Meme do Devil Wears Prada 2 que parecia IA foi pintado à mão por uma artista humana
O Devil Wears Prada 2 chegou aos cinemas com toda a força que a gente esperava. O retorno de Meryl Streep ao papel icônico de Miranda Priestley dominou as bilheterias no fim de semana de estreia, arrecadando 77 milhões de dólares e provando que a franquia ainda tem muito fôlego depois de quase 20 anos. O hype em torno do filme foi enorme, com fãs revisitando o original, criando conteúdo nas redes sociais e discutindo cada detalhe do elenco e da produção antes mesmo de o filme entrar em cartaz. A sequência da revista fictícia Runway claramente não veio para decepcionar, e a recepção do público confirmou isso logo de cara.
Mas, no meio de toda essa euforia, um detalhe pequeno e rápido na tela chamou mais atenção do que qualquer cena dramática do filme.
Um meme de poucos segundos, mostrando Miranda Priestley como funcionária de fast-food com a frase Would you like some lies with that?, deixou o público dividido entre gargalhadas e uma dúvida genuína: isso foi feito por IA ou por um ser humano de verdade? A cena faz parte de uma sequência do filme que exibe vários memes da internet satirizando a editora-chefe Miranda Priestley, num contexto que reflete a satirização do estado atual da mídia digital. A imagem aparece de forma quase discreta dentro da narrativa, mas teve um impacto desproporcional nas discussões online. Nos dias seguintes à estreia, os fóruns, os comentários no X e os vídeos de reação no YouTube estavam cheios de gente debatendo exatamente esse ponto, enquanto o filme em si quase ficava em segundo plano nesses espaços.
A pergunta faz todo sentido hoje em dia. Com a geração de imagens por inteligência artificial cada vez mais sofisticada, ficou difícil confiar no que os olhos veem, e o visual meio plástico e artificial do meme acendeu o alerta em muita gente nas redes sociais. A textura da pele, a iluminação ligeiramente estranha, o texto borrado no menu ao fundo — tudo isso são características que associamos cada vez mais a imagens geradas por ferramentas como Midjourney, DALL-E ou Stable Diffusion. Texto ilegível, aliás, tem sido uma das marcas registradas da IA generativa, já que os modelos historicamente têm dificuldade em replicar detalhes pequenos como letras e palavras. E quando você vê algo assim numa produção de grande orçamento de Hollywood, a suspeita é quase automática.
Só que a resposta surpreendeu todo mundo, e de um jeito muito positivo. 🎨
O meme foi pintado à mão por Alexis Franklin
A imagem foi criada por Alexis Franklin, uma artista e ilustradora profissional que trabalha na área há quase uma década. Franklin foi contratada diretamente pelo diretor David Frankel para produzir a pintura digital que aparece no filme. Ela usou técnicas tradicionais de pintura digital, construindo a imagem camada por camada, com pincéis virtuais, ajustes de cor e composição totalmente manuais. Nenhuma ferramenta de IA generativa foi utilizada em qualquer etapa do processo.
Franklin se pronunciou publicamente depois que a polêmica tomou conta das redes. Em um post no Instagram, ela explicou o processo criativo por trás da imagem e compartilhou um time-lapse mostrando a pintura sendo construída do zero. O vídeo deixa claro cada etapa do trabalho, desde os primeiros esboços até os toques finais de iluminação e textura.
Em suas palavras, ela não quis faltar com respeito à rainha Meryl, mas que aquele tipo de pintura era exatamente o que ela faria no tempo livre, então quando receberam o pedido, foi pura diversão. A transparência foi muito bem recebida, e o post acumulou centenas de comentários elogiando tanto o trabalho dela quanto a decisão do filme de contratar uma artista humana para a tarefa.
