Seth Rogen dispara em Cannes: quem usa IA para escrever roteiros não deveria ser escritor
A inteligência artificial virou assunto obrigatório em qualquer conversa sobre o futuro criativo, e o Festival de Cannes 2025 não ficou de fora dessa.
Foi justamente nesse palco que Seth Rogen, o roteirista e produtor por trás da série The Studio, decidiu ser bem direto sobre o que pensa da IA no processo de criação de roteiros. Em entrevista ao canal Brut, publicada na quinta-feira durante o festival, ele deixou uma frase que rapidamente tomou conta das redes sociais: quem usa IA para escrever roteiros, na visão dele, simplesmente não deveria ser escritor.
Polêmico? Talvez. Mas a declaração toca em algo que vai muito além de uma opinião pessoal e levanta questões reais sobre criatividade, identidade profissional e os limites da automação dentro da indústria do entretenimento. 🎬
O que Seth Rogen disse exatamente em Cannes
Durante sua participação no Festival de Cannes 2025, Seth Rogen não poupou palavras. Na entrevista ao Brut, ele afirmou que utilizar inteligência artificial para escrever um roteiro é, no fundo, uma contradição em termos. Para ele, a escrita criativa existe justamente porque há um ser humano do outro lado, com experiências reais, falhas reais e uma visão de mundo que nenhum algoritmo consegue replicar de verdade.
A frase que viralizou foi direta ao ponto: se o seu instinto é usar IA e não passar pelo processo de criação, você não deveria ser escritor, porque então você não está escrevendo.
Rogen também não escondeu o que pensa sobre os resultados gerados por ferramentas de IA que circulam na internet. Ele disse que toda vez que vê um vídeo no Instagram com a legenda de que Hollywood está acabada, o que segue é, nas palavras dele, a coisa mais estúpida que ele já viu na vida. Essa observação, apesar do tom irreverente, carrega um ponto importante: a qualidade do conteúdo gerado por IA ainda está longe de substituir a profundidade e a nuance que um roteirista humano é capaz de entregar.
Mas o vencedor de quatro prêmios Emmy foi além da crítica. Ele explicou que jamais gostaria de encontrar um atalho para o processo de escrita, simplesmente porque gosta de escrever. Para ele, a ideia de uma ferramenta que faz com que ele escreva menos não tem nenhum apelo. É o processo em si, com todas as suas dificuldades e frustrações, que dá sentido ao resultado final. E se alguém não quer passar por esse processo, deveria considerar outra profissão.
O contexto importa aqui. Seth Rogen não é apenas um nome famoso do cinema, ele é alguém que passou décadas refinando a arte do roteiro, da comédia e da narrativa dentro de um sistema extremamente competitivo. Filmes como Superbad, Pineapple Express e agora a série The Studio mostram uma trajetória de alguém que entende profundamente o que significa desenvolver uma voz criativa autêntica. Quando ele fala sobre o tema, não está falando de um lugar de desconhecimento tecnológico, mas de uma posição bem fundamentada sobre o que faz a escrita ter valor real para o público.
E o timing dessa declaração não poderia ser mais relevante. Cannes 2025 aconteceu em um momento em que a indústria do entretenimento ainda digere as consequências das greves de roteiristas e atores de 2023, que tiveram a IA como um dos principais pontos de tensão nas negociações. Trazer esse debate de volta para o centro do festival mais prestigioso do cinema mundial foi, no mínimo, uma jogada necessária. 💡
A IA já está mudando as regras do jogo em Hollywood
A fala de Seth Rogen não aconteceu no vácuo. A inteligência artificial já começou a transformar a indústria do entretenimento de formas bem concretas, e as respostas institucionais estão se intensificando.
