A TerraFirma acaba de mostrar que nem todo ex-engenheiro da SpaceX quer mirar as estrelas, pelo menos não do jeito que a gente imagina.
Enquanto Elon Musk convence investidores de que o futuro da humanidade está numa economia espacial com vida além da Terra, dois ex-engenheiros da própria empresa decidiram olhar para o chão, literalmente, e enxergaram uma oportunidade gigantesca que muita gente estava ignorando há décadas. 🚀🏗️
A startup de construção semi-autônoma, com apenas dois anos de vida, anunciou nesta terça-feira um financiamento de US$ 115 milhões e está se posicionando para trazer a velocidade, a pressão e a cultura de inovação da SpaceX para uma das indústrias mais antigas e menos transformadas do mundo. E o mais curioso: apesar de focar na Terra por enquanto, a empresa tem um plano de longo prazo bem ambicioso que envolve construir em Marte. 🪐
Pode parecer contraditório, mas faz todo o sentido quando você entende de onde vieram os fundadores e o que eles viveram de perto no dia a dia de quem constrói foguetes do tamanho de arranha-céus.
De quem apostou nessa ideia
O aporte de US$ 115 milhões não veio de qualquer lugar. A rodada contou com investimentos de peso da Kleiner Perkins e da Bain Capital Ventures, além de investidores anjo ligados a empresas de tecnologia de defesa como a própria SpaceX, a Anduril e a Hadrian. Quando você vê nomes desse calibre entrando numa startup de construção, isso não é só uma notícia de financiamento. É um sinal muito claro de que gente que entende de tecnologia disruptiva está começando a levar a sério a transformação de um setor historicamente parado no tempo.
Sediada em Austin, no Texas, a TerraFirma planeja usar o dinheiro para contratar 300 funcionários ao longo do próximo ano e construir tanto uma fábrica no Texas quanto um centro de controle de missão. Sim, você leu certo: um centro de controle de missão, o mesmo tipo de estrutura que a gente associa a lançamentos espaciais, mas aplicado ao mundo das obras. Esse detalhe já diz muito sobre a mentalidade da empresa.
Da SpaceX para o canteiro de obras
Os fundadores da TerraFirma não saíram da SpaceX por acaso. Noah Schochet e Noah McGuinness se conheceram há cerca de uma década, no primeiro dia de aula de engenharia na Universidade de Princeton. Nos quatro anos seguintes, os dois enfrentaram cargas horárias muito parecidas e trabalharam juntos em praticamente todos os projetos. Depois de formados, ambos foram parar na SpaceX.
McGuinness atuou no programa de satélites governamentais conhecido como Starshield, enquanto Schochet trabalhou no Starlink e depois no Starship. Foi ali, no meio da correria de construir e escalar rápido, muitas vezes em condições difíceis e enfrentando problemas de infraestrutura básica, como banheiros confiáveis, que a ideia começou a germinar.
Eles perceberam um contraste enorme. De um lado, a SpaceX fabricando foguetes do tamanho de arranha-céus a um ritmo de um por mês, com automação de manufatura em massa e processos de ponta. Do outro lado, a indústria da construção avançando em ritmo de lesma, sem absorver quase nada de toda essa tecnologia desenvolvida nas últimas décadas.
Estamos construindo foguetes do tamanho de arranha-céus a um por mês, e todos aqueles processos de automação de manufatura em massa, nenhum deles aparece na construção, disse Schochet à CNBC.
A dupla descreveu a experiência na SpaceX como fisicamente e mentalmente pesada, com dias passados dormindo nas próprias mesas de trabalho. Mas, segundo Schochet, valeu totalmente a pena, porque estavam aprendendo num ritmo alucinante. Curiosamente, cerca de metade da equipe de engenharia da TerraFirma também já trabalhou na SpaceX, na Tesla ou na Boring Company. Ou seja, o DNA de inovação está espalhado por toda a empresa.
