A automação chegou com tudo no mercado de trabalho, e muita empresa está apostando nela para cortar custos — especialmente nos empregos de entrada ocupados pela Gen Z.
O problema é que essa estratégia pode ser uma faca de dois gumes.
Andrew McAfee, cientista pesquisador do MIT e co-líder da Iniciativa sobre Economia Digital da instituição, acendeu um sinal de alerta importante: ao eliminar vagas de nível inicial, as empresas não estão apenas enxugando o quadro de funcionários de hoje. Elas estão destruindo o pipeline que forma os líderes de amanhã.
Segundo McAfee, que também é cofundador da startup Workhelix — focada em ajudar empresas a entender o retorno sobre investimento em IA —, o raciocínio é direto. Em entrevista à Harvard Business Review em abril, ele questionou: como é que as pessoas vão aprender a fazer o trabalho, se não por meio do aprendizado na prática, do treinamento e do estágio? É assim que se aprende a fazer um trabalho intelectual difícil: ajudando alguém que já é bom naquilo com as tarefas mais rotineiras. E quando colocamos automação demais nisso, rápido demais, perdemos essa escada do aprendizado.
E tem mais um detalhe que torna esse cenário ainda mais irônico 👀
A Gen Z — justamente a geração que está sendo empurrada para fora do mercado por causa da inteligência artificial — é exatamente quem mais sabe usar essas ferramentas. Cortar esse grupo agora pode significar perder o maior ativo humano disponível para escalar a IA nas organizações.
É um paradoxo que o mercado ainda não sabe muito bem como resolver — e as consequências podem ser sentidas por anos.
O que está acontecendo com os empregos de entrada?
Durante décadas, os empregos de entrada funcionaram como a porta de acesso ao mundo corporativo. Era ali que profissionais aprendiam o básico, entendiam a cultura da empresa, erravam sem grandes consequências e desenvolviam habilidades que não existem em nenhum livro didático. Esse tipo de vaga nunca foi só sobre produtividade — era sobre formação. E é exatamente essa função invisível que está sendo ignorada quando empresas trocam analistas júnior, assistentes e estagiários por fluxos automatizados de inteligência artificial. O raciocínio financeiro até faz sentido no curto prazo: uma ferramenta de IA não tira férias, não pede aumento e entrega relatórios em segundos. Mas o que essa conta não inclui é o custo de longo prazo de não ter ninguém treinado para gerenciar, questionar e evoluir esses sistemas.
A pesquisa de McAfee aponta que o risco não é só operacional — é estratégico. Quando uma empresa elimina sistematicamente as vagas iniciais, ela interrompe um ciclo natural de desenvolvimento de talentos que leva anos para ser reconstruído. O problema fica evidente quando, daqui a cinco ou dez anos, a mesma organização precisar de um gerente sênior experiente e perceber que simplesmente não formou ninguém para ocupar esse espaço. A escada corporativa perdeu os primeiros degraus, e agora ninguém consegue subir.
Esse fenômeno já está se manifestando nos números. As vagas publicadas na Handshake, plataforma focada em posições de nível inicial, caíram 2% em relação ao ano anterior e estão 12% abaixo dos níveis pré-pandemia, segundo o relatório de tendências da turma de 2026. Enquanto isso, a taxa de desemprego entre recém-formados de 22 a 27 anos chegou a 5,6%, de acordo com o Fed de Nova York. O resultado prático tem sido um mercado com menos oportunidades reais para quem está começando a carreira, especialmente jovens da Gen Z que se formaram nos últimos dois ou três anos e encontraram um cenário bem diferente do que esperavam.
Gen Z e IA: uma relação mais complexa do que parece
A Gen Z cresceu cercada de tecnologia. Não é exagero dizer que essa geração tem uma fluência digital que nenhuma outra teve de forma tão natural e intuitiva. Um estudo da Deloitte de novembro de 2025 mostrou que cerca de 76% da Gen Z já utilizou uma ferramenta de IA autônoma — o maior índice entre todas as gerações. Quando soluções como o ChatGPT, o Midjourney e dezenas de outras ferramentas de inteligência artificial explodiram em popularidade, foram justamente os jovens que primeiro as adotaram no dia a dia — para estudar, criar, trabalhar e até empreender. Isso significa que o grupo mais afetado pelo fechamento de vagas iniciais é, ao mesmo tempo, o grupo mais preparado para trabalhar com as tecnologias que estão causando esse fechamento. É uma ironia difícil de ignorar.
Empresas que estão cortando empregos de entrada com o argumento de que a IA faz o trabalho com mais eficiência estão, na prática, dispensando as pessoas que mais facilmente saberiam como operar, ajustar e expandir o uso dessas ferramentas internamente. O desenvolvimento de talentos em IA dentro das organizações depende de profissionais que entendam tanto o negócio quanto a tecnologia — e a Gen Z tem uma combinação única dessas características.
McAfee reforça esse ponto ao falar sobre o comportamento das diferentes gerações. Segundo ele, existe uma grande queda demográfica: à medida que as pessoas ficam mais velhas, tendem a ser mais apegadas aos seus hábitos e menos dispostas a experimentar coisas novas e ousadas, como a IA. Ou seja, ao recuar nas contratações de nível inicial, a empresa não só sacrifica oportunidades futuras de aprendizado e os profissionais qualificados de amanhã — ela também fecha a torneira dos usuários mais entusiasmados e avançados de IA dentro da própria organização.