Um exemplo recente e bastante significativo vem da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar. A instituição anunciou atualizações em suas regras e regulamentos que incluem restrições mais rígidas ao uso de IA, especialmente no que diz respeito a performances de atuação elegíveis para indicações ao prêmio. Esse movimento mostra que a preocupação com a inteligência artificial não é apenas papo de corredor em eventos de tecnologia, ela já está moldando as políticas das organizações mais tradicionais e influentes do cinema mundial.
Essas mudanças regulatórias sinalizam que a indústria está tentando encontrar um equilíbrio entre abraçar novas tecnologias e proteger a integridade do trabalho humano. A questão é se essas regras conseguirão acompanhar a velocidade com que as ferramentas de IA evoluem e se infiltram em cada etapa da cadeia produtiva do audiovisual, desde a concepção de roteiros até a pós-produção e os efeitos visuais.
Por que esse debate vai muito além de uma opinião pessoal
A fala de Seth Rogen em Cannes reacendeu uma discussão que a indústria do entretenimento ainda não conseguiu resolver: onde exatamente a inteligência artificial se encaixa no processo criativo sem substituir o que é genuinamente humano? A questão não é simples, e seria desonesto tratá-la como tal. Existem usos da IA que a maioria dos profissionais aceita sem muita resistência, como a revisão gramatical automatizada, a organização de estruturas narrativas e até a geração de ideias iniciais para brainstorming. Mas quando a IA passa a ser responsável pela voz do personagem, pelo arco emocional da história ou pela identidade narrativa de uma obra, aí o debate fica realmente complicado.
O argumento central de Rogen vai além do medo de perder emprego, que também é legítimo e merece atenção. O ponto mais profundo é sobre o que um roteiro representa enquanto produto cultural. Um roteiro carrega a perspectiva de quem o escreve, os erros que essa pessoa já cometeu, as histórias que viveu, as piadas que só fazem sentido para quem cresceu em determinado contexto. Uma IA treinada em dados pode imitar padrões, pode reconhecer estruturas dramáticas, pode até gerar diálogos que soam naturais, mas ela não tem uma infância, não perdeu ninguém, não se apaixonou, não falhou de um jeito que mudou sua visão de mundo. Essa diferença parece filosófica à primeira vista, mas ela tem consequências práticas muito concretas na qualidade e na ressonância emocional de uma obra.
Além disso, há uma dimensão econômica e trabalhista que não pode ser ignorada quando se fala nesse tema dentro do contexto de Cannes e da indústria do entretenimento global. Os estúdios que investem em ferramentas de IA para geração de conteúdo estão, em muitos casos, reduzindo o número de roteiristas contratados, diminuindo os ciclos de desenvolvimento criativo e pressionando os profissionais que ainda estão no mercado a produzir mais em menos tempo. O resultado disso na prática é uma homogeneização do conteúdo, onde as histórias passam a se parecer cada vez mais umas com as outras porque partem de bases de dados similares e de modelos treinados nos mesmos padrões narrativos consagrados. 📉
IA como ferramenta versus IA como substituta
É importante fazer uma distinção que muitas vezes se perde no calor do debate: usar inteligência artificial como ferramenta de apoio é completamente diferente de delegar a ela a autoria de um roteiro. Profissionais de escrita criativa já utilizam há anos softwares de estruturação narrativa, bancos de dados de referências cinematográficas e até algoritmos de análise de audiência para entender melhor como suas histórias estão funcionando. Isso não elimina a criatividade humana, pelo contrário, potencializa o tempo que o roteirista tem para se dedicar ao que realmente importa: a construção emocional e intelectual da obra.
O problema começa quando a IA passa de co-piloto para piloto principal. E essa transição está acontecendo de forma silenciosa em vários segmentos da indústria do entretenimento, especialmente em produções de menor orçamento, em conteúdo para streaming de nicho e em projetos de publicidade e entretenimento digital. Nesses casos, o uso da IA para geração de roteiros não é experimental, já é uma realidade operacional. Seth Rogen, ao fazer sua declaração em Cannes, colocou luz em algo que muita gente prefere não discutir abertamente porque envolve interesses financeiros muito grandes de ambos os lados da equação.
