A disputa entre startups descentralizadas e Big Techs pela IA do futuro
Startups descentralizadas estão se posicionando de forma cada vez mais agressiva contra as gigantes de tecnologia, e a estratégia que sustenta esse movimento envolve uma combinação bastante ousada de Inteligência Artificial e blockchain. O objetivo central é redesenhar, do zero, a forma como pensamos e construímos infraestruturas para a chamada inteligência artificial geral. Não se trata apenas de competir em funcionalidades ou preço, mas de propor uma arquitetura completamente diferente daquela que domina o mercado hoje, controlada por um punhado de corporações com recursos praticamente ilimitados.
Ben Goertzel, CEO da ASI Alliance e da SingularityNET, tem sido uma das vozes mais ativas nesse debate. Ele destaca que, para blockchains alcançarem a escala necessária, será preciso superar obstáculos técnicos profundos ligados à descentralização, escalabilidade e segurança. Goertzel também reforça que a IA descentralizada precisa encontrar formas concretas de competir com as grandes corporações que dominam o setor atualmente.
O alerta que acendeu a luz amarela nessa discussão veio de um lugar que poucas pessoas esperariam. A Stripe, uma das maiores plataformas de serviços financeiros do planeta, publicou sua carta anual em fevereiro de 2026, assinada pelos cofundadores Patrick e John Collison. Nela, os dois reconheceram de forma bastante direta que a infraestrutura atual de blockchain não está preparada para suportar o que está por vir. O foco do alerta são as limitações técnicas que impedem o funcionamento pleno do comércio agêntico em larga escala — aquele modelo em que agentes de Inteligência Artificial descobrem oportunidades, tomam decisões e executam transações de forma completamente autônoma, sem nenhuma intervenção humana no processo.
A analogia que os Collison trouxeram na carta é especialmente útil para entender a dimensão do problema. Segundo eles, o momento atual do blockchain se parece muito com a internet nos anos 90 — uma tecnologia cheia de potencial, mas ainda limitada por gargalos de engenharia que precisam ser resolvidos antes que o uso em massa se torne viável. As barreiras não são conceituais ou teóricas. São desafios práticos de escalabilidade e previsibilidade de custos que, se não forem endereçados, podem frear todo o avanço prometido pelo comércio agêntico e pela inteligência artificial descentralizada. Os fundadores da Stripe classificam essas limitações não como impedimentos definitivos, mas como desafios de engenharia que precisam ser solucionados antes que a economia consiga avançar para o chamado Nível 5 de comércio totalmente autônomo.
O desafio de escalar para bilhões de transações por segundo
Para colocar em perspectiva o tamanho do problema, estamos falando de uma infraestrutura que precisa ser capaz de processar algo entre 1 milhão e 1 bilhão de transações por segundo 🤯. Esse número não é exagero retórico. No relatório da Stripe, os fundadores identificaram dois gargalos técnicos principais que impedem as blockchains de servirem como trilhos para o comércio agêntico: a previsibilidade de custos e a capacidade de processamento de transações.
Quando milhões de agentes de IA passam a operar de forma simultânea em redes descentralizadas, negociando recursos, comprando serviços e fechando contratos entre si, o volume de operações explode de uma maneira que nenhuma blockchain existente consegue absorver sem comprometer velocidade, custo ou segurança. É um tipo de demanda que simplesmente não existia há poucos anos e que agora se apresenta como o maior gargalo técnico do setor.
As redes de blockchain mais populares da atualidade, mesmo aquelas consideradas de alta performance, ainda operam em faixas de milhares ou, no máximo, dezenas de milhares de transações por segundo. A distância entre essa capacidade e o que o comércio agêntico exige é enorme. Resolver essa equação não é apenas uma questão de aumentar a capacidade bruta de processamento. Envolve repensar protocolos de consenso, redesenhar camadas de comunicação entre nós da rede, otimizar o armazenamento de dados on-chain e criar mecanismos de precificação de taxas que sejam previsíveis o suficiente para que agentes de Inteligência Artificial possam planejar suas operações sem surpresas desagradáveis no meio do caminho.
A própria Stripe está apostando pesado nessa transição. A empresa adquiriu recentemente a Bridge, uma plataforma de stablecoins, e lançou o Agentic Commerce Suite. Essas movimentações foram pensadas para ajudar empresas a se prepararem para essa mudança enquanto a tecnologia blockchain amadurece por baixo dos panos.
