De Canal Pequeno a Fenômeno Global com Lego e Inteligência Artificial
Imagine um canal no YouTube postando vídeos políticos e acumulando apenas algumas centenas de visualizações por clipe.
Nada de especial, certo?
Aí, de repente, tudo muda.
No ano passado, um canal chamado Akhbar Enfejari — ou Explosive News, em tradução livre — começou a postar uma variedade de conteúdo digital com tom político e moralista no YouTube. Um jovem iraniano aparecia na câmera entregando comentários sobre notícias do Oriente Médio no estilo influencer, iluminado por ring light diante de um cenário neon. Animações geradas por inteligência artificial ressaltavam a importância da determinação e ofereciam dicas sobre como lidar com a crise hídrica do Irã. O canal e uma conta relacionada no Instagram tinham uma inclinação claramente anti-ocidental, mas seus clipes não eram exatamente empolgantes. A maioria mal passava de algumas centenas de visualizações.
Então, em fevereiro deste ano, o Explosive News encontrou seu formato ideal com algo que ninguém esperava: propaganda animada gerada por A.I. contra a guerra dos Estados Unidos no Irã, feita no estilo de filmes de Lego, com líderes mundiais caricaturados como bonecos amarelos de cabeça grande e mísseis representados como pecinhas de plástico colorido.
Sim, você leu certo. 🧱
O resultado? Milhões de visualizações, compartilhamentos globais e um debate intenso sobre os limites da comunicação em tempos de conflito armado. Esses clipes foram recompartilhados por contas do governo iraniano, promovidos pela mídia estatal russa e até cooptados por manifestantes do movimento No Kings por causa de suas imagens extravagantes e anti-Trump.
O caso do Explosive News não é só uma curiosidade da internet — ele acende um alerta real sobre como a inteligência artificial está redefinindo a produção de propaganda no século 21 e como um grupo anônimo de estudantes iranianos conseguiu dominar a narrativa geopolítica com blocos de Lego virtuais e ferramentas de edição digital. 🚀
A Mensagem Por Trás dos Bonecos de Plástico
A mensagem política exibida nos vídeos é tão direta e caricata quanto os personagens de Lego que aparecem nas cenas. Em um dos clipes, iranianos de Lego celebram mísseis voando em direção a Tel Aviv enquanto uma trilha sonora de rap gerada por A.I. toca ao fundo. A música se chama L.O.S.E.R. e traz versos como prove a cinza da derrota. Em outra cena, uma lápide de Lego exibe a inscrição R.I.P. Donald John Trump. A Casa Branca aparece em chamas depois de ser atingida por um míssil.
Os vídeos expressam uma solidariedade crua com vítimas de agressão norte-americana, passadas e presentes. Em um dos clipes, mísseis de Lego carregam mensagens em inglês homenageando desde nativos americanos até aldeões vietnamitas e pessoas escravizadas. A frase ONE VENGEANCE FOR ALL aparece em letras maiúsculas na tela.
Mas não para por aí. Os vídeos também demonstram fluência na linguagem das teorias da conspiração e do trolling online. Um deles faz referência a rumores de que Benjamin Netanyahu teria sido eliminado em ataques iranianos e substituído por um deepfake. Outro, alimentando especulações frenéticas sobre a saúde de Trump, mostra um hematoma aparecendo nas mãos do presidente de Lego. Um clipe retrata o Trump de Lego examinando fotos dele e de Netanyahu nos arquivos de Jeffrey Epstein antes de criar uma distração lançando o míssil que atingiu uma escola feminina iraniana no mês passado.
A enxurrada de imagens provoca uma espécie surreal de estranhamento. O tema é mortalmente sério — uma guerra internacional se desenrolando em tempo real e matando milhares de pessoas — mas o vocabulário visual é absurdamente trivializante. É como assistir a uma catástrofe humanitária recriada em um parque de diversões. E é justamente essa contradição que prende a atenção das pessoas. 😶
Quem Está Por Trás do Explosive News
Alguns veículos de imprensa descreveram o Explosive News como tendo vínculos com o regime iraniano. A Forbes, por exemplo, citou o fato de que os vídeos de Lego foram repostados no Telegram pela Tasnim News, um veículo afiliado ao Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica do Irã. O Jerusalem Post observou que certos clipes carregavam uma marca d’água aparente da Revayat-e Fath, nome de uma fundação de mídia estatal iraniana.
No entanto, durante uma troca de e-mails esta semana, um representante do Explosive News afirmou que o canal é totalmente independente — sem governo, sem militares, sem TV estatal. Sobre a Revayat-e Fath, ele explicou que era apenas o título em persa de dois vídeos que lançaram: Victory Chronicles 1 e 2. Quando pressionado por um verificador de fatos sobre possíveis vínculos com o regime, respondeu de forma evasiva: Existe alguma maneira de provar que você não tem conexão com Jennifer Lawrence?
