O mercado de tecnologia tem uma dinâmica bastante curiosa: enquanto muitas empresas trocam de CEO como quem troca de camisa, algumas das gigantes mais relevantes do setor ainda são lideradas pelos mesmos caras que as fundaram.
E isso faz toda a diferença.
Quando um fundador está no comando, o jogo muda completamente. Não é só questão de estilo de gestão — é sobre quem tem mais a perder se as coisas derem errado. Executivos contratados pensam em bônus e no próximo emprego. Fundadores pensam em legado, em visão de longo prazo, e muitas vezes têm uma fatia enorme do próprio patrimônio atrelada ao desempenho da empresa.
Esse cenário fica ainda mais interessante quando você coloca Inteligência Artificial e automação no centro da estratégia. 🤖
Três empresas chamam atenção nesse contexto:
- JD.com, gigante do e-commerce chinês com uma infraestrutura logística que rivaliza com qualquer operação do mundo
- Meta Platforms, que transforma bilhões de usuários em receita publicitária enquanto aposta pesado em realidade virtual e agentes de IA
- Xiaomi, que foi de fabricante de smartphones a um ecossistema completo de hardware, serviços conectados e, agora, carros elétricos
O pano de fundo macroeconômico também ajuda a entender por que esse tipo de liderança importa agora. Com investidores de olho em inflação, lucros industriais na China e pressões geopolíticas, ter alguém com skin in the game — ou seja, com a pele no jogo — no topo da hierarquia é um sinal de estabilidade que poucos indicadores conseguem substituir. 📊
Vamos entender o que cada uma dessas empresas fundador está construindo e por que o tema de IA mais automação mais visão de longo prazo continua tão relevante.
JD.com: quando o e-commerce vira laboratório de automação
A JD.com não é só um site de compras. É uma das operações logísticas mais avançadas do planeta, e grande parte disso existe porque Richard Liu — o fundador — sempre tratou a infraestrutura da empresa como prioridade estratégica. Enquanto concorrentes terceirizavam a entrega, a JD construiu sua própria rede de armazéns, frotas e, mais recentemente, robôs. Sediada em Pequim, a companhia combina varejo online, marketplace para terceiros e entrega ponta a ponta em uma única plataforma que atende tanto consumidores quanto lojistas.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho dessa operação. A JD Retail responde pela maior parte da receita, com cerca de CN¥1,13 trilhão, seguida pela JD Logistics, que gera CN¥230,8 bilhões, e pelos novos negócios, que somam CN¥49,8 bilhões. No total, a empresa movimenta aproximadamente CN¥1,32 trilhão em receita, com praticamente toda essa quantia vindo do mercado chinês. Com valor de mercado em torno de US$34,3 bilhões, a JD ocupa uma posição interessante para quem acompanha empresas fundador.
O grande diferencial está na aposta declarada em Inteligência Artificial e automação. Os planos da empresa incluem robôs, veículos autônomos e drones que podem reformular a economia das entregas. Esse nível de investimento em tecnologia proprietária só faz sentido quando quem manda tem uma perspectiva de décadas, não de trimestres. Algoritmos de previsão de demanda, sistemas de picking automatizado e logística inteligente já fazem parte da rotina operacional da companhia em diversas regiões.
Vale ser honesto sobre os desafios. A JD passou por um ano difícil, com margens de lucro comprimidas e queda no lucro líquido. A demanda mais lenta no e-commerce, a competição intensa em áreas como entrega de comida e o custo da expansão dentro e fora da China mantêm pressão sobre os retornos. Por outro lado, analistas destacam o potencial de crescimento dos lucros, e a ação negocia abaixo de algumas estimativas de valor justo. A pergunta-chave é se o modelo intensivo em tecnologia e a visão do fundador conseguirão transformar os obstáculos de curto prazo em poder de precificação e ganhos de eficiência no futuro.
Meta Platforms: IA como produto, não como ferramenta
Mark Zuckerberg passou anos sendo questionado sobre o futuro do Facebook. Hoje, quem ainda duvida da capacidade dele de reinventar o negócio precisa olhar com mais atenção para o que a Meta Platforms está construindo. Sediada em Menlo Park, a empresa opera Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger, Threads e serviços relacionados, conectando bilhões de pessoas e negócios por telefones, computadores, headsets de realidade virtual e dispositivos turbinados por IA.
A escala dessa operação impressiona. A Meta gera a esmagadora maioria de sua receita — cerca de US$212,8 bilhões — no segmento Family of Apps, com a divisão Reality Labs contribuindo com US$2,2 bilhões. São 3,58 bilhões de usuários diários e uma margem líquida de 32,8%, números que sustentam um valor de mercado próximo de US$1,40 trilhão. Esse é o tipo de motor de receita que poucas empresas no mundo conseguem replicar.