E é exatamente nesse ponto que o argumento das startups descentralizadas ganha força. A tese defendida por esses projetos é que tentar resolver o problema de escalabilidade dentro de arquiteturas monolíticas e centralizadas é uma abordagem fadada a encontrar limites cada vez mais difíceis de superar. Em vez de construir um único sistema gigantesco controlado por uma empresa, a proposta é criar ecossistemas compostos por múltiplas redes interconectadas, cada uma otimizada para um tipo específico de tarefa, funcionando de forma coordenada e aberta para qualquer participante.
Ben Goertzel e a visão de uma IA verdadeiramente aberta
Goertzel considerou a previsão da Stripe como algo totalmente plausível. Ele lembrou que transações financeiras digitais convencionais, durante horários de pico, já alcançam a casa dos milhões — e isso quando são geradas majoritariamente por humanos por meio de intermediários. A mudança para o comércio agêntico altera a escala em ordens de magnitude.
Em vez de uma única pessoa iniciando uma ação, temos uma equipe inteira de agentes operando de forma autônoma, explicou Goertzel. Em vez de uma entidade, temos um esquadrão inteiro gerando transações. Essa multiplicação exponencial de operações é o que torna a necessidade de novas arquiteturas tão urgente.
Para Goertzel, alcançar a escala que a Stripe imagina exige superar obstáculos fundamentais que vão além da velocidade bruta. É preciso equilibrar descentralização, escalabilidade e segurança — o famoso trilema do blockchain. Além disso, os agentes não podem ficar confinados a uma única rede. É necessário gerenciar volumes massivos de informação gerados por esquadrões autônomos, viabilizar liquidações diretas entre pares e implementar o que Goertzel chama de identidade descentralizada avançada.
A solução, na visão dele, não é uma única rede monolítica, mas sim um sistema de redes especializadas — algo parecido com uma rodovia moderna com faixas dedicadas para ônibus, tráfego expresso e cargas pesadas. Separando o tráfego, evitamos o congestionamento, observou Goertzel. É exatamente o tipo de arquitetura escalável de que precisamos para o comércio agêntico: uma rede de shards, onde cada parte faz uma coisa bem e interage de forma fluida com o restante.
A SingularityNET, junto com outros projetos que compõem a ASI Alliance, está trabalhando em arquiteturas que permitem que diferentes modelos de Inteligência Artificial interajam entre si de forma descentralizada, usando blockchain como camada de coordenação e registro. A ideia é que, em vez de depender de um único provedor de IA para todas as tarefas, os agentes possam acessar uma rede aberta de serviços especializados, escolhendo e combinando capacidades conforme a necessidade. Esse modelo cria um mercado dinâmico onde a competição acontece pela qualidade do serviço, não pelo controle da infraestrutura.
A concentração de poder na IA e o contra-ataque descentralizado
A corrida de alta intensidade pela supremacia em Inteligência Artificial está provocando uma consolidação massiva de poder. Diferente da natureza descentralizada do blockchain, o setor de IA está se tornando uma espécie de oligarquia dominada por gigantes da tecnologia que investem bilhões em infraestrutura proprietária. Essa concentração de influência tem gerado questionamentos sérios sobre se o controle corporativo vai se sobrepor ao interesse público.
Mesmo assim, um ecossistema resiliente de startups está lançando uma contra-ofensiva tática. Usando agilidade, especialização em nichos e colaboração open-source, essas empresas menores apostam que a diversidade arquitetural e a transparência ética vão conseguir romper o status quo monolítico.
Goertzel é bastante direto ao falar sobre esse cenário: a SingularityNET e seus parceiros não chegam perto do tamanho de empresas como Google ou Microsoft. Mas ele afirma que estão alcançando uma escala que permite competir de forma mais efetiva, se aproximando do nível necessário para tornar a IA descentralizada a forma dominante de inteligência artificial no planeta. Um dos ingredientes secretos, segundo ele, é o poder da diversidade. Ser descentralizado permite reunir pessoas, comunidades, algoritmos de IA e conjuntos de dados de todo o mundo, em contraste com as abordagens monolíticas adotadas por grandes entidades centralizadas.
Goertzel acrescentou que essa diversidade estratégica se torna particularmente poderosa no contexto atual da indústria, onde muitos pesquisadores de ponta estão percebendo que simplesmente construir LLMs cada vez maiores não vai levar à inteligência artificial geral. Isso é algo que entendemos desde o início, afirmou, e que guiou a abordagem Hyperon para AGI e superinteligência desenvolvida pela equipe.
Para demonstrar na prática essa crença na abordagem cosmopolita, a SingularityNET, em parceria com a AGI Society, organizou a conferência AGI-26 deste ano, um evento dedicado a explorar diferentes interpretações e caminhos para alcançar a inteligência geral.