O medo da Gen Z e o outro lado da história
Para muitos jovens, o alerta de McAfee já parece estar se concretizando. A ansiedade disparou entre os recém-formados: quase nove em cada dez graduados da turma de 2026 estão preocupados que a IA ou a automação possam substituir vagas de entrada — um salto brusco em relação aos 64% registrados em 2025, segundo dados da Monster.
Alguns líderes do setor de tecnologia até alimentaram esse medo. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, chegou a repetir por bastante tempo — mas depois recuou — a previsão de que a IA poderia eliminar até metade de todos os empregos administrativos de nível inicial.
Mas nem tudo é motivo para pânico. Dados históricos sugerem que os jovens trabalhadores podem ser mais resistentes do que imaginam. Uma análise recente do Goldman Sachs mostrou que trabalhadores jovens com formação universitária tendem a sofrer perdas salariais cerca de metade menores do que outros profissionais deslocados na década seguinte a uma demissão. Além disso, eles têm mais facilidade para trocar de ocupação e migrar para funções que complementam as novas tecnologias, em vez de competir diretamente com elas.
Segundo o relatório, ao contrário das preocupações atuais de que os custos da IA vão pesar especialmente sobre os recém-formados, os trabalhadores mais jovens historicamente conseguiram se adaptar de forma mais flexível, por meio da mobilidade ocupacional e da atualização de habilidades.
Empresas que estão apostando na Gen Z
Nem toda organização está recuando. Alguns grandes empregadores estão fazendo o movimento contrário — apostando que os profissionais em início de carreira serão essenciais para construir e escalar a IA.
A IBM é um dos exemplos mais marcantes. A empresa anunciou que vai triplicar suas contratações de nível inicial, em parte para construir habilidades mais duradouras e gerar mais valor no longo prazo. O CEO Arvind Krishna foi direto ao ponto em outubro de 2025: enquanto muita gente fala em demissões ou congelamento de contratações, ele disse querer fazer o oposto. Segundo Krishna, a IBM provavelmente vai contratar mais recém-formados nos próximos 12 meses do que fez nos últimos anos.
A Salesforce seguiu na mesma linha. Em abril, o CEO Marc Benioff anunciou a contratação de mil recém-formados e estagiários para ajudar a construir os sistemas de IA da empresa. Em uma publicação no X, ele rebateu diretamente as previsões pessimistas, dizendo que apesar de terem afirmado que a IA mataria os empregos de entrada, são justamente esses jovens e estagiários que estão construindo a tecnologia — dando vida a produtos como o Agentforce e o Headless360.
Até mesmo a Amazon, que passou por escrutínio depois de demitir milhares de trabalhadores nos últimos anos, está mantendo seu pipeline de jovens talentos. A gigante planeja receber 11 mil estagiários de engenharia de software em 2026, em linha com os anos anteriores. O CEO da AWS, Matt Garman, afirmou que a empresa está contratando tantos desenvolvedores de software quanto sempre contratou — e que, na verdade, vê a demanda por esses profissionais acelerando cada vez mais.
Desenvolvimento de talentos na era da automação
O conceito de desenvolvimento de talentos precisa ser repensado urgentemente dentro das empresas. Por muito tempo, ele foi tratado como um benefício secundário — algo bacana de ter, mas não essencial. Com a aceleração da automação e da inteligência artificial, essa visão ficou completamente defasada. Hoje, a capacidade de uma organização de formar, reter e evoluir seus profissionais é tão estratégica quanto qualquer decisão de produto ou investimento em tecnologia.
McAfee defende que as empresas precisam encarar os empregos de entrada não como um custo a ser otimizado, mas como um investimento em capacidade futura. Isso significa repensar quais funções realmente precisam ser automatizadas agora e quais ainda têm valor formativo — tanto para o profissional quanto para a organização. Nem toda tarefa repetitiva deveria ser eliminada imediatamente só porque a tecnologia permite. Algumas dessas tarefas são onde os iniciantes aprendem a pensar, a resolver problemas e a entender como o negócio funciona de verdade. E vale lembrar que as vagas de entrada costumam ser a mão de obra mais barata que uma empresa pode contratar — cortá-las prejudica tanto a eficiência de custos quanto o desenvolvimento da força de trabalho no longo prazo.
A boa notícia é que algumas organizações já estão começando a perceber esse movimento e ajustando suas estratégias. Em vez de simplesmente cortar vagas, elas estão redesenhando funções — criando posições híbridas onde profissionais iniciantes trabalham lado a lado com ferramentas de inteligência artificial, aprendendo a supervisionar, auditar e melhorar os resultados dessas tecnologias. Esse modelo não só preserva o pipeline de desenvolvimento de talentos, como também cria uma nova categoria de profissional: alguém que entende profundamente tanto o contexto humano do negócio quanto a lógica das ferramentas de IA. E essa combinação, no mercado atual, vale ouro. 🏆
O ponto central aqui é simples: automação e desenvolvimento de talentos não precisam ser opostos. Mas para que andem juntos, as empresas precisam parar de tomar decisões de curto prazo sem considerar o impacto estrutural que elas causam no longo prazo.
A Gen Z não é vítima passiva desse processo — ela tem as ferramentas, a mentalidade e a adaptabilidade para ser protagonista da próxima fase do mercado de trabalho. O que falta, muitas vezes, é a oportunidade de entrar pela porta. E essa porta, hoje, está sendo fechada antes mesmo de ser aberta.
