Inteligência artificial e criptomoedas gastam fortunas nas eleições americanas, mas o público segue desconfiado
A inteligência artificial e as criptomoedas deixaram de ser apenas assuntos de tecnologia para se tornarem peças centrais de uma disputa política milionária nos Estados Unidos. Com as eleições de meio de mandato de 2026 se aproximando, dois setores que movimentam bilhões de dólares estão despejando dinheiro nas campanhas americanas como nunca antes, e o objetivo é direto: garantir que o Congresso jogue a favor deles.
De um lado, Super PACs ligados à IA e às criptomoedas já somam cifras impressionantes em recursos destinados a influenciar eleições em todo o país. O Leading the Future, um Super PAC pró-IA fundado em agosto, já levantou mais de 75 milhões de dólares desde o seu lançamento, de acordo com registros recentes na Federal Election Commission. Do outro lado do tabuleiro, uma parcela considerável dos americanos ainda olha para essas tecnologias com bastante desconfiança, seja por medo de perder o emprego para um sistema automatizado ou por nunca ter chegado perto de uma carteira digital.
Esse contraste entre o poder financeiro das big techs e o ceticismo popular é exatamente o que torna esse momento tão interessante de acompanhar. 👀 Não é só uma batalha sobre regulamentação ou sobre quem vai ocupar cadeiras no Senado americano. É uma disputa sobre como essas tecnologias vão ser tratadas nos próximos anos e quem vai definir as regras do jogo.
O dinheiro que está movendo o tabuleiro político
Quando a gente fala em lobby nos Estados Unidos, não estamos falando de conversas informais nos bastidores ou de favores discretos. Estamos falando de um sistema legal, estruturado e extremamente bem financiado, onde grupos de interesse organizam contribuições milionárias para apoiar candidatos alinhados às suas causas. Os Super PACs, que são comitês políticos de ação independente, funcionam como os grandes veículos desse dinheiro, podendo arrecadar e gastar valores praticamente ilimitados, desde que não coordenem diretamente com as campanhas dos candidatos.
O setor de criptomoedas foi um dos primeiros a entender o potencial disso e não perdeu tempo. O Fairshake, um grupo pró-cripto financiado principalmente pela Coinbase, Andreessen Horowitz e Ripple Labs, já gastou 28 milhões de dólares em diversas primárias competitivas por meio de sua rede de PACs. A expectativa é que o grupo apoie candidatos de ambos os partidos ao longo do ciclo eleitoral de 2026. O resultado já vem sendo sentido: vários candidatos pró-cripto vencendo em disputas que pareciam bem mais equilibradas antes do dinheiro entrar em cena.
O Leading the Future, por sua vez, já direcionou recursos para primárias na Carolina do Norte, Texas, Illinois e Nova York, apoiando candidatos tanto democratas quanto republicanos. Esses grupos podem facilmente se tornar os maiores gastadores em qualquer corrida para a Câmara ou para o Senado que escolherem, ou em várias ao mesmo tempo.
Agora, com 2026 no horizonte, esse mesmo playbook está sendo replicado em escala ainda maior, e desta vez a inteligência artificial entrou de vez nessa conversa. Empresas do setor de IA, preocupadas com projetos de lei que poderiam impor restrições ao desenvolvimento de modelos, à coleta de dados ou ao uso comercial dessas ferramentas, começaram a mobilizar recursos próprios para garantir que o ambiente regulatório continue favorável.
Jason Thielman, ex-diretor executivo do National Republican Senatorial Committee, resumiu bem a estratégia desses grupos ao comentar sobre os PACs alinhados ao setor cripto: o fio condutor, na perspectiva deles, é uma tentativa de manter um grau de bipartidarismo e identificar pessoas que eles acreditam que serão defensoras dessas causas.
