Como um criador construiu uma IA de conteúdo que faturou US$ 50 mil em 6 semanas
Um engenheiro que começou a carreira em consultoria e acabou no mundo da creator economy criou, em apenas duas semanas, uma ferramenta de inteligência artificial focada em criadores de conteúdo. Esse produto, chamado Stanley, alcançou US$ 50.000 em receita recorrente mensal em 6 semanas e hoje faz parte de um negócio que fatura dezenas de milhões de dólares por ano.
O mais curioso é que nada disso começou em uma big tech com equipe gigante, mas com alguém que se sentiu subaproveitado, decidiu aprender a programar por conta própria e foi usando cada experiência para subir um degrau: do laboratório de processamento mineral, passando por Deloitte, eBay, até chegar à criação da plataforma Stan, voltada para criadores.
Neste artigo, vamos destrinchar essa trajetória, o conceito de vibe coding, como Stanley foi construído do zero em 14 dias e por que esse tipo de ferramenta de IA está mudando o jogo para quem vive de conteúdo.
Da engenharia química ao código: o começo de tudo
Em 2014, o fundador, Vitalii Dodonov, começou a estudar engenharia química na University of Alberta, no Canadá. Ele escolheu o curso não por paixão imediata, mas porque alguém recomendou como um bom caminho de carreira estável e com bons salários.
Durante a graduação, ele trabalhou em um laboratório de processamento mineral. Lá, via de perto pessoas executando tarefas extremamente repetitivas, manuais e cansativas. Essa rotina acendeu um alerta: não fazia sentido continuar fazendo tudo daquele jeito quando dava para automatizar boa parte do trabalho com software.
Nesse ponto, ele começou a se ensinar programação sozinho. Usou internet, vídeos, tutoriais e muita tentativa e erro. O foco inicial não era virar dev ninja da noite para o dia, mas entender como usar código para transformar processos lentos em algo mais inteligente e eficiente.
Primeira grande virada: Deloitte e o contato com dados
Quando a Deloitte apareceu no campus para recrutar, Vitalii ainda estava terminando a graduação. Ele chamou atenção não por ter diploma em computação, mas por mostrar, com histórico real, que tinha aprendido a programar por conta própria e que aplicava isso em projetos concretos.
A empresa ofereceu uma vaga de cientista de dados no começo do último ano dele na universidade, e ele entrou três meses depois de formado, em 2018. Na Deloitte, ficou claro que o verdadeiro interesse dele não era consultoria tradicional, e sim o mundo do software, do código e da construção de produtos digitais.
Em paralelo ao trabalho, ele continuou criando projetos pessoais. O principal deles foi o Vhinny, uma plataforma que agregava informações financeiras de empresas de capital aberto. Esse projeto exigiu que ele desenhasse arquitetura, banco de dados, integrações e interface, praticamente do zero. Vhinny acabou virando um laboratório prático para tudo o que viria depois.
Construindo base técnica com Vhinny
Vhinny não foi só um side project legal: foi a escola particular de engenharia de software do Vitalii. Ele acordava cedo, trabalhava no projeto das 5h às 9h, depois cumpria a rotina no emprego, e à noite voltava para o código, das 17h às 21h.
Ao longo de dois anos, ele aprendeu, na marra, conceitos que normalmente aparecem na rotina de engenheiros sênior e staff:
- como estruturar a arquitetura de um sistema completo;
- como integrar múltiplas fontes de dados;
- como escalar uma plataforma para vários usuários;
- como pensar em performance, disponibilidade e manutenção.
Tudo isso foi aprendido com Google, YouTube e muita pesquisa, trabalhando de trás para frente: começando pelo problema e, depois, descobrindo quais tecnologias eram necessárias para chegar lá.
Transição para eBay e salto em senioridade
Depois de quase dois anos na Deloitte, veio aquela sensação clássica: estar ganhando menos do que valia e estar no lugar errado para o tipo de habilidade que tinha desenvolvido. Ele sabia que o mercado ideal para seu perfil era engenharia de software, e não consultoria.
