O que a Universidade de Minnesota está colocando em prática
A Universidade de Minnesota Twin Cities, por meio do seu College of Design, acaba de lançar o primeiro bacharelado em UX Design do estado, com turmas começando já no semestre de outono de 2025. Segundo McLean Donnelly, professor e coordenador do programa, trata-se também de apenas o segundo curso desse tipo entre as 18 instituições que compõem a Big Ten, uma das mais tradicionais conferências universitárias dos Estados Unidos. O programa reúne disciplinas que vão desde pesquisa com usuários até prototipagem de interfaces, passando por psicologia cognitiva e estratégia de produto. A proposta central é bem direta: formar gente capaz de projetar produtos digitais que façam sentido para quem realmente vai usá-los, e não apenas para quem os constrói nos bastidores.
Com cerca de 50 estudantes já matriculados na primeira turma, o sinal é de que existe uma demanda represada tanto do lado acadêmico quanto do mercado de trabalho, que há anos absorve profissionais autodidatas ou formados em áreas adjacentes sem um diploma específico na disciplina. Parte dessa demanda ficou evidente com o sucesso do minor em UX que o College of Design já oferecia. Donnelly conta que os alunos vinham montando suas próprias trilhas de aprendizado combinando o minor com estudos independentes, mas agora terão quatro anos completos para se aprofundar na área — o que representa uma vantagem competitiva real nos currículos.
O estado de Minnesota pode não ser o primeiro nome que vem à cabeça quando pensamos em inovação tecnológica, mas os números contam uma história diferente. A região concentra o maior número de empresas Fortune 500 per capita nos Estados Unidos, incluindo gigantes dos setores de saúde, varejo e serviços financeiros. Donnelly destaca que estudantes da universidade já estão empregados em tempo integral em companhias como U.S. Bank, Best Buy, Target e Medtronic — todas com sede ou operações significativas no estado. Ter uma universidade pública de peso oferecendo uma graduação dedicada ao tema cria um pipeline direto entre a formação acadêmica e as vagas que essas empresas precisam preencher. É o tipo de movimento que beneficia estudantes, empregadores e, no fim das contas, os próprios usuários dos produtos que serão projetados por essa nova geração de designers.
Um currículo que vai muito além de ferramentas
Vale destacar que o curso não se limita ao ensino de ferramentas como Figma ou Adobe XD. A grade curricular inclui módulos sobre acessibilidade digital, design inclusivo, ética em pesquisa e noções de engenharia de interação. Essa abordagem multidisciplinar reflete uma mudança de mentalidade que vem acontecendo globalmente: o profissional de UX Design não é mais alguém que apenas desenha telas bonitas, mas sim um especialista que entende comportamentos humanos, traduz necessidades reais em soluções funcionais e dialoga com times de desenvolvimento, marketing e negócios.
Como o próprio Donnelly resumiu, o design de experiência do usuário foca em como as pessoas interagem com produtos digitais — sites, aplicativos e tecnologias inteligentes — combinando psicologia, pesquisa, tecnologia e design para criar experiências centradas no ser humano, amigáveis e acessíveis. O programa da Universidade de Minnesota parece ter entendido que formar esse perfil completo exige uma base educacional que vá além do operacional e mergulhe fundo na teoria e na prática do design centrado no ser humano.
Donnelly também faz uma observação importante sobre a longevidade dessa formação. Segundo ele, o curso ensina os estudantes a olhar para problemas, encontrar soluções, validar hipóteses, prototipar, apresentar trabalhos de forma profissional e receber feedback. Em suas palavras, o programa ensina os alunos a pensar. Mesmo que a tecnologia mude — e ela vai mudar —, essa base continuará sendo relevante e permitirá que os profissionais cresçam junto com o mercado. Ele chegou a chamar o bacharelado de forever degree, um diploma para sempre.
Histórias reais de quem já trilhou esse caminho
Eliana Smelansky e a transição para o design de experiências
A trajetória de Eliana Smelansky ilustra bem o tipo de profissional que o novo curso pretende formar desde o início da graduação. Formada em marketing pela Carlson School of Management da Universidade de Minnesota em 2022, Smelansky também cursou um minor em design interdisciplinar no College of Design. Depois de uma experiência em merchandising na Target, ela percebeu que queria algo mais criativo e decidiu fazer um bootcamp de seis meses em UX/UI na própria universidade.
