se veem pressionadas a decidir se direcionam mais recursos para o Golfo ou se mantêm foco em contratos com seus próprios governos e com aliados da OTAN.
Investir pesado na região do Golfo pode significar tirar parte da atenção de mercados como União Europeia e Estados Unidos. Essa escolha não é trivial: ao mirar contratos no Oriente Médio para responder ao conflito com o Irã, algumas startups podem acabar reduzindo presença em programas estratégicos em seus países de origem, correndo o risco de perder espaço para concorrentes mais consolidados. É uma aposta de médio prazo que só o tempo vai dizer se foi acertada.
Atualizações recentes no ecossistema de tecnologia e defesa
Enquanto o setor de defense tech vive essa reconfiguração acelerada, outras peças importantes do tabuleiro de tecnologia global também estão se movendo e ajudam a compor o pano de fundo desse momento:
- SpaceX deu mais um passo rumo ao mercado público ao protocolar confidencialmente, na SEC, documentos para um possível IPO, em uma listagem que o mercado já trata como candidata a recorde histórico.
- OpenAI fechou uma rodada de financiamento que elevou sua avaliação pós-money para cerca de US$ 852 bilhões, consolidando a empresa de IA generativa como uma das mais valiosas do mundo em tecnologia.
- Oracle iniciou um ciclo de cortes de milhares de empregos, confirmados pela CNBC, em meio a uma forte pressão sobre o preço das ações e a necessidade de equilibrar investimentos pesados em infraestrutura de IA com resultados financeiros de curto prazo.
- A francesa Mistral AI garantiu cerca de US$ 830 milhões em financiamento via dívida para bancar um novo datacenter equipado com milhares de chips Nvidia, reforçando a corrida europeia por capacidade de computação em IA.
- A chinesa Zhipu, especializada em inteligência artificial, viu suas ações dispararem após apresentar forte crescimento de receita em seu primeiro balanço como companhia aberta.
Esses movimentos mostram como defesa, IA, infraestrutura de nuvem e grandes plataformas de dados estão cada vez mais conectados. Startups de defesa se apoiam em chips de última geração, nuvens públicas e modelos avançados de IA — ao mesmo tempo em que a própria corrida por IA depende de investimentos em infraestrutura que, em muitos casos, dialogam com demandas de segurança nacional e defesa cibernética.
Funding recorde e normalização da defesa no mundo de venture capital
Os dados de mercado indicam que o dinheiro não está apenas entrando com força em defense tech, mas também mudando a forma como o setor é visto. Aquela imagem de investimento socialmente desconfortável, de canto sem graça do portfólio, está dando lugar a uma visão mais pragmática: em um mundo com guerras ativas, ameaças assimétricas e ataques constantes por drones e mísseis, ignorar completamente o setor significa também deixar de participar de uma parte relevante da transformação tecnológica.
De 2025 para 2026, o ritmo de grandes rodadas se manteve firme. Empresas como Saronic e Shield AI, com levantamentos bilionários em sequência, ajudam a puxar para cima a média de capital investido em defense tech. Em paralelo, um número crescente de startups menores, focadas em nichos como sensores, guerra eletrônica, software de comando e simulação em larga escala, vem ocupando as lacunas que aparecem quando exércitos e forças aéreas precisam se atualizar rápido.
A tendência é que, com o conflito no Irã ainda em destaque e a guerra na Ucrânia longe de uma solução definitiva, o tema continue presente nas conversas entre investidores, governos e empreendedores. A grande questão passa a ser menos “se” vale a pena olhar para defesa e mais “como” estruturar teses, governança e limites claros para equilibrar inovação, retorno financeiro e responsabilidade no uso dessas tecnologias.
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Defense tech saiu da sombra: deixou de ser “investimento estranho” para virar aposta estratégica em um cenário com guerras ativas, corrida por IA e disputa por soberania tecnológica.
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O que fica pela frente para as startups de defesa
Com a guerra no Irã alimentando a busca por sistemas de defesa mais inteligentes e o Oriente Médio se consolidando como um dos maiores mercados para startups de defesa, o próximo desafio é menos tecnológico e mais estratégico. As empresas precisam encontrar o ponto de equilíbrio entre crescer rápido e não ficar reféns de contratos instáveis; entre focar em um único grande cliente e diversificar mercados; entre priorizar o Golfo e manter presença forte em Estados Unidos e Europa.
Ao mesmo tempo, o ambiente competitivo deve se intensificar. Grandes grupos de defesa, acostumados a ciclos de vendas longos, já entenderam que não dá mais para ignorar a velocidade das startups. Muitos começam a se aproximar por meio de parcerias, aquisições ou programas de inovação aberta, tentando combinar a robustez de décadas de experiência com a agilidade de quem nasceu digital.
Enquanto isso, conflitos como o do Irã continuam servindo de lembrete diário de que drones, mísseis, IA e software não são mais só peças de laboratório ou protótipos em apresentações: são ferramentas centrais na forma como países defendem seu território, sua infraestrutura e seus aliados. Para as startups que decidiram entrar nesse jogo, a janela está aberta — mas cheia de riscos, decisões difíceis e efeitos de longo prazo que ainda estão sendo escritos em tempo real.