A estratégia de Zuckerberg é clara: usar Inteligência Artificial para tornar a publicidade mais eficiente, automatizar processos e criar novas superfícies de engajamento dentro do ecossistema que a empresa já domina. A Meta desenvolve hardware como os headsets Meta Quest e os óculos com IA, além de projetos ambiciosos como o supercluster Prometheus e o Meta AI Business Agent. Tudo isso aponta para um futuro onde IA e realidade aumentada se misturam às experiências sociais. 💡
Mas essa ambição tem um preço alto. As perdas do Reality Labs chegaram a US$19,19 bilhões, e a empresa planeja um investimento em infraestrutura na casa de US$125 bilhões a US$145 bilhões. Some a isso a pressão regulatória sobre o uso por jovens, o controle do fundador e vendas recentes de ações por insiders, e você tem um cenário cheio de tensões. A questão central é se os projetos de IA e wearables justificam o custo que o lucrativo negócio de publicidade está sendo chamado a financiar. O mercado percebeu essa dinâmica, e as ações da Meta refletem essa leitura.
Xiaomi: do hardware conectado ao carro elétrico com IA embarcada
A história da Xiaomi é um dos casos mais fascinantes de expansão de ecossistema que o setor de tecnologia já viu. Lei Jun fundou a empresa com foco em smartphones acessíveis, mas a visão nunca foi só sobre celular. Sediada em Pequim, a companhia hoje vende smartphones, dispositivos de casa inteligente, grandes eletrodomésticos, wearables e serviços online, tudo integrado por uma camada de software e, cada vez mais, por Inteligência Artificial que aprende com o comportamento do usuário.
A diversificação aparece nos números. A Xiaomi gera CN¥180,1 bilhões com smartphones, CN¥115,5 bilhões com produtos de IoT e estilo de vida, CN¥37,8 bilhões com serviços de internet, CN¥107,4 bilhões com o segmento de carros elétricos, IA e novas iniciativas, e mais CN¥4,3 bilhões com outros negócios relacionados. O valor de mercado gira em torno de HK$551,0 bilhões. Para quem busca empresas fundador, a Xiaomi oferece uma combinação de preço atrativo e crescimento ambicioso, com um P/L de 13,5x — abaixo da média de pares — e uma meta de analistas mais de 20% acima do preço recente de HK$21,42.
A entrada no segmento de carros elétricos foi o passo mais ousado dessa trajetória, e faz todo sentido dentro da lógica de empresas lideradas por fundadores. Lei Jun enxergou o veículo elétrico não como um produto automotivo, e sim como o maior dispositivo conectado que uma pessoa pode ter — e a Xiaomi tem exatamente o know-how para desenvolver a inteligência embarcada, a interface de usuário e a integração com o restante do ecossistema. A automação de fábrica e a manufatura inteligente também estão no centro dessa operação, com unidades produtivas equipadas com robótica avançada.
O alerta aparece no último trimestre, em que receita e lucro líquido caíram, e nos pesados gastos com IA e veículos elétricos, que podem pressionar a lucratividade se a expansão no exterior, especialmente em automóveis, se mostrar mais lenta ou mais cara do que o esperado. Ainda assim, a aposta no ecossistema AIoT alimentando serviços de maior margem, somada a um novo modelo de autonomia estendida em análise pelos reguladores, pode aprofundar a fidelização e sustentar margens maiores ao longo do tempo.
O padrão que conecta tudo isso
Olhando para JD.com, Meta e Xiaomi juntas, fica difícil não perceber o fio condutor. As três são lideradas por fundadores que transformaram visões inicialmente contestadas em operações de escala global. As três estão usando Inteligência Artificial e automação não como diferencial pontual, mas como componente estrutural do negócio — algo que permeia desde a linha de produção até a experiência do usuário final. E as três operam em segmentos onde o e-commerce, os dados e a conectividade se cruzam de formas cada vez mais interessantes.
Para o mercado, esse tipo de empresa carrega uma proposta de valor específica: previsibilidade de visão, mesmo em ambientes de alta incerteza. Isso não significa que fundadores nunca erram — erram, e às vezes de forma bastante custosa, como mostram as margens pressionadas da JD, as perdas bilionárias do Reality Labs e a queda recente de receita da Xiaomi. Mas a combinação de comprometimento patrimonial, visão de longo prazo e disposição para apostar em tecnologias que ainda não têm retorno garantido cria um ambiente onde a inovação real consegue acontecer sem ser sufocada por pressões de curto prazo. E em um setor onde a próxima grande virada tecnológica pode surgir a qualquer momento, essa característica vale muito. 🚀
