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O imposto dos milionários em Washington e o medo do êxodo empresarial

O debate tributário mais quente dos Estados Unidos neste momento não está acontecendo em Nova York nem na Califórnia. Está em Washington, um estado historicamente conhecido por não cobrar imposto de renda estadual — e que agora caminha para aprovar uma proposta que pode mudar radicalmente essa realidade. O chamado imposto dos milionários prevê uma alíquota de 9,9% sobre rendimentos anuais acima de 1 milhão de dólares e já está mexendo com os planos de fundadores de startups, donos de pequenos negócios e lideranças do setor de inteligência artificial.

O projeto deve ir a votação na Câmara estadual nos próximos dias. Se aprovado e sancionado pelo governador Bob Ferguson — que já declarou publicamente que vai assinar a medida —, o novo tributo entraria em vigor a partir de 2028 e geraria uma arrecadação estimada em 4 bilhões de dólares por ano. Os recursos seriam destinados a educação, saúde, ensino superior e serviços sociais.

Parece uma conta simples, mas o debate está longe de ser pacífico 🔥

De um lado, críticos alertam que a medida vai afugentar empreendedores e enfraquecer um dos principais polos de inovação do país. Do outro, defensores argumentam que o imposto corrige uma estrutura tributária injusta e, no longo prazo, fortalece a mão de obra qualificada que sustenta esses mesmos negócios. No meio dessa disputa, histórias reais de empresários que ameaçam migrar para outros estados — e até de quem apoiou o imposto publicamente e acabou pressionado a deixar o comando de sua empresa — mostram que a tensão é bem concreta.

O que a proposta prevê e por que gerou tanta polêmica

O estado de Washington é historicamente um ímã para empresas de tecnologia, startups de alto crescimento e profissionais qualificados que buscavam uma carga tributária mais leve. Sem imposto de renda estadual, a região oferecia uma vantagem competitiva clara em relação a vizinhos como a Califórnia e Oregon. Com a nova proposta, essa vantagem pode desaparecer de forma significativa.

A alíquota de 9,9% incidiria não apenas sobre salários e rendimentos pessoais acima de 1 milhão de dólares, mas também sobre a chamada renda de repasse — ou pass-through income, no termo em inglês. Esse é o ponto que mais preocupa a comunidade empresarial. Renda de repasse é o lucro de uma empresa que flui diretamente para o dono como pessoa física, algo extremamente comum em pequenos e médios negócios que não são constituídos como grandes corporações. Na prática, isso significa que um dono de empresa cujo negócio gere mais de 1 milhão de dólares em lucro anual repassado a ele passaria a pagar a nova alíquota, mesmo que esse dinheiro nunca chegue ao bolso dele como dinheiro vivo.

Ryan Likkel, dono da Western Refinery Services, uma empresa de construção baseada em Ferndale com cerca de 200 funcionários, resumiu bem essa preocupação. Segundo ele, a maior parte de sua renda de repasse nunca chega a ser dinheiro que ele vê de fato, porque é reinvestida no próprio negócio. Se precisar pagar imposto sobre essa renda, sobra menos para crescimento, compra de equipamentos e novas contratações.

Os defensores da proposta, por sua vez, apontam que menos de 1% das empresas de Washington atingiriam o patamar de 1 milhão de dólares necessário para pagar o imposto. Autoridades estaduais estimam que cerca de 30 mil contribuintes em todo o estado seriam afetados, embora o Departamento de Receita não tenha conseguido informar quantos desses seriam empresas. Além disso, com as deduções e outros alívios previstos na proposta, muitos negócios menores poderiam ver sua carga tributária total até diminuir.

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A disputa dentro do ecossistema de tecnologia

O que chama a atenção nesse debate é o quanto ele dividiu a própria comunidade de tecnologia de Washington. Não se trata de um embate simples entre empresários e governo — há fundadores e líderes influentes dos dois lados da questão.

Entre os críticos mais vocais está Aviel Ginzburg, fundador baseado em Seattle que classificou a proposta como um verdadeiro suicídio econômico. Logo depois que o governador Ferguson anunciou seu apoio renovado à versão mais recente do projeto, Ginzburg publicou nas redes sociais uma mensagem provocativa dizendo que San Francisco o veria em breve — uma referência à possível migração para a Califórnia, o que tem certa ironia considerando que muitos profissionais de tecnologia fizeram o caminho inverso nos últimos anos justamente fugindo dos impostos californianos.