Ele descreveu o Explosive News como uma equipe de mídia liderada por estudantes com experiência em ativismo social e disse que os indivíduos por trás do canal preferem permanecer anônimos por receio de que o sucesso viral pudesse transformá-los em alvos na campanha militar. E acrescentou com ironia: Detalhe engraçado — algumas das nossas antigas universidades foram bombardeadas. É, um belo presente de Donald Trump para a ciência e cultura iranianas.
Como os Vídeos São Produzidos
O Explosive News publicou seus primeiros vídeos no estilo Lego durante a campanha de bombardeio dos EUA e Israel contra instalações nucleares iranianas em junho do ano passado. Quando a guerra começou oficialmente em fevereiro, o representante disse que a equipe já estava preparada, com planos prontos e motores acelerados — e, já no segundo dia, os vídeos no estilo Lego estavam de volta em ação.
O processo de produção funciona assim: a equipe escreve roteiros e depois gera os visuais correspondentes usando ferramentas de A.I. e edição digital. Trabalhando em período integral, conseguem produzir um vídeo de dois minutos em aproximadamente 24 horas. Essa velocidade é impressionante e mostra como a inteligência artificial reduziu drasticamente o tempo e o custo necessários para criar conteúdo visualmente impactante. 🤖
A Motivação Declarada do Grupo
Espectadores americanos acostumados ao estilo de provocação típico do MAGA talvez esperassem que os vídeos de Lego fossem movidos por um certo niilismo de clickbait — aquele tipo de conteúdo descartável só pensado para viralizar. Mas o representante do Explosive News falou do trabalho com uma seriedade quase poética.
Ele disse que cada cena, cada quadro, cada detalhe escondido e cada ideia nos vídeos são como filhos da equipe. Citou um provérbio persa — o que vem do coração certamente encontrará lugar no coração — e disse que o grupo espera que seus vídeos possam inspirar os espectadores com um vislumbre de um tipo diferente de espírito, algo mais poético, mais humano, talvez um pouco mais gentil.
Essas talvez não sejam as primeiras palavras que vêm à mente quando alguém assiste a clipes de um Trump de Lego cujo traseiro de plástico está frequentemente em chamas. Mas o Explosive News se vê travando uma batalha entre verdade e falsidade. Como escreveu o porta-voz: Sabedoria rápida do Alcorão — os mais nobres são aqueles que permanecem justos.
Por Que o Formato Funcionou Tão Bem
Existe uma lógica bem clara por trás da escolha do visual no estilo Lego, e ela vai muito além da estética. O Lego é uma das marcas mais reconhecidas do planeta, associada diretamente à infância, à diversão e a algo seguro e inofensivo. Quando você vê um vídeo com aquela estética — blocos coloridos, personagens com cabeças redondas e expressões neutras — o cérebro automaticamente baixa a guarda. É um gatilho psicológico poderoso, porque o formato contradiz completamente o conteúdo que está sendo entregue. E essa contradição é justamente o que prende a atenção das pessoas, fazendo com que assistam até o final querendo entender o que estão vendo.
Além disso, o formato remove o peso visual que normalmente acompanha conteúdos sobre conflito armado. Imagens reais de guerra são perturbadoras e muita gente desvia delas por instinto. Quando o mesmo tema é apresentado com personagens de plástico e cenários de brinquedo, a barreira emocional diminui drasticamente, e a mensagem consegue chegar a uma audiência muito mais ampla — inclusive pessoas que normalmente evitariam esse tipo de conteúdo.
Do ponto de vista técnico, a inteligência artificial foi fundamental para viabilizar tudo isso em escala. Ferramentas de geração de imagem e vídeo permitem criar animações complexas com custo e tempo muito menores do que a animação tradicional exigiria. O canal conseguiu produzir conteúdo com frequência alta e qualidade visual consistente sem precisar de uma equipe grande ou de um orçamento significativo. Isso é um divisor de águas na história da propaganda — pela primeira vez, grupos com recursos limitados conseguem competir em nível de produção com organizações muito maiores e mais bem financiadas. 🎯
Mas, por mais puras que sejam as intenções declaradas da equipe, os vídeos de Lego tiveram sucesso em parte porque encontraram o discurso político no nível em que ele já havia afundado. O próprio governo Trump conduziu suas batalhas baseadas em memes em contas oficiais de redes sociais, com vídeos de ASMR de deportações, piadas internas de supremacismo branco e compilações de bombardeios entrelaçados com imagens de videogame. Segundo reportagens, Trump recebe diariamente um vídeo-montagem de dois minutos com ataques bem-sucedidos ao Irã para se manter atualizado sobre a guerra — uma espécie de TikTok militar privado para um comandante-em-chefe com capacidade de atenção limitada.
Como colocou o representante do Explosive News: Acreditamos que as narrativas dominantes da mídia israelense-americana frequentemente apresentam atos de força, injustiça, agressão e até violência de maneira polida e atraente através do poder da mídia. E completou: Sejamos honestos — se a verdade não for chamativa, ela fica bem solitária.
