As 50 startups israelenses mais promissoras de 2026: IA, cibersegurança, computação quântica e o novo ecossistema tech
Inteligência Artificial, cibersegurança, computação quântica e até aviação pessoal elétrica — Israel está mostrando em 2026 que o ecossistema de startups do país entrou em uma fase completamente diferente. O ambiente que antes era dominado por empresas que cresciam rápido, captavam bilhões e entregavam pouco agora deu lugar a um movimento mais maduro, mais cirúrgico e, sinceramente, muito mais interessante para quem acompanha o setor de tecnologia de perto.
Chega de hype vazio e de rodadas bilionárias sem produto real na rua. A lista deste ano organizada pela Calcalist e pela CTech deixa isso claro desde o primeiro nome: as empresas selecionadas têm receita como prioridade desde o início, atacam problemas específicos de alto valor e não estão tentando ser tudo para todo mundo. O foco virou a palavra de ordem, e isso se reflete diretamente no tipo de solução que essas startups estão colocando no mercado global.
As 50 startups mais promissoras de 2026 estão construindo a infraestrutura que outros precisam para funcionar — desde ferramentas que protegem modelos de inteligência artificial contra ameaças reais, até plataformas que resolvem o gap enorme entre a promessa da IA corporativa e o que realmente funciona no dia a dia das grandes empresas. E como bônus, tem uma startup querendo colocar uma aeronave elétrica nas mãos de qualquer pessoa, com uma fila de mais de 3 mil compradores pagando meio milhão de dólares por unidade. 🚀
O novo perfil das startups que importam em 2026
O que mais chama atenção nessa seleção é o quanto o perfil das empresas mudou em relação ao que víamos há cinco ou seis anos. Não estamos mais falando de startups que precisam de dez rodadas de investimento para chegar a um produto viável. As empresas dessa lista chegaram ao mercado com clareza sobre qual dor estavam resolvendo, para quem e a que custo. Esse modelo mais enxuto e orientado a resultado está se tornando o padrão, especialmente em um cenário econômico onde os investidores estão cada vez mais exigentes com o retorno sobre capital.
Outro ponto que merece destaque é a concentração em setores estratégicos. Cibersegurança e inteligência artificial lideram a lista, mas não de forma isolada — a maioria das empresas selecionadas opera na interseção entre os dois campos. Isso faz todo sentido quando você pensa no momento atual: à medida que mais empresas adotam IA em processos críticos, a superfície de ataque cresce proporcionalmente, e a necessidade de proteger esses sistemas se torna urgente. As startups que entenderam isso antes dos outros saíram na frente.
Times menores, receita aparecendo cedo no ciclo de vida da empresa e uma obsessão por resolver problemas específicos e de alto valor em vez de perseguir mercados genéricos — esse é o DNA que conecta praticamente todas as selecionadas. Esse padrão reflete uma mudança estrutural no ecossistema israelense, que está amadurecendo de forma visível.
Irregular: o laboratório de segurança para IA que trabalha com Anthropic, Google e OpenAI
No topo da lista está a Irregular, fundada em 2023 por Dan Lahav e Omer Nevo. A empresa se descreve como o único laboratório de segurança do mundo dedicado a inteligência artificial avançada, e os números e parcerias dão peso a essa afirmação. A Irregular já trabalha com Anthropic — cujo contrato carrega a assinatura do fundador Dario Amodei —, além de Google, OpenAI e até o governo britânico.
O que a Irregular faz na prática é construir ferramentas que permitem aos clientes avaliar como modelos avançados de IA se comportam sob ameaça e desenvolver métodos para reduzir riscos. Se os planos da empresa se concretizarem, muitas empresas de cibersegurança tradicionais podem se tornar obsoletas. O financiamento anunciado em setembro de 2025 consistiu em duas rodadas completadas em poucas semanas — a primeira de US$ 30 milhões liderada pela Sequoia Capital, seguida de outra de aproximadamente US$ 50 milhões com participação da Sequoia novamente, da Redpoint Ventures, da Swish Ventures e de investidores-anjo israelenses, incluindo Assaf Rappaport, fundador da Wiz. Ao todo, a empresa levantou US$ 80 milhões e emprega 40 pessoas.
Unframe, AIR e ZyG: software empresarial, aviação pessoal e IA para e-commerce
A Unframe, fundada em 2024, ataca um paradoxo interessante. Enquanto vozes nas redes sociais dizem que qualquer pessoa agora pode construir produtos que antes só grandes empresas de software conseguiam, a realidade é diferente: um estudo recente do MIT mostrou que 95% dos projetos independentes baseados em IA falham quando organizações tentam implementá-los. A Unframe entra nessa lacuna oferecendo a grandes empresas a capacidade de criar soluções baseadas em agentes de IA sob medida, com o compromisso de entregar uma solução funcional em apenas uma semana. A empresa levantou US$ 50 milhões e já conta com 120 funcionários.