Ginzburg argumenta que o imposto vai esfriar o ecossistema de startups do estado, afastando justamente os empreendedores que movimentam a economia local. Essa visão é compartilhada por outros nomes de peso do setor. Em uma carta recente enviada ao governador Ferguson, diversos líderes de tecnologia alertaram que as propostas tributárias dos Democratas prejudicariam a capacidade de Washington de continuar crescendo no setor tech e desacelerariam o investimento e a inovação em inteligência artificial, algo que deveria ser acelerado e não desencorajado.

Entre os signatários da carta estavam Oren Etzioni, CEO fundador do Allen Institute for Artificial Intelligence, e Luis Vargas, ex-vice-presidente de IA na Microsoft, segundo trechos publicados pelo The Wall Street Journal.

Do outro lado da trincheira, Ben Golden, advogado da região de Seattle que assessora startups de tecnologia, publicou um artigo de opinião no GeekWire argumentando que as previsões apocalípticas de êxodo empresarial são exageradas. Segundo ele, a maioria dos críticos mais barulhentos da proposta — pessoas que ele respeita e com quem trabalha diariamente — quase certamente vai continuar vivendo e trabalhando em Washington.

Steven Severin, veterano dono de casas noturnas em Seattle e um dos apoiadores mais entusiasmados do imposto, teve uma reação diametralmente oposta à de Ginzburg. Para ele, a medida vai colocar mais dinheiro no bolso das pessoas, que por sua vez gastarão nos negócios locais. A lógica é que investir em educação e saúde fortalece a economia como um todo e cria um ciclo virtuoso que beneficia inclusive as empresas.

O papel do governador Ferguson e as negociações nos bastidores

O governador Bob Ferguson teve um papel central na formatação da proposta. Desde o início, ele condicionou seu apoio ao imposto de renda à inclusão de cortes significativos para empresas e famílias trabalhadoras. Entre as contrapartidas exigidas, estava a redução do chamado business-and-occupation tax, um imposto sobre atividades empresariais que havia sido aumentado no ano anterior junto com outros tributos para empresas.

Essa exigência levou a semanas de negociações intensas entre legisladores e a uma batalha de relações públicas bastante visível sobre os possíveis impactos da medida na comunidade empresarial de Washington. O resultado foi um projeto que tenta equilibrar a nova arrecadação com alívios tributários em outras frentes, embora nem todos estejam convencidos de que o equilíbrio foi alcançado.

Além de sindicatos e grupos progressistas, a proposta conta com o apoio do Economic Opportunity Institute, um think tank progressista de Seattle. A organização argumenta que, mesmo com a alíquota de 9,9%, a taxa efetiva — ou seja, o percentual real de imposto pago sobre a renda total — ainda ficaria abaixo da praticada em muitos outros estados que já possuem imposto de renda, mas com faixas de tributação que começam em valores muito menores.

Inteligência artificial no centro do debate tributário

Um elemento que torna essa discussão ainda mais complexa é o papel da inteligência artificial. Washington abriga algumas das maiores empresas e laboratórios de pesquisa em IA do mundo, e uma parte significativa dos profissionais que lideram esses projetos recebe remunerações que facilmente ultrapassam o limite de 1 milhão de dólares anuais. O setor de tecnologia do estado já está no meio de uma grande reestruturação impulsionada pelas tecnologias disruptivas de IA, e críticos temem que o novo imposto torne ainda mais difícil atrair empreendedores e competir com outros polos tecnológicos.

A competição global por talentos de IA já é feroz, e qualquer desvantagem tributária pode fazer com que esses profissionais — e as startups que eles fundarem no futuro — optem por se estabelecer em regiões com condições mais favoráveis. Considerando que a corrida pela liderança em IA é, hoje, uma questão estratégica tanto para empresas quanto para governos, perder esse tipo de capital humano pode ter consequências que vão muito além da arrecadação estadual.

Ao mesmo tempo, existe um argumento forte de que os recursos gerados pelo imposto poderiam ser direcionados para programas de formação em ciência da computação, engenharia e áreas correlatas, criando uma base de talentos mais ampla e diversificada para alimentar justamente o setor de tecnologia e IA. Essa visão de longo prazo coloca em xeque a narrativa de que o imposto é puramente prejudicial ao ecossistema.