Foi aí que surgiu uma vaga de desenvolvedor no eBay. Ele se candidatou usando o recurso fácil de aplicação do LinkedIn, sem networking elaborado ou plano complexo. O desafio veio nas entrevistas técnicas, nas quais ele não foi bem nas partes mais teóricas de algoritmos e estruturas de dados.
O ponto de virada apareceu na conversa com o gestor de contratação. Em vez de tentar impressionar com respostas decoradas, Vitalii abriu a arquitetura de Vhinny e fez uma demonstração completa, mostrando como o sistema funcionava de ponta a ponta.
Ele explicou:
- como havia projetado o backend;
- como orquestrava as integrações;
- como lidava com dados em produção;
- como pensava em confiabilidade e escalabilidade.
Essa demonstração prática convenceu o time de que, mesmo sem diploma de computação, ele já operava no nível de um engenheiro sênior. Resultado: foi contratado em maio de 2020 como senior software engineer.
Nasce a ideia da Stan: criadores, link na bio e produtos digitais
Foi durante o período no eBay que Vitalii conheceu John, que mais tarde se tornaria seu cofundador. Juntos, eles começaram a desenhar o que viria a ser a Stan, uma plataforma pensada para criadores venderem produtos digitais usando um único link na bio.
A ideia era eliminar a dor de quem precisava espalhar links, formulários, checkouts e páginas soltas pela internet. Em vez disso, qualquer criador poderia concentrar tudo em uma única experiência, simplificando a jornada de venda de:
- cursos online;
- mentorias e consultorias;
- comunidades pagas;
- e-books e materiais digitais;
- treinamentos e programas contínuos.
Com o tempo, Stan se transformou em um negócio grande, chegando a dezenas de milhões de dólares em receita anual. Em junho de 2021, Vitalii decidiu sair do eBay para trabalhar em tempo integral na empresa, assumindo o papel de CTO.
De vender produtos a construir audiência
Nos primeiros anos, o foco foi consolidar a plataforma de creator commerce. Porém, à medida que a base de usuários crescia, ficou claro um ponto importante: para muitos criadores, o problema principal não era montar o produto digital, mas ter uma audiência que realmente estivesse pronta para comprar.
A missão da Stan começou a mudar levemente. Em vez de ser só um lugar para monetizar, a empresa queria ajudar os criadores a construir e crescer sua audiência, para então ter uma base sólida de compradores. Afinal, sem público aquecido, até a melhor oferta do mundo passa batido.
Foi nesse contexto que surgiu a necessidade de um produto de conteúdo mais avançado, capaz de:
- ajudar criadores a publicar com consistência;
- manter a voz e o estilo de cada pessoa;
- otimizar postagens com base em dados reais de engajamento;
- tornar o crescimento de audiência menos aleatório.
Vibe coding em Londres: 14 dias para criar o Stanley
Vitalii e John decidiram ir além de pequenas features dentro da Stan e apostar em um novo produto de IA focado em conteúdo. Para isso, adotaram um conceito conhecido como vibe coding: mergulhar totalmente na criação, sem distrações, deixando a intuição de produto e o foco em resultado guiarem o processo.
Os dois se trancaram em um flat em Londres por 14 dias. Escolheram a cidade justamente por ser um ambiente novo, fora da rotina, ajudando a enxergar o problema com outros olhos.
Nesse período intenso, Vitalii focou 100% na construção do Stanley, definido como o “head de conteúdo de IA” da Stan. A ideia era criar uma ferramenta capaz de:
- gerar posts que soassem como o próprio criador;
- focar inicialmente na plataforma LinkedIn;
- analisar o desempenho das publicações;
- ajustar o estilo com base no que funcionasse melhor.
Detalhe importante: ele não ficou abrindo mil arquivos e frameworks diferentes ao mesmo tempo. A dinâmica era praticamente ele e o cursor, testando, ajustando, integrando modelos de linguagem e refinando a experiência do produto em ciclos curtos.
O que Stanley faz na prática
Stanley nasceu como um assistente de escrita com IA, mas logo evoluiu para algo mais robusto. Em vez de apenas sugerir textos genéricos, a ferramenta:
- aprende o estilo do usuário com base em exemplos de conteúdo já existentes;
- gera novos posts alinhados com esse estilo;
- publica e acompanha métricas de engajamento;
- identifica formatos e temas que performam melhor;
- ajuda a repetir e aprimorar o que dá certo.