A AIR, nascida em 2018 em Kfar Yona, na região de Sharon, não está apenas construindo aeronaves — está criando uma nova categoria no setor de transporte. A AIR ONE atinge velocidades de 250 km/h com autonomia de voo de aproximadamente 160 km em uma única carga. Com certificação Light Sport Aircraft concedida pela FAA americana e uma lista de espera de 3.300 pessoas dispostas a pagar cerca de US$ 500 mil por unidade, a empresa planeja produzir dezenas de aeronaves até 2027 e milhares nos anos seguintes. A AIR também já gera receita de cerca de US$ 35 milhões anuais com modelos de carga não tripulados para os setores de logística e defesa.
Já a ZyG, fundada pelos criadores da ironSource — que vendeu por bilhões —, está construindo uma plataforma autônoma para substituir os sistemas de marketing e operações de marcas de e-commerce. O sistema conta com mais de 60 agentes de IA que se comunicam entre si, e a empresa estabeleceu três marcas próprias de e-commerce que geram milhões de dólares em receita e servem como campo de testes em tempo real. Com cerca de 65 funcionários e aproximadamente US$ 58 milhões em investimento, a ZyG espera gerar dezenas de milhões de dólares em receita em 2026.
Gaming, pagamentos e o fim do monopólio das app stores
A Appcharge é um dos cases mais impressionantes da lista. Com receitas se aproximando de US$ 100 milhões por ano e uma plataforma que processa mais de US$ 1 bilhão em transações, a empresa está se posicionando como o Shopify dos games — devolvendo poder e receita aos desenvolvedores que historicamente pagavam 30% de cada compra in-app para Apple e Google. Fundada em 2022 por Maor Sason e Roei Barassi, a Appcharge concluiu recentemente uma rodada Series B de US$ 58 milhões com participação de empresas de games como Playrix e Supercell. Seu crescimento foi impulsionado por decisões regulatórias e legais nos Estados Unidos, na União Europeia e na Coreia do Sul que restringiram Apple e Google de impedir que desenvolvedores direcionem usuários para sistemas de pagamento externos.
Port, Qodo e ScaleOps: a infraestrutura invisível que faz a IA funcionar
Enquanto a maioria das manchetes tech focava na capacidade da IA de escrever código mais rápido, a equipe da Port identificou uma restrição diferente: escrever código representa apenas cerca de 15% do tempo de trabalho de um engenheiro de software. Os outros 85% — gastos com gerenciamento de versões, cibersegurança, manutenção de infraestrutura e resolução de problemas — são a verdadeira barreira que impede grandes organizações de acelerar o desenvolvimento. Com uma rodada de US$ 100 milhões liderada pela General Atlantic e uma avaliação de US$ 800 milhões pós-investimento, a Port está transformando o portal do desenvolvedor no sistema nervoso para agentes de IA dentro das organizações. Entre seus clientes estão Visa, GitHub e British Telecom.
A Qodo (anteriormente CodiumAI) ataca outro problema crítico da era da IA: a confiança no código gerado por modelos de linguagem. Modelos LLM são ótimos para gerar código genérico, mas não entendem o contexto organizacional — histórico de desenvolvimento, padrões arquitetônicos ou limites de risco. A plataforma da Qodo integra agentes de IA que escaneiam código em tempo real, analisam decisões passadas e fornecem feedback imediato aos desenvolvedores. Com uma rodada Series B de US$ 70 milhões liderada pela Qumra Capital, a empresa atende centenas de clientes incluindo Walmart e Nvidia, com receitas crescendo dez vezes em um ano.
Já a ScaleOps resolve um dos problemas mais caros do mundo cloud: o desperdício de recursos computacionais. Sua plataforma toma decisões em tempo real, ajustando dinamicamente a quantidade exata de recursos alocados para cada aplicação com base na demanda. O resultado reportado é uma redução de até 80% nos custos de cloud. Com uma rodada Series C de US$ 130 milhões e avaliação superior a US$ 800 milhões, a empresa cresceu mais de 350% ano a ano e atende clientes como Adobe, Wiz, DocuSign e Armis.
Computação quântica: três startups israelenses na corrida global
A computação quântica aparece com força nessa edição, com três empresas representando diferentes abordagens. A Quantum Art utiliza o método de íons aprisionados e levantou mais de US$ 150 milhões para construir um computador quântico completo, com planos de lançar seu primeiro modelo comercial ainda em 2026. A concorrente IonQ, que abriu capital em 2021, atualmente é avaliada em cerca de US$ 15 bilhões — o que dá uma ideia do potencial de valorização.