O fantasma do êxodo empresarial e os números por trás do medo

A possibilidade de um êxodo empresarial não é apenas retórica. Uma pesquisa recente da Association of Washington Business, um grupo de lobby e representação comercial crítico ao imposto, revelou que 17% dos empregadores de Washington estão considerando mudar seus negócios para outros estados. Esse número praticamente dobrou em relação ao ano anterior, quando era de 9%, e o principal motivo apontado foram as mudanças tributárias.

Vários líderes empresariais de destaque em Washington já declararam publicamente que vão se mudar ou que já tomaram providências para evitar esse e outros impostos. A expressão êxodo empresarial, nesse contexto, não é força de expressão. Nos últimos meses, fundadores e executivos baseados no estado começaram a falar abertamente sobre planos de mudança para Texas, Nevada e Flórida, que mantêm alíquota zero de imposto de renda estadual.

Jared Walczak, pesquisador sênior da Tax Foundation, organização baseada em Nova York, observou que a alíquota de 9,9% é anomalamente alta em relação a outros estados. Mesmo que o imposto atinja apenas empresas maiores, o tamanho desses negócios faz com que eles desempenhem um papel desproporcional em contratações e investimentos. Nas palavras dele, o imposto pode não ter muitos pagadores, mas aqueles que pagam são criadores de emprego.

Ferramentas que utilizamos diariamente

No entanto, nem todos concordam que a fuga é inevitável. Justin Beals, fundador e veterano do cenário de startups de Seattle, argumenta que impostos são apenas um dos fatores que empreendedores consideram na hora de escolher onde construir uma empresa. Para ele, o que importa muito mais é ter acesso a uma força de trabalho bem educada — e um sistema tributário mais justo é essencial para o desenvolvimento dessa força de trabalho.

O caso do empresário que apoiou o imposto e pagou o preço

Talvez nenhum episódio ilustre melhor a temperatura do debate do que o caso de Jed Fowler, presidente e chairman da HD Fowler, uma empresa de materiais de construção sediada em Bellevue. Durante uma audiência no Senado estadual, Fowler se manifestou publicamente a favor do imposto, chamando-o de investimento pró-negócios na prosperidade compartilhada de Washington.

Na audiência lotada, suas palavras de que estava disposto a pagar o imposto e que outros como ele também deveriam pagá-lo foram recebidas com aplausos. Mas a reação fora do plenário foi bem diferente. Dias depois, Fowler escreveu aos clientes da empresa se desculpando pelo testemunho e anunciando que deixaria o cargo de chairman.

Na mensagem, Fowler reconheceu que havia falado de um ponto de vista estreito — o seu próprio — e que, após conversas com sua equipe e parceiros do setor, percebeu que um pedido de desculpas era necessário. Ele recusou pedidos de comentários adicionais à imprensa. O episódio é um lembrete poderoso de como o tema dividiu a comunidade de negócios do estado, ao ponto de tornar o simples ato de expressar uma opinião favorável ao imposto algo custoso em termos de relações comerciais e carreira.

O que esperar dos próximos capítulos

A votação na Câmara estadual de Washington promete ser acirrada. Mesmo que a proposta de imposto sobre a renda seja aprovada, é provável que enfrente contestações legais e pressão por ajustes antes de entrar em vigor em 2028. Historicamente, tentativas de implementar imposto de renda no estado foram barradas pela Justiça ou rejeitadas em referendos populares, o que mostra que o caminho legislativo é apenas uma parte da batalha.

De todo modo, o simples fato de o projeto ter avançado tanto já representa uma mudança significativa no ambiente de negócios local e sinaliza que o equilíbrio tributário em Washington está sob revisão. Para fundadores de startups, donos de pequenos negócios e todos os profissionais que fazem parte desse ecossistema, acompanhar de perto os desdobramentos é essencial para tomar decisões mais informadas sobre o futuro de suas operações.

Independentemente de qual lado prevaleça nesse embate, uma coisa ficou clara: o debate sobre tributação e inovação deixou de ser uma questão restrita a economistas e legisladores. Ele agora está no centro das conversas em aceleradoras, espaços de coworking, meetups de IA e grupos de fundadores. O êxodo empresarial pode ser um risco real ou um temor exagerado — mas a forma como Washington lidar com essa tensão vai definir muito sobre o papel que o estado desempenhará no próximo ciclo de inovação tecnológica nos Estados Unidos 🚀

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