As startups de Israel estão no centro de um dos ecossistemas de tecnologia mais dinâmicos do mundo, e agora enfrentam um desafio bem específico: continuar crescendo em um cenário econômico complicado. A resposta que muitas delas encontraram atende pelo nome de talentos offshore.
Com mais de 400 mil israelenses trabalhando no setor de alta tecnologia — o equivalente a 11% de toda a força de trabalho do país — fica claro que esse segmento não é apenas relevante: ele é o principal motor da economia israelense. Segundo estimativas da autoridade responsável pelo setor, esse número reforça o peso da tecnologia na estrutura econômica de Israel. E para manter esse ritmo acelerado de crescimento, muitas empresas estão recorrendo a uma estratégia que vai além das fronteiras: a contratação de profissionais fora do país. 👀
Mas atenção: essa movimentação não é motivada apenas por redução de custos. A história é bem mais interessante do que isso, como explicou Ami Goren, gerente da divisão Israel Offshore da ONE Offshore, em entrevista ao The Jerusalem Post.
O que está por trás da contratação offshore
De acordo com Goren, uma das principais preocupações das startups em suas fases iniciais é montar uma equipe forte. E embora a inteligência artificial ajude a melhorar o que cada funcionário consegue fazer individualmente, muitas empresas ainda precisam contratar pessoas rápido e ter certeza de que elas são capazes de entregar resultados.
Goren trabalha na divisão offshore do One Technologies Group, que se especializa em conectar equipes talentosas no exterior com empresas locais que querem expandir sua força de trabalho. A ONE Offshore oferece a empresas de alta tecnologia e startups soluções para estabelecer e ampliar times de desenvolvimento no Leste Europeu.
E aqui está o ponto interessante: embora reduzir custos seja uma das razões para adotar esse serviço, Goren deixou claro que a maioria das empresas busca a terceirização para expandir suas equipes, e não simplesmente para economizar.
Por exemplo, muitas empresas contratam pessoas fora de Israel para continuar trabalhando até nas sextas-feiras, algo que a maioria dos israelenses não faria. É claro que preços mais baixos são um motivo, mas não é o principal motivo pelo qual as empresas nos procuram, afirmou Goren.
Esse detalhe sobre as sextas-feiras diz muito sobre o motivo real da contratação offshore: manter a operação rodando de forma contínua. Um time distribuído entre diferentes regiões consegue manter o ciclo de desenvolvimento ativo por mais horas e mais dias, acelerando lançamentos e respondendo mais rápido ao mercado. 🚀
Uma solução para a valorização do shekel?
Um dos maiores problemas enfrentados pelas startups israelenses hoje é o shekel forte. A valorização da moeda local frente ao dólar causou problemas de liquidez para muitas empresas que mantêm seus fundos em moeda estrangeira.
A situação ficou crítica nos últimos meses. Em abril, o dólar caiu abaixo de 3 shekels pela primeira vez em 30 anos, e essa queda continuou em maio e junho. Para empresas que têm financiamento ou receita em dólares, isso foi um golpe direto no caixa.
Os efeitos práticos apareceram rápido. A gigante israelense de tecnologia Wix anunciou em maio que demitiria 20% de sua força de trabalho em Israel, citando a taxa de câmbio dólar-shekel como um dos fatores. Já a Elementor, plataforma open-source de criação de sites instalada em cerca de 13% dos sites do mundo inteiro, anunciou em junho a redução de 30% de suas operações.
Nesse contexto, o modelo offshore aparece como um alívio. Ao pagar salários na mesma moeda em que a empresa recebe seu financiamento — o dólar —, as startups conseguem estabilizar parte dos custos e ganhar previsibilidade. Mas Goren faz questão de ressaltar que isso não é uma solução permanente.
Mesmo que sejam pagos em dólares, a moeda americana está se desvalorizando no mundo todo. Então os funcionários terceirizados também acabariam pedindo salários maiores em dólares, porque é um problema que afeta eles também, explicou.
Ou seja, a terceirização funciona como uma medida temporária que suaviza o impacto do câmbio, mas não elimina a raiz do problema, já que a desvalorização do dólar é um fenômeno global.