Em entrevista à NBC News, Franklin revelou que a pintura digital levou alguns dias de trabalho intermitente para ser concluída e que ela foi compensada de forma justa pelo serviço. Ela explicou por e-mail que estava buscando um visual barato e plástico que lembrasse a estética dos memes photoshopados dos anos 2010. Ou seja, a intenção nunca foi imitar IA — era replicar aquela vibe de meme caseiro que todo mundo que viveu a internet naquela época reconhece na hora.
A artista não estava tentando imitar IA
Esse é um ponto importante que merece destaque. O visual que tantas pessoas interpretaram como geração artificial era, na verdade, uma escolha estética consciente com referências bem diferentes. Franklin deixou isso bem claro quando questionada sobre detalhes específicos como o texto borrado do menu, algo que muitos apontaram como prova de que seria conteúdo de IA.
Segundo ela, tecnicamente estava tentando fazer a imagem parecer artificial, mas emular IA não estava na cabeça dela enquanto pintava. Franklin comentou que sente como se o poder da sugestão tivesse tomado conta da situação. Pessoas apontaram micro-erros humanos comuns na peça e afirmaram que ela fez isso de propósito para pregar a estética de slop de IA, o que ela considera divertido.
Essa observação é particularmente reveladora. Mostra como o nosso olhar coletivo já foi tão contaminado pela presença constante de imagens geradas por máquina que qualquer imperfeição visual agora é automaticamente atribuída à inteligência artificial, mesmo quando é simplesmente o resultado natural do trabalho humano. Erros que antes seriam lidos como charme artístico ou estilo pessoal passaram a ser vistos como falhas algorítmicas. É uma mudança de paradigma na forma como consumimos e julgamos conteúdo visual. 😅
Mesmo com provas, alguns ainda duvidam
Talvez o aspecto mais frustrante dessa história para Franklin seja o fato de que, mesmo depois de compartilhar o time-lapse completo do processo e ter um portfólio público de trabalhos que antecede em anos a popularização da IA generativa, algumas pessoas continuam acusando-a de ter fabricado tudo. Ela relatou ter recebido acusações diretas de que a pintura de Priestley seria falsa, apesar de todas as evidências em contrário.
Para uma ilustradora profissional com quase dez anos de carreira, esse tipo de ceticismo vai além do incômodo pessoal. Ele representa um problema estrutural que está afetando artistas ao redor do mundo. Quando o padrão de prova exigido para demonstrar que um trabalho é humano se torna praticamente impossível de atingir, algo está fundamentalmente errado na forma como a sociedade está lidando com a questão da autoria criativa.
Por que essa confusão acontece cada vez mais
A dificuldade de distinguir conteúdo criado por humanos de conteúdo gerado por IA não é fraqueza de percepção das pessoas. É um reflexo direto de como as ferramentas evoluíram de forma assustadoramente rápida nos últimos dois ou três anos. Modelos de geração de imagem como o Midjourney já estão em versões avançadas, com resultados que rivalizam com fotografias profissionais em muitos contextos. E isso sem falar nas ferramentas de edição assistida por IA que qualquer pessoa pode usar hoje, mesmo sem nenhum conhecimento técnico.
O problema é que essa evolução criou um efeito colateral bastante sério: a desconfiança generalizada. Especialistas em mídia têm alertado sobre esse fenômeno crescente. Conforme a tecnologia de IA generativa fica mais sofisticada, as pessoas não apenas ficam mais propensas a acreditar que imagens geradas por IA são reais, mas também ficam mais propensas a acreditar que imagens reais são IA. É um colapso de confiança que vai nas duas direções.
Franklin refletiu sobre esse cenário em seus comentários à NBC News. Segundo ela, essa hipervigilância em massa prevalece porque as pessoas não querem ser enganadas, o que as leva a enxergar sinais nas paredes que não estão realmente lá, ou que têm explicações muito simples e razoáveis. E ela admite que é difícil saber qual seria a solução para esse problema.