Como a tecnologia funciona na prática
Aqui vem a parte que mais chama atenção de quem gosta de tecnologia. A TerraFirma usa uma combinação de interfaces para operar equipamentos de construção remotamente, e uma delas é nada menos que o controle de Xbox. 🎮 Isso mesmo, os técnicos da empresa usam controles de videogame para manobrar máquinas pesadas à distância.
Pode parecer brincadeira, mas é uma decisão de design bastante inteligente. Controles de Xbox são intuitivos, baratos, extremamente confiáveis e já fazem parte da vida de milhões de pessoas. Isso reduz drasticamente a curva de aprendizado para operar equipamentos complexos e diminui a barreira de entrada para novos operadores. É um exemplo prático de como uma boa experiência de usuário pode transformar uma tarefa perigosa e difícil em algo muito mais acessível.
Segundo a empresa, essas ferramentas cortam custos e melhoram a segurança. E esse último ponto é fundamental. A construção civil é uma das indústrias com maior índice de acidentes de trabalho no mundo. Ao permitir que operadores controlem máquinas de longe, longe do perigo direto, a TerraFirma ataca um problema grave que o setor carrega há muito tempo sem uma resposta tecnológica à altura.
Infraestrutura como o grande gargalo
Para os fundadores, a infraestrutura não é apenas um mercado, é o gargalo que trava praticamente todas as outras indústrias que precisam inovar nas próximas décadas.
Existe um déficit enorme de pessoas pegando toda essa ótima tecnologia que foi construída nos últimos anos e trazendo para a indústria da construção, afirmou o CEO Schochet.
Esse raciocínio faz muito sentido quando você olha os números. Projetos de infraestrutura são notórios por atrasos colossais e estouros de orçamento. É exatamente onde a ineficiência mais dói e, portanto, onde a tecnologia tem o maior potencial de impacto mensurável. Se a TerraFirma conseguir provar que dá para construir de forma mais rápida, barata e segura, ela abre uma porta enorme.
Provando na Terra antes de sonhar com Marte
Apesar da visão interplanetária, a TerraFirma está com os pés bem firmes no chão por enquanto. A empresa está focada em provar sua tecnologia na Terra, com projetos comerciais recentes que incluem uma arena esportiva e até uma unidade da Starbucks. São exemplos concretos de que o modelo não é só teoria, mas já está gerando resultado em campo, que é onde essa indústria exige que a prova seja feita.
Ainda assim, a firma não perdeu de vista o objetivo de longo prazo e pretende participar de licitações de futuros projetos lunares. A filosofia dos fundadores sobre isso é bem pé no chão, o que é interessante vindo de quem quer construir em outro planeta.
O problema é que você não quer construir uma comunidade em torno de uma economia espacial que ainda não existe. Você quer construir em torno dos motores econômicos que realmente movem o mundo hoje, explicou Schochet.
Parte de um movimento maior
A TerraFirma faz parte de uma rede crescente de startups que nasceram a partir de ex-funcionários da SpaceX e que agora buscam capitalizar em cima da economia espacial em formação. Outros nomes famosos desse grupo incluem a fabricante de armas hipersônicas Castelion e a Relativity Space.
Esse ecossistema ganhou fôlego extra recentemente. O histórico IPO de US$ 86 bilhões da SpaceX, combinado com o esforço da NASA para estabelecer uma base lunar na Lua, despertou um novo otimismo para o setor. Com o tempo, esse futuro pode incluir levar indústrias inteiras para Marte ou para a Lua, construir células solares e lançar centros de dados no espaço com mais facilidade. É um horizonte ambicioso, e empresas como a TerraFirma querem estar prontas quando esse mercado deixar de ser ficção científica.
A TerraFirma ainda tem muito a provar, como toda startup em fase de escala, mas a combinação de DNA técnico da SpaceX, foco em infraestrutura de alto impacto, um modelo de construção semi-autônoma controlada até por joystick de Xbox e um financiamento robusto de US$ 115 milhões cria um cenário que vale a pena acompanhar de perto. Se der certo, o jeito como estradas, pontes, arenas e redes de energia são construídas pode mudar bastante nos próximos anos, e quem sabe o próximo grande projeto deles nem seja aqui na Terra.