A.I. Como Arma de Narrativa — O Conceito de Slopaganda
No ano passado, três pesquisadores de mídia publicaram um artigo acadêmico com o título Slopaganda — uma nova gíria do século 21 para descrever a interseção entre inteligência artificial generativa e propaganda. Os autores argumentam que essa forma emergente é especialmente tóxica, tanto porque é produzida de maneira rápida e barata quanto porque introduz a personalização em massa, criando mensagens e narrativas sob medida de forma instantânea.
A slopaganda se tornou rapidamente uma espécie de novo esperanto dos conflitos internacionais. A CCTV, emissora estatal chinesa, produziu uma animação por A.I. explicando o bloqueio do Estreito de Hormuz usando referências de artes marciais, com iranianos representados como gatos antropomorfizados e Trump como um grão-mestre com cabeça de águia lançando bombas douradas caríssimas. A conta no X da Embaixada Iraniana em Haia postou uma animação gerada por A.I. retratando o monólogo interno de Trump como uma colmeia de demônios no estilo do filme Divertida Mente. E a Embaixada Iraniana na África do Sul postou um vídeo que referenciava aquele famoso TikTok da era COVID de um homem andando de longboard ao som de Fleetwood Mac — desta vez para celebrar o bombardeio iraniano a Tel Aviv.
Mas os vídeos do Explosive News podem ser o exemplo mais potente de slopaganda que o mundo já viu, mudando corações e mentes — ou pelo menos gerando uma quantidade absurda de cliques — um navio de brinquedo explodindo por vez. 💥
A Remoção das Plataformas e o Que Veio Depois
No último fim de semana, YouTube e Instagram removeram abruptamente as contas do Explosive News. O Instagram não respondeu a pedidos de comentário, mas um porta-voz do YouTube declarou que o canal foi removido por violar as políticas de spam, práticas enganosas e golpes da plataforma. O representante do Explosive News, por sua vez, atribuiu o banimento a ações de mídia de bandeira falsa por parte de atores sionistas.
Porém, os vídeos continuam acessíveis no X e em outras plataformas, e as remoções parecem ter feito pouco para frear seu alcance. O representante disse que inicialmente a equipe ficou surpresa com a notoriedade internacional, já que o conteúdo era direcionado exclusivamente a espectadores iranianos. No entanto, conforme foram entendendo melhor as preferências de uma audiência mais ampla, começaram a moldar os vídeos para esse público global.
Na semana passada, o canal do grupo no Telegram começou a postar em inglês em vez de persa, e o grupo ampliou seu nome de Explosive News para Explosive Media. Na terça-feira, publicaram um teaser no X para um novo vídeo apresentando bombas caindo sobre águias carecas em chamas e um Moisés de Lego assistindo à conflagração de uma pirâmide gravada com o rosto de Trump.
No clima geopolítico atual, talvez a slopaganda seja apenas mais um caminho para o estrelato da mídia global. Como disse o representante: Estamos sonhando mais alto. Novos formatos, vibes cinematográficas, talvez até trabalhos mais longos. Quem sabe?
O Debate Maior que Esse Caso Abriu
Depois que pesquisadores e veículos de comunicação começaram a notar o fenômeno do Explosive News, o debate em torno do caso se expandiu rapidamente para questões muito maiores do que um único canal do YouTube. A discussão central é sobre a responsabilidade das plataformas de distribuição — YouTube, Instagram, TikTok, X — em identificar e moderar conteúdo que usa inteligência artificial para produzir propaganda política disfarçada de entretenimento. Esse é um território ainda muito pouco regulado, onde as políticas das plataformas correm atrás da criatividade dos produtores de conteúdo e raramente conseguem acompanhar o ritmo.
Existe também uma conversa importante sobre o papel da A.I. generativa nesse contexto específico. As ferramentas que permitem criar vídeos e animações com qualidade visual alta estão ficando cada vez mais acessíveis, baratas e fáceis de usar. Isso é positivo para criadores independentes, artistas e pequenos produtores de conteúdo legítimo — mas cria exatamente o mesmo ambiente favorável para quem quer produzir conteúdo de propaganda e desinformação em escala. O mesmo recurso que democratiza a criação artística também democratiza a produção de narrativas enviesadas, e não existe uma linha clara separando um uso do outro.
Para o público geral, o caso serve como um lembrete valioso sobre a importância do consumo crítico de conteúdo, especialmente em tempos de conflito e tensão política. Vídeos com estética lúdica, humor ou formato de entretenimento não são automaticamente neutros ou inofensivos — na verdade, esses formatos podem ser os mais eficientes na entrega de mensagens ideológicas justamente porque parecem menos ameaçadores. Reconhecer isso não significa deixar de consumir conteúdo criativo, mas sim manter uma camada extra de atenção sobre quem está por trás do que você assiste e qual narrativa está sendo construída. 👀🧩
No fim das contas, o Explosive News deixou uma marca que vai além das visualizações e dos compartilhamentos. Ele mostrou, de forma muito concreta, que a inteligência artificial já é uma ferramenta real de poder narrativo no mundo contemporâneo — e que blocos de Lego virtuais podem ser tão politicamente carregados quanto qualquer outro formato de comunicação que a história da propaganda já produziu. 🌐