Ao mesmo tempo, seria ingênuo ignorar que a inteligência artificial trouxe possibilidades genuínas para criadores independentes que antes não tinham acesso aos recursos necessários para desenvolver suas ideias. Um roteirista iniciante sem orçamento para contratar consultores ou sem acesso a uma rede de feedback qualificada pode usar ferramentas de IA para iterar mais rapidamente sobre suas ideias, identificar inconsistências narrativas e experimentar diferentes abordagens para uma mesma cena. Nesse contexto, a IA funciona como um recurso democratizante, e isso tem um valor real que não pode ser descartado apenas porque o debate em torno do tema é acalorado. O que está em jogo, no final das contas, é definir coletivamente quais são os limites razoáveis para esse uso dentro de contextos profissionais onde a autoria e a originalidade importam. 🤖✍️
Seth Rogen em Cannes também por outro motivo
Vale lembrar que a passagem de Seth Rogen pelo Festival de Cannes 2025 não se resumiu apenas às declarações sobre inteligência artificial. O ator e produtor esteve no festival para apoiar Tangles, o mais recente longa-metragem de animação dirigido por Leah Nelson. O filme conta com um elenco de vozes impressionante, incluindo Julia Louis-Dreyfus, Abbi Jacobson, Bryan Cranston, Sarah Silverman, Bowen Yang, Wanda Sykes, Beanie Feldstein e Samira Wiley. Rogen atua como produtor do projeto.
O fato de ele estar em Cannes representando uma animação, um formato onde a IA também tem avançado de forma significativa em termos de geração de imagens e movimentos, torna suas declarações ainda mais pertinentes. Ele não está apenas defendendo a escrita humana de forma genérica, está inserido ativamente em um projeto que depende de talento humano em múltiplas camadas, desde o roteiro até as performances vocais e a direção artística.
O que Cannes representa nessa conversa
O Festival de Cannes não é apenas um evento de premiação cinematográfica, ele é um termômetro cultural que define tendências e posicionamentos que reverberam pela indústria do entretenimento durante meses depois que as câmeras se apagam. Quando um profissional do calibre de Seth Rogen usa esse espaço para fazer uma declaração tão direta sobre inteligência artificial e roteiros, o impacto vai muito além do viral nas redes sociais. Ele sinaliza que existe uma parcela significativa de profissionais criativos que não está disposta a aceitar passivamente a narrativa de que a IA é inevitável e que resistir a ela é sinal de ignorância tecnológica.
Cannes 2025 já havia dado sinais de que o tema seria central na edição deste ano, com painéis dedicados ao impacto da automação no cinema, mesas redondas sobre direitos autorais em conteúdo gerado por IA e discussões sobre como os festivais deveriam ou não aceitar obras criadas majoritariamente por sistemas automatizados. A fala de Rogen entrou nesse contexto não como um raio em céu azul, mas como a voz mais alta de uma conversa que já estava acontecendo em vários outros formatos ao longo do festival. E essa voz ganhou alcance justamente porque veio acompanhada da credibilidade de alguém que construiu uma carreira sólida escrevendo histórias que conectaram de verdade com milhões de pessoas ao redor do mundo.
O que Cannes mostrou nessa edição é que o debate sobre IA e criatividade chegou em um nível de maturidade onde as posições estão mais definidas e onde os profissionais do setor estão menos dispostos a ficar em cima do muro. De um lado, há quem veja a tecnologia como aliada inevitável e necessária para a sustentabilidade econômica das produções. Do outro, há quem, como Seth Rogen, defenda que certos processos criativos perdem seu sentido mais fundamental quando delegados a máquinas. Entre esses dois polos, a indústria do entretenimento vai precisar encontrar um caminho que respeite tanto a inovação quanto a integridade do trabalho criativo humano. E essa conversa, claramente, ainda está longe de terminar. 🎥