A Qedma, fundada por Dr. Asif Sinay — que participou do desenvolvimento do sistema Iron Dome na Rafael —, foca no lado de software da computação quântica, desenvolvendo soluções para prevenir e corrigir erros que são inerentes aos sistemas quânticos atuais. A empresa já tem dezenas de clientes nos setores bancário e automotivo.
A Q Factor, a mais jovem da lista, foi fundada no início de 2026 e completou uma rodada Seed de US$ 24 milhões com participação da Intel Capital. Sua aposta é na tecnologia de átomos frios, abordagem que recebeu validação significativa recentemente quando o Google escolheu essa mesma tecnologia para seus próprios esforços em computação quântica.
Cibersegurança na era dos modelos de IA
A cibersegurança sempre foi um setor forte em Israel, mas o que está acontecendo agora é qualitativamente diferente do que víamos antes. O foco deixou de ser apenas proteger redes e endpoints para incluir a proteção dos próprios sistemas de IA — uma categoria que praticamente não existia três anos atrás e que hoje já movimenta bilhões de dólares em investimento.
A Guardio, por exemplo, é uma anomalia no cenário israelense: com apenas 110 funcionários — todos baseados em Israel —, a empresa gera mais de US$ 100 milhões em receita, sendo 99% proveniente de clientes individuais. Fundada em 2018, a Guardio cresceu três vezes por quatro anos consecutivos e espera atingir fluxo de caixa positivo ainda este ano. Sua parceria estratégica recente com a plataforma Lovable ilustra como a empresa está expandindo para proteger também a infraestrutura criada por ferramentas de IA generativa.
A Vega, fundada em 2024 por graduados da Unidade 8200, completou recentemente uma rodada Series B de US$ 120 milhões com avaliação de aproximadamente US$ 700 milhões. Sua inovação está na capacidade de identificar e investigar ameaças em tempo real diretamente no ambiente de armazenamento da organização, sem precisar transferir volumes massivos de dados para um sistema externo. A Noma Security, por sua vez, rejeitou ofertas de aquisição atraentes e optou por seguir independente, abrindo uma vantagem significativa sobre concorrentes que foram adquiridos e ficaram presos em processos de integração. Sua receita em 2026 deve ultrapassar a marca de US$ 10 milhões.
Nir Zuk, fundador do gigante Palo Alto Networks, também reapareceu na lista com a Cylake, uma nova startup que já levantou US$ 45 milhões em rodada Seed liderada pela Greylock. A aposta é em proteger grandes empresas, governos e organizações reguladas que não podem depender de infraestrutura de cloud pública, oferecendo uma plataforma baseada em IA que opera inteiramente em ambientes on-premises ou em clouds privadas.
Da inteligência open-source à saúde e fintech
A Vetric se destaca por ter sido construída sem nenhum capital externo. Fundada por Omer Bachar — que criou uma unidade tecnológica dentro da polícia militar do IDF aos 24 anos —, a empresa saltou de US$ 250 mil em receita em 2022 para US$ 15,5 milhões no fim de 2025, com meta de US$ 30 milhões para 2026. Sua tecnologia coleta bilhões de informações públicas da web para o mercado de Open-Source Intelligence, mantendo limites éticos claros: não trabalha diretamente com governos e se recusa a operar em países sancionados.
Na área de saúde, a Converge Bio está usando IA para acelerar o desenvolvimento de medicamentos — um processo que tipicamente leva dez anos e custa cerca de US$ 2 bilhões. Com apenas dois anos de existência, a empresa já trabalha com 12 farmacêuticas, participa do desenvolvimento de 40 drogas e recebeu um grant de US$ 2,5 milhões da Fundação Bill e Melinda Gates.
No segmento de fintech, a April está resolvendo um dos processos mais detestados pelos americanos: a declaração anual de impostos. A empresa passou de 100 mil usuários no ano passado para mais de um milhão na temporada fiscal atual — cerca de 2,5% dos americanos que declaram impostos. O modelo de negócio é distribuído via parceiros como PayPal, Robinhood e Chime, reduzindo o tempo de declaração de cerca de nove horas para uma média de 20 minutos.
Gaming, defesa e a próxima onda de agentes autônomos
A Sett, fundada em 2023, transformou a produção de marketing para a indústria de games usando agentes de IA que encurtam o processo de criação de anúncios de semanas para poucas horas. Com clientes como Zynga, Playtika e Papaya, a empresa gera dezenas de milhões de dólares em receita e acaba de levantar US$ 30 milhões em sua rodada Series B. Agora, está expandindo para além dos games, mirando fintech e e-commerce.