Os dois setores também investem pesado em lobby em Washington
O dinheiro não para nas campanhas eleitorais. Ambos os setores estão gastando fortunas com lobistas em Washington para garantir que sua influência continue para além do dia da eleição. O lobby da inteligência artificial, em particular, cresceu de forma impressionante nos últimos anos. A OpenAI e a Anthropic gastaram valores recordes com lobistas no primeiro trimestre de 2026, sinalizando que a corrida para moldar a regulamentação federal está mais intensa do que nunca.
O setor de criptomoedas também despejou milhões em esforços de lobby nos últimos anos, pressionando o Congresso a aprovar uma reforma ampla na forma como os ativos digitais são regulados nos Estados Unidos. Essa combinação de gastos com campanhas e lobby cria uma presença quase onipresente desses setores nos corredores do poder americano.
Por que a regulamentação importa tanto para esses setores
Para entender por que tanto dinheiro está sendo colocado em jogo, é preciso olhar para o que está efetivamente em pauta no Congresso americano.
No campo das criptomoedas, o grande objetivo é a aprovação do CLARITY Act, um projeto de lei sobre estrutura de mercado que está tramitando no Senado. Executivos e lobistas do setor esperam que essa legislação dê à indústria um selo de legitimidade por parte de Washington e forneça certeza de longo prazo sobre como os tokens digitais serão supervisionados pelos reguladores de mercado. Para as empresas do setor, uma regulamentação favorável pode significar bilhões em novos negócios e acesso ao mercado institucional americano. Uma regulamentação hostil, por outro lado, pode empurrar toda a operação para fora dos Estados Unidos.
O dinheiro dos Super PACs funciona como uma espécie de cenoura e porrete ao mesmo tempo: pode beneficiar parlamentares que enfrentam campanhas de reeleição competitivas em 2026 e que apoiam os objetivos do setor, e ameaçar aqueles que ficarem no caminho.
Um exemplo que ilustra bem essa dinâmica: em 2024, um Super PAC afiliado ao Fairshake gastou mais de 40 milhões de dólares para ajudar a derrotar o então senador democrata Sherrod Brown, de Ohio, um crítico de longa data das criptomoedas. Brown está concorrendo novamente e pode ser um alvo importante da rede de PACs cripto mais uma vez.
O ex-congressista republicano de Ohio, Jim Renacci, que desafiou Brown sem sucesso em 2018, comentou sobre o fenômeno: grupos de cripto estão absolutamente se tornando uma força disruptiva nos gastos políticos, inclusive em Ohio. Mas sejamos honestos, eles não são únicos. É apenas a versão mais recente de dinheiro externo.
O cenário da inteligência artificial é ainda mais complexo
No campo da inteligência artificial, o cenário regulatório é diferente e, em muitos aspectos, mais complicado. Diferente das cripto, que já têm um histórico de batalhas regulatórias, a IA está em um momento em que as regras ainda estão sendo escritas do zero. Questões como responsabilidade por danos causados por modelos de linguagem, uso de dados protegidos por direitos autorais no treinamento, transparência algorítmica e limites para sistemas autônomos em decisões críticas estão todas abertas e em discussão simultânea em várias frentes.
Os grupos de IA que estão gastando pesado nas eleições querem garantir que sua indústria nascente seja regulada por um conjunto único de regras federais, e não por uma colcha de retalhos de leis estaduais. Legisladores estaduais estão aprovando rapidamente novas leis que regulam a tecnologia, e esse movimento preocupa bastante as empresas do setor.
Jesse Hunt, porta-voz do Leading the Future, foi bem direto em uma declaração sobre o tema: um arcabouço nacional vai impedir que uma colcha de retalhos de leis estaduais conflitantes prejudique nossa capacidade de vencer a corrida global de IA contra a China.
A Casa Branca e os republicanos no Congresso têm geralmente apoiado esse objetivo, mas até agora propuseram regulações mais brandas que a maioria dos democratas acredita não irem longe o suficiente. Embora o setor de tecnologia se incline para a abordagem desregulatória do Partido Republicano, alguns lobistas estão abertos a regras federais mais robustas para a IA em troca de uma proibição de leis estaduais sobre o tema.