Hoje, Smelansky trabalha como Experience Designer na Best Buy. Ela conta que ficou empolgada ao ver o lançamento do bacharelado em UX e chegou a publicar sobre o assunto no LinkedIn, comentando que teria escolhido esse curso se ele existisse quando ela estava na graduação. Grande parte do seu trabalho atual envolve colaboração, brainstorming de conceitos e apresentações para stakeholders e lideranças — habilidades que, segundo ela, seria muito valioso aprender de forma integrada durante a faculdade, em vez de adquiri-las aos poucos ao longo da carreira.
Nick Horst e o emprego dos sonhos na indústria de games
Outro exemplo é Nick Horst, formado em ciência da computação pelo College of Science and Engineering da Universidade de Minnesota em 2025. Horst adicionou o minor em UX à sua formação e credita essa decisão como fundamental para conseguir o emprego dos sonhos. Ele conta que uma disciplina com McLean Donnelly abriu sua visão para a interseção entre tecnologia e design, que é exatamente onde ele atua hoje.
Após a formatura, Horst se mudou para Los Angeles para trabalhar na Respawn Entertainment, estúdio pertencente à Electronic Arts, uma das maiores empresas de jogos do mundo. Sua equipe trabalha no game Apex Legends, que ele jogava desde o ensino médio — um momento que ele descreve como de ciclo completo. Como technical experience designer, Horst é responsável por programar no jogo tudo que aparece na tela quando um novo recurso ou funcionalidade é lançado. Ele afirma que, se fosse calouro hoje, teria escolhido o bacharelado em UX Design como curso principal ou, no mínimo, como parte de uma dupla graduação.
Por que as habilidades de design centrado no usuário estão tão valorizadas
O mercado de trabalho para profissionais de experiência do usuário vive um momento de expansão que não mostra sinais de desaceleração. Donnelly destaca que empresas de tecnologia, saúde, varejo e finanças estão investindo pesadamente em designers qualificados para melhorar suas interações digitais, e que as vagas em UX estão entre as que mais crescem e melhor remuneram nos setores de design e tecnologia. Segundo dados do Bureau of Labor Statistics dos Estados Unidos, a projeção de crescimento para cargos relacionados a web design e desenvolvimento digital é significativamente superior à média de outras profissões até 2032.
Mas o que está por trás dessa demanda não é apenas a multiplicação de aplicativos e sites. Empresas de praticamente todos os setores perceberam que um produto digital mal projetado custa caro — em abandono de carrinho, em chamados de suporte, em reputação de marca e em retrabalho de engenharia. Como Donnelly exemplificou de forma bem prática: se você acessa um site no celular e ele não funciona bem, não tem uma boa aparência, quanto tempo você fica ali? Esses são dólares reais sendo perdidos. Investir em habilidades de design que priorizam o ser humano deixou de ser diferencial competitivo para se tornar requisito básico de sobrevivência no mercado.
Outro fator que impulsiona essa valorização é a chegada da inteligência artificial generativa ao fluxo de trabalho dos designers. Ferramentas baseadas em IA conseguem gerar protótipos visuais em segundos, automatizar testes de usabilidade e até sugerir fluxos de navegação com base em dados comportamentais. Em vez de tornar o profissional de UX Design obsoleto, essa tecnologia elevou o patamar do que se espera dele. Agora, o diferencial está em saber fazer as perguntas certas, interpretar dados qualitativos com empatia, conduzir pesquisas etnográficas e tomar decisões de design que nenhum algoritmo consegue replicar sozinho. As habilidades de design mais procuradas hoje envolvem pensamento crítico, facilitação de workshops colaborativos, storytelling visual e a capacidade de traduzir insights complexos em interfaces intuitivas. É um conjunto de competências profundamente humano, e isso é justamente o que torna essa área tão resiliente diante da automação.