No setor de defesa, a Line5 — fundada por Yiftach Shoolman, criador do unicórnio de software Redis — está desenvolvendo sistemas robóticos para substituir soldados no campo de batalha. A empresa levantou US$ 20 milhões em uma rodada Seed imediatamente após sua fundação, e seu conselho consultivo inclui Mike Pompeo, ex-diretor da CIA.
A Orca AI está levando IA para a navegação marítima, conectando navios à nuvem para reduzir acidentes, prevenir situações perigosas e diminuir o consumo de combustível. As seguradoras marítimas já começaram a reduzir prêmios após uma queda de 50% nos incidentes de quase-colisão em navios que usam o sistema. A empresa conta com MSC e Maersk entre seus clientes e foi a primeira no mundo a receber aprovação de reguladores japoneses para sistemas de navegação marítima autônomos.
Destaque para as startups das posições 31 a 50
A segunda metade da lista traz nomes que merecem atenção especial. A Brandlight está construindo uma plataforma para garantir visibilidade de marcas nos motores de IA generativa — o equivalente ao SEO do futuro, em um mundo onde consumidores perguntam ao ChatGPT, Gemini ou Claude qual creme facial comprar em vez de buscar no Google. A empresa projeta que US$ 750 bilhões em compras passarão por ambientes de IA.
A Factify levantou uma rodada Seed excepcional de US$ 73 milhões para substituir o formato PDF — praticamente inalterado desde os anos 1990 — por uma infraestrutura de documentos inteligentes projetada para a era da IA. A Majestic Labs está desenvolvendo um chip que visa servir até 10 vezes mais clientes na mesma infraestrutura que os processadores da Nvidia, enquanto a Tastewise usa bilhões de sinais digitais para prever tendências de consumo alimentar, atendendo aproximadamente 80% das maiores empresas de alimentos do mundo.
Entre as posições 33 e 50, cibersegurança domina com força. Startups como Above Security (ameaças internas), Tenzai (simulação de hackers via IA), Clover (segurança integrada ao fluxo de trabalho do desenvolvedor), Lumia (segurança de agentes de IA autônomos) e Onyx Security (controle de agentes de IA em empresas) mostram que o ecossistema israelense está atacando cada camada possível da nova superfície de ataque criada pela adoção massiva de inteligência artificial. Já a Blocks DIY, fundada por ex-executivos da Monday.com, aposta em uma plataforma no-code para criação de ferramentas inteligentes e agentes de IA acessíveis a qualquer usuário.
O que essa lista diz sobre o futuro da tecnologia
Olhar para as 50 startups mais promissoras de 2026 é, de certa forma, olhar para onde a tecnologia global vai estar daqui a três ou cinco anos. As tendências que aparecem aqui — IA embarcada em processos críticos, segurança de sistemas autônomos, computação quântica saindo do laboratório, hardware inteligente — vão se tornar mainstream muito mais rápido do que a maioria das pessoas imagina. E as empresas que estão construindo a infraestrutura para isso hoje vão ter uma vantagem competitiva enorme quando esse momento chegar.
O movimento mais relevante que essa seleção documenta é o deslocamento do centro de gravidade da inovação em direção à profundidade técnica. Não basta ter uma boa história para contar para investidores — é preciso ter produto real, cliente pagante e capacidade demonstrada de resolver um problema específico melhor do que qualquer alternativa existente. Esse filtro mais rigoroso está produzindo empresas mais sólidas, e a lista da Calcalist e da CTech é uma evidência clara disso.
Essa é a 17ª edição do ranking, elaborado a partir de consultas a investidores proeminentes, consultores e empreendedores do mercado israelense. Os participantes foram convidados a identificar startups que estão crescendo, gerando receita, com maior momentum e maior chance de dar um passo significativo no próximo ano — com ênfase em empresas que não fazem parte de seus próprios portfólios. Entre os contribuintes estão nomes como Sequoia, Accel, Bessemer Venture Partners, Insight Partners, Index Ventures, Lightspeed, NFX, Cyberstarts, Team8, Viola, TLV Partners e dezenas de outros fundos e investidores individuais de destaque.
Para quem acompanha o setor de tecnologia e inteligência artificial, essa seleção funciona como um mapa de onde o dinheiro inteligente está indo, onde os talentos mais qualificados estão se concentrando e quais problemas o mercado considera urgentes o suficiente para pagar bem por uma solução. E se há uma lição que atravessa todos os 50 nomes da lista, é que o futuro da tecnologia vai ser construído por empresas que sabem exatamente o que estão fazendo — e para quem. 🎯