Com isso, Stanley deixou de ser só um gerador de posts e passou a ser um motor de performance, ajudando criadores a produzir conteúdo com potencial viral de forma consistente, sem precisar começar do zero todo dia.
Todo o processo de desenvolvimento foi documentado em vídeo e publicado no YouTube, mostrando abertamente o passo a passo da construção do produto em tempo real. Quando lançaram oficialmente, já no primeiro dia, conquistaram cerca de 250 clientes pagantes.
Do zero aos US$ 50 mil em MRR em 6 semanas
O impacto foi rápido. Em seis semanas após o lançamento, Stanley alcançou aproximadamente US$ 50.000 em receita recorrente mensal. A partir daí, o produto continuou a crescer.
Hoje, Stanley caminha para US$ 3 milhões em receita recorrente anual, divididos em duas frentes principais:
- cerca de US$ 1,5 milhão com Stanley focado em Instagram;
- cerca de US$ 1,5 milhão com Stanley focado em LinkedIn.
Já a Stan, como empresa, gira em torno de US$ 40 milhões em receita anual, somando toda a operação. Stanley se tornou uma peça-chave dentro dessa máquina.
Visão de longo prazo: um head de conteúdo de IA para todos
A visão por trás de Stanley é ampla: criar o que eles chamam de o head de conteúdo de IA do mundo. A ideia é que qualquer pessoa excelente no que faz, mas com pouca presença digital, consiga ter sua voz amplificada sem precisar virar influenciador em tempo integral.
A lógica é simples:
- construir presença online relevante virou quase obrigatório em várias áreas;
- fazer isso bem exige tempo, habilidade de comunicação e estratégia;
- muita gente não tem tempo ou não gosta da parte operacional de criar conteúdo;
- uma IA bem treinada pode assumir boa parte desse trabalho de bastidor.
Com um sistema assim, o profissional consegue focar no que faz de melhor — ensinar, construir, atender, pesquisar — enquanto o head de conteúdo de IA cuida da parte pesada de transformar ideias e experiências em posts, threads, newsletters e campanhas consistentes.
O que é preciso para vibe codar de forma eficiente
Na visão do próprio Vitalii, não é obrigatório ter anos de experiência para começar a vibe codar. O que pesa mais é a mentalidade:
- entender profundamente o problema que quer resolver;
- focar em entregar valor real para muitas pessoas;
- não confundir código com objetivo final: ele é só o meio;
- trabalhar de trás para frente, partindo de uma meta clara.
Ele sugere uma abordagem bem direta: definir um objetivo concreto, como construir um negócio de US$ 10 milhões, ter liberdade de sair do emprego tradicional ou criar segurança financeira para a família. A partir disso, fazer a pergunta chave: o que eu preciso construir para chegar lá?
Vivemos em um momento em que modelos de IA e agentes inteligentes dão a indivíduos um poder que antes exigiria equipes inteiras. A barreira passou a ser menos sobre acesso a tecnologia e mais sobre disposição para aprender, experimentar e seguir iterando até o produto encaixar com uma dor real do mercado.
Planos pessoais e futuro fora do corporativo
Com todo esse contexto, a ambição do Vitalii hoje é construir uma empresa geracional, daquelas que continuam relevantes por décadas e viram parte da infraestrutura do mundo em 30 ou 40 anos.
Ele trabalha em diferentes frentes para se posicionar nesse caminho e, olhando para trás, considera pouco provável voltar ao mundo corporativo tradicional. A sensação é de que encontrou o espaço ideal para conectar tecnologia, produto, IA e o universo dos criadores de conteúdo em algo com impacto grande e de longo prazo.
Mais do que uma história de sucesso rápido com IA, o caso de Stanley mostra como combinar:
- aprendizado autodidata;
- imersão total em problemas reais;
- uso inteligente de modelos de linguagem;
- e foco na economia de criadores;
pode gerar produtos que não só faturam alto, mas também ajudam milhares de pessoas a viver do próprio trabalho com mais autonomia, presença digital e consistência.