O papel da formação acadêmica em um mercado dominado por bootcamps
Profissionais que já atuam no setor reforçam a visão de que a formação acadêmica estruturada faz diferença na hora de enfrentar projetos complexos e de larga escala. Bootcamps e cursos livres continuam sendo portas de entrada válidas — a própria Eliana Smelansky passou por um antes de conseguir sua posição na Best Buy —, mas a profundidade teórica que uma graduação oferece em áreas como psicologia da percepção, arquitetura de informação e métodos de pesquisa dá ao profissional uma base que se mantém relevante mesmo quando as ferramentas mudam.
A decisão da Universidade de Minnesota de dedicar quatro anos inteiros ao ensino de UX Design, em vez de tratá-lo como complemento de outros cursos, é significativa. Donnelly aponta que até então os estudantes estavam juntando peças por conta própria, combinando o minor com disciplinas eletivas e projetos independentes. Com o bacharelado, todo esse conhecimento ganha uma estrutura coesa, com progressão de complexidade e oportunidades de estágio integradas ao currículo. A iniciativa não apenas valida a importância da área como também sinaliza para outras instituições de ensino ao redor do mundo que existe espaço e necessidade de programas dedicados à experiência do usuário como disciplina autônoma.
O que isso significa para quem está no Brasil
Para quem acompanha o cenário de UX Design no Brasil, a notícia da Universidade de Minnesota serve como um termômetro bastante revelador. O mercado de trabalho brasileiro na área cresceu de forma expressiva nos últimos anos, impulsionado pela digitalização acelerada de bancos, fintechs, healthtechs e plataformas de e-commerce. Empresas como Nubank, iFood e Mercado Livre construíram times robustos de design e se tornaram referência na aplicação de práticas de experiência do usuário em escala. No entanto, a oferta de graduações específicas em UX ainda é bastante limitada no país. A maioria dos profissionais brasileiros na área vem de formações em design gráfico, ciência da computação, psicologia ou comunicação, e complementa seus conhecimentos com cursos livres, especializações ou certificações internacionais.
A criação de bacharelados dedicados ao tema em universidades de prestígio nos Estados Unidos pode pressionar instituições brasileiras a seguirem o mesmo caminho, o que seria excelente para a maturidade da profissão por aqui. Outro ponto relevante é o impacto que a inteligência artificial está tendo nas contratações e nas expectativas das empresas brasileiras em relação às habilidades de design. Já não basta dominar wireframes e testes A/B. Recrutadores estão buscando profissionais que consigam integrar ferramentas de IA ao seu processo criativo, que entendam de métricas de produto e que saibam defender decisões de design com dados concretos diante de stakeholders de negócio.
Esse perfil mais estratégico e multidisciplinar é exatamente o que programas como o da Universidade de Minnesota se propõem a formar. Para profissionais brasileiros que desejam se manter competitivos, vale investir em conhecimentos que combinem pesquisa qualitativa, prototipagem avançada, acessibilidade e pensamento sistêmico — habilidades que continuam sendo difíceis de automatizar e que fazem a diferença em qualquer contexto de produto digital. 🚀
UX Design como infraestrutura do mundo digital
O movimento que estamos vendo agora é parte de uma transformação maior. A experiência do usuário deixou de ser um departamento isolado para se tornar uma mentalidade que permeia toda a cadeia de desenvolvimento de produtos. Quando uma universidade do porte da Universidade de Minnesota decide criar um curso inteiro dedicado ao tema — e quando profissionais como Smelansky e Horst demonstram na prática o impacto dessas habilidades em empresas como Best Buy e Electronic Arts — o recado é claro: UX Design não é tendência passageira, é infraestrutura essencial do mundo digital.
Para quem está construindo carreira nessa área, seja nos Estados Unidos ou no Brasil, o momento não poderia ser mais favorável. As habilidades de design centrado no ser humano estão entre as mais procuradas e bem remuneradas do setor de tecnologia. Como Donnelly ressaltou, por trás de cada site e cada aplicativo existe alguém projetando essa experiência, e cada vez mais empresas estão investindo nisso porque o impacto vai direto para os resultados financeiros. Tudo indica que essa realidade vai se intensificar nos próximos anos à medida que mais produtos, serviços e experiências migram para o ambiente digital — e profissionais bem formados estarão no centro dessa evolução.