Quando artistas humanos que trabalham com estilos mais experimentais, surreais ou deliberadamente artificiais passam a ter seu trabalho questionado de forma injusta, estamos diante de uma inversão curiosa. Durante décadas, artistas digitais precisaram provar que seu trabalho tinha valor mesmo sem tinta ou pincel. Agora precisam provar que seu trabalho tem valor porque não foi feito por uma máquina. O ciclo de legitimação parece não ter fim.
Uma questão que vai além da técnica
O que torna essa história ainda mais significativa é o contexto em que ela acontece. Estamos num momento em que a indústria criativa está literalmente em guerra sobre o uso de IA na produção de conteúdo, especialmente em Hollywood. Quando um meme numa produção de grande estúdio parece IA e não é, isso vira um símbolo de algo muito maior do que uma piada sobre hambúrguer e mentira.
Franklin demonstrou empatia com o ceticismo do público, especialmente quando ele vem de um lugar genuíno de querer apoiar artistas humanos. Mas ela também alertou que esse mesmo ceticismo, quando descontrolado, tem o potencial de prejudicar exatamente os artistas que as pessoas estão tentando proteger.
A reflexão final dela é talvez a mais poderosa de toda essa discussão. Franklin escreveu que a IA é tão prevalente hoje que as pessoas parecem ter esquecido como ela ficou tão boa — ela estudou a gente. As técnicas que a IA usa são nossas. É um lembrete direto de que toda a capacidade das ferramentas de geração de imagem existe porque elas foram treinadas a partir do trabalho de artistas humanos reais, e que confundir a cópia com o original é não apenas injusto, mas representa um apagamento da própria fonte que alimenta essa tecnologia.
O que isso diz sobre o público atual
Tem algo muito revelador na velocidade com que o público foi para as redes questionar a autoria do meme. Isso mostra que a geração que consome conteúdo hoje está genuinamente atenta à questão da autoria e da autenticidade de uma forma que provavelmente não existia cinco anos atrás. As pessoas não estavam apenas assistindo ao filme e seguindo em frente. Elas estavam pausando, analisando, discutindo e procurando respostas sobre como aquele conteúdo específico foi feito. Isso é, em certo sentido, uma forma sofisticada de letramento visual que está se desenvolvendo de forma orgânica e coletiva.
Por outro lado, também revela uma ansiedade crescente em relação à IA que vai muito além de debates técnicos. Quando as pessoas veem uma imagem e a primeira pergunta é se foi feita por IA, há um elemento emocional envolvido — uma preocupação real com o que significa para o trabalho humano, para a criatividade humana e para a confiança que depositamos no que vemos.
Um dos comentários no post de Franklin no Instagram resume bem o sentimento coletivo: alguém escreveu que era muito refrescante saber que não era IA. Outro comentário brincou com a situação invertendo a narrativa ao dizer que em vez de IA substituindo artistas, ali eram artistas substituindo a IA. São reações que mostram como o público está torcendo ativamente para que o trabalho humano continue tendo espaço e relevância no cenário criativo. 🙂
Independente da interpretação, o episódio jogou luz numa conversa que a indústria do entretenimento vai precisar ter de forma cada vez mais explícita com o público. A transparência que Alexis Franklin demonstrou ao revelar seu processo foi recebida como algo refrescante exatamente porque é rara. Produções grandes raramente explicam como o conteúdo visual é feito, e numa era em que a suspeita de uso de IA pode manchar a reputação de um projeto inteiro, essa abertura começa a fazer todo o sentido. 🎬
No final das contas, o meme que parecia IA e não era acabou dizendo mais sobre o nosso momento cultural do que qualquer análise aprofundada do roteiro do filme. É o que acontece quando um detalhe pequeno toca em algo que todo mundo está sentindo mas nem sempre sabe nomear: a tensão entre criatividade humana e automação está em todo lugar, até nos poucos segundos de um meme que aparece e desaparece da tela antes de a gente ter tempo de processar o que viu.