Governança aberta como pilar da IA do futuro
Outro aspecto importante dessa abordagem descentralizada é a resiliência. Sistemas monolíticos, por mais robustos que sejam, possuem pontos únicos de falha. Se a empresa que controla a rede decide mudar suas políticas, aumentar preços ou simplesmente sai do ar, todos os agentes e serviços que dependem dela são afetados. Em uma arquitetura distribuída, esse risco é diluído. Nenhum participante individual tem poder suficiente para comprometer o funcionamento do sistema como um todo. Para o comércio agêntico, onde agentes de IA precisam operar de forma contínua e confiável, essa característica não é um luxo — é um requisito fundamental.
Goertzel também compartilhou sua visão sobre como os envolvidos no setor podem minimizar o risco de a IA ser controlada por apenas algumas entidades ou governos. Para ele, são necessárias metodologias abertas, descentralizadas e democráticas em toda a cadeia da inteligência artificial: desde a implantação e execução de sistemas de IA em larga escala, passando pelo fornecimento justo de dados, o ensino de valores humanos amplos aos sistemas de IA, até a tomada de decisões coletivas sobre seu desenvolvimento.
Na visão de Goertzel, combinar código open-source com infraestrutura e governança descentralizadas garante que a IA permaneça transparente, amplamente acessível e altamente benéfica para a humanidade e outros seres sencientes. Essa abordagem pode soar idealista para quem acompanha o mercado de tecnologia de perto, mas ganha força quando observamos as preocupações crescentes com viés algorítmico, uso indevido de dados pessoais e a falta de transparência nas decisões tomadas por modelos de Inteligência Artificial proprietários.
O que vem pela frente para o ecossistema descentralizado
O cenário que se desenha para os próximos anos é de intensa experimentação técnica. As startups descentralizadas que estão na linha de frente desse movimento sabem que o discurso sozinho não basta. É preciso entregar soluções que funcionem na prática, com latência baixa, custos previsíveis e capacidade de escalabilidade real. Projetos como a ASI Alliance, junto com iniciativas em Layer 2, sharding avançado e novos protocolos de consenso, estão testando diferentes caminhos para alcançar a performance necessária. Não existe ainda uma resposta única e definitiva, mas a quantidade de pesquisa e desenvolvimento sendo investida nessa direção indica que estamos diante de um momento de virada.
O reconhecimento da Stripe de que o blockchain precisa evoluir é, por si só, um sinal relevante. Quando uma empresa desse porte valida publicamente que a tecnologia tem limitações, mas que essas limitações são de engenharia e não de conceito, isso funciona como um catalisador para atrair mais investimento, mais talento e mais atenção para o problema. A comparação com a internet dos anos 90 não é apenas poética. Ela carrega uma implicação prática: quem resolver os gargalos de infraestrutura agora estará posicionado para capturar uma fatia enorme do valor que o comércio agêntico vai gerar nas próximas décadas 🚀.
No fim das contas, a corrida entre modelos centralizados e descentralizados de Inteligência Artificial não é apenas uma disputa técnica. É uma disputa sobre como a próxima geração da internet vai funcionar, quem terá acesso aos seus benefícios e quem terá poder sobre suas decisões. As startups descentralizadas que estão apostando na combinação de IA e blockchain para escalar suas operações estão, na essência, propondo um modelo diferente de futuro. Ainda há muito trabalho de engenharia pela frente, muitos desafios de escalabilidade a superar e muitas provas a entregar. Mas o fato de que essa conversa já está acontecendo em alto nível, envolvendo desde fundadores de fintechs bilionárias até pioneiros da inteligência artificial, mostra que o tema deixou de ser especulação e virou pauta urgente.
Perguntas frequentes
- O que é comércio agêntico?
Comércio agêntico é a capacidade de agentes de IA descobrirem oportunidades, tomarem decisões e executarem transações de forma independente, sem intervenção humana. - Quais os principais desafios do blockchain para transações com IA?
Os desafios incluem a previsibilidade de custos e a necessidade de processar entre 1 milhão e 1 bilhão de transações por segundo. - Como a Stripe está se preparando para o futuro do comércio agêntico?
A Stripe adquiriu a plataforma de stablecoins Bridge e lançou o Agentic Commerce Suite para ajudar empresas a se adaptarem a essa transformação. - Qual a importância da conferência AGI-26?
A AGI-26 reúne pesquisadores e profissionais para explorar diferentes abordagens rumo à inteligência artificial geral, promovendo metodologias descentralizadas que beneficiem a humanidade. - O que é a abordagem Hyperon mencionada por Goertzel?
Hyperon é a abordagem desenvolvida pela equipe de Goertzel para alcançar AGI e superinteligência, baseada na premissa de que simplesmente aumentar o tamanho de LLMs não é suficiente para chegar à inteligência geral.