Para as empresas que desenvolvem essas tecnologias, cada detalhe de como essas regras forem escritas pode representar a diferença entre um mercado aberto e uma operação engessada por compliance. É por isso que o lobby deixou de ser uma atividade periférica para esses setores e se tornou uma prioridade estratégica.
A opinião pública ainda não comprou essa ideia
Enquanto os bastidores políticos fervilham com esse movimento de capital, a opinião pública americana segue bem mais dividida sobre o papel da inteligência artificial e das criptomoedas na sociedade. E é justamente aqui que os dados da pesquisa revelam uma desconexão importante entre os interesses corporativos e o sentimento popular.
Mais da metade dos americanos afirma que nunca comprou e nem consideraria comprar ou negociar criptomoedas. Esse dado é bastante revelador. Para muita gente, cripto ainda é sinônimo de especulação, de golpe ou de algo que só faz sentido para quem já tem dinheiro sobrando para arriscar. A série de colapsos de grandes plataformas nos últimos anos, com destaque para o caso da FTX em 2022, deixou uma cicatriz no imaginário popular sobre o que significa confiar dinheiro a um ativo digital.
No front da inteligência artificial, os números também não animam muito o setor. Quase metade dos entrevistados acredita que a IA provavelmente vai eliminar mais empregos do que criar. Além disso, uma pluralidade de 43% dos americanos afirma que os riscos da tecnologia superam os benefícios. O medo de automação, de substituição de funções por sistemas automatizados e de uma concentração ainda maior de poder nas mãos de poucas empresas de tecnologia é algo que ressoa de forma bastante concreta para boa parte da população.
Esse gap entre o que o setor quer e o que o eleitor médio pensa é exatamente o terreno onde a disputa política vai se dar. Os Super PACs apostam que conseguem eleger candidatos com volume de anúncios e financiamento de campanha, mas o histórico mostra que dinheiro resolve bastante coisa na política americana sem resolver tudo. Candidatos que ignoram completamente o sentimento popular ainda perdem eleições, e isso cria uma tensão interessante para os próximos ciclos.
O que esperar dos próximos meses
Com 2026 chegando, o ritmo das movimentações políticas vai aumentar consideravelmente. No campo legislativo, é esperado que projetos relacionados à regulamentação de criptomoedas avancem no Congresso, especialmente com o CLARITY Act já em discussão no Senado. A movimentação bipartidária em torno do tema sugere que alguma resolução pode estar mais próxima do que muita gente imagina.
Para a inteligência artificial, o caminho é mais longo e mais incerto. A velocidade com que a tecnologia evolui torna extremamente difícil para qualquer legislador escrever regras que ainda façam sentido daqui a dois ou três anos. Isso abre espaço para diferentes abordagens, desde frameworks mais amplos e baseados em princípios até regulações setoriais específicas para áreas como saúde, finanças e segurança pública. O lobby do setor vai trabalhar intensamente para garantir que qualquer caminho escolhido preserve a flexibilidade para inovar.
Enquanto isso, a dinâmica de cenoura e porrete dos Super PACs promete esquentar as primárias pelo país. Candidatos em estados-chave vão precisar se posicionar sobre IA e criptomoedas com mais clareza do que nunca, sabendo que tanto o apoio quanto a oposição desses grupos pode representar dezenas de milhões de dólares a favor ou contra suas campanhas.
O que está claro é que a intersecção entre tecnologia, dinheiro e política nunca foi tão evidente quanto agora. A forma como o Congresso americano decidir tratar a inteligência artificial e as criptomoedas nos próximos anos vai ter impacto direto não só no mercado americano, mas em como esses setores se desenvolvem globalmente. E com tanto dinheiro em jogo, pode apostar que nenhum dos dois lados vai deixar essa conversa acontecer sem estar bem representado na mesa. 💡