Mantendo a cultura de trabalho israelense
Outro tema abordado por Goren na entrevista foi a possibilidade de as empresas deixarem de depender exclusivamente de funcionários israelenses — algo que, curiosamente, costuma ser um argumento de venda para muitas empresas do país. E aqui a postura dele foi bastante honesta e direta.
Se você tem israelenses fortes e consegue acessar mais para contratar, continue contratando. É isso que eu digo para quem quer terceirizar. Nós oferecemos a possibilidade de conseguir funcionários rápido, quando isso é necessário para continuar trabalhando, disse Goren.
Ele também destacou o perfil dos profissionais que a empresa costuma recrutar no Leste Europeu, especialmente em países como Polônia, Ucrânia e Moldávia. Segundo Goren, esses profissionais têm uma ética de trabalho parecida com a dos israelenses e se adaptam muito rápido à cultura de trabalho local.
As pessoas nesses países sabem improvisar, sabem se adaptar. Sabem ser dedicadas ao trabalho. Esses aspectos de personalidade são mais próximos dos israelenses do que dos de outras nações, concluiu.
Essa proximidade cultural não é um detalhe qualquer. Montar um time distribuído funciona muito melhor quando as pessoas compartilham valores parecidos sobre prazos, comprometimento e capacidade de resolver problemas na hora. É justamente essa sintonia que faz a diferença entre uma terceirização que dá certo e uma que gera atrito o tempo todo. 💡
Como funciona o modelo na prática
Sobre a operação da empresa, Goren explicou que a ONE Offshore cuida de toda a conexão e do processo de contratação. Do lado do cliente, a única exigência é fornecer uma descrição detalhada da vaga que está buscando. Simples assim — a burocracia e a logística ficam por conta da divisão.
Segundo comunicado da própria empresa, a divisão opera por meio de centros internacionais de P&D e oferece acesso a centenas de desenvolvedores e especialistas em tecnologia. As áreas cobertas incluem:
- Desenvolvimento de software
- Inteligência artificial
- DevOps
- QA (garantia de qualidade)
- Data (dados)
- Cloud (computação em nuvem)
- Integração
Esse leque de especialidades mostra que o modelo offshore não se limita mais a tarefas simples ou repetitivas. Estamos falando de acesso a profissionais capazes de atuar em frentes técnicas complexas, exatamente as áreas que impulsionam o crescimento das startups de tecnologia hoje.
Por que Israel virou referência global em tech
Não é por acaso que Israel carrega o apelido de Startup Nation. O país acumula décadas de investimento em educação de alta qualidade e uma cultura que valoriza muito a resolução de problemas. Grandes empresas nasceram lá, e o pipeline de novas startups não dá sinais de desaceleração — muito pelo contrário.
O que chama a atenção agora, porém, é a forma como esse ecossistema está evoluindo para além das fronteiras físicas do país. Com o mercado local de talentos cada vez mais disputado e os salários do setor entre os mais altos do mundo, as startups israelenses precisaram ampliar o horizonte na hora de montar seus times. E foi nesse contexto que o modelo de contratação offshore ganhou força de verdade.
O que esse movimento significa para o mercado global de tech
A combinação entre startups israelenses agressivas, talentos offshore qualificados e ferramentas de inteligência artificial cada vez mais acessíveis está desenhando um novo mapa para o mercado global de tecnologia. Fronteiras físicas importam cada vez menos quando o assunto é montar um time competitivo. O que importa é encontrar as pessoas certas, com as habilidades certas, e dar a elas as ferramentas necessárias para trabalhar bem — independentemente de onde estejam.
Para os profissionais de tech ao redor do mundo, esse cenário representa uma oportunidade concreta de trabalhar com empresas que estão na fronteira da inovação. As startups de Israel têm reputação de exigir muito, mas também de oferecer um ambiente de aprendizado acelerado. Quem entra nesse ecossistema, mesmo de forma remota como talento offshore, tem contato com projetos desafiadores e com uma cultura de execução difícil de encontrar em outros lugares.
A mensagem que vem de Israel é clara: crescer rápido ainda depende de pessoas. A inteligência artificial é uma aliada poderosa, mas ela amplifica o talento humano — não o substitui. E as startups que entenderem isso mais cedo, montando times globais e distribuídos com profissionais que sabem usar IA como ferramenta de produtividade, são exatamente as que vão liderar o próximo ciclo de inovação. 🤖
