Do UX design à comunicação em IA: como uma carreira mudou sem perder a essência
Uma carreira em UX design pode parecer distante de um cargo focado em inteligência artificial, mas a trajetória da profissional cingalesa Sajani Lokuge mostra exatamente o contrário. Aos 26 anos, depois de começar a vida profissional como designer de experiência do usuário e chegar à posição de lead UX designer, ela mudou de função dentro da mesma empresa e hoje atua como AI content manager em uma companhia de software industrial de IA, sediada em Colombo, no Sri Lanka.
Essa transição não foi um salto no escuro. Ela veio depois de anos trabalhando em um papel altamente técnico, ajudando a construir produtos, desenhando interfaces e traduzindo problemas complexos em experiências simples para o usuário final. Com a explosão de projetos de inteligência artificial dentro da empresa, surgiu uma nova necessidade: alguém que entendesse profundamente o produto e, ao mesmo tempo, soubesse explicar IA de forma clara para públicos muito diferentes, internos e externos.
Foi aí que o histórico de UX de Sajani encontrou um novo palco. Em vez de apenas desenhar telas, ela passou a desenhar mensagens, formatos e narrativas que tornassem a IA compreensível para executivos, equipes de vendas, times técnicos e funcionários de diversas áreas. Na prática, a essência do trabalho continuou a mesma: tornar sistemas complexos mais humanos e fáceis de usar. O que mudou foi o tipo de entrega.
Da formação em engenharia de software ao UX design
Antes de entrar em IA, Sajani estudou engenharia de software. A base técnica ajudou bastante no começo da carreira, quando ela assumiu funções em UX design em produtos digitais. Ela foi crescendo dentro da empresa até chegar ao papel de lead UX designer, com um dia a dia bem conectado à construção do produto: pesquisas com usuários, definição de fluxos, protótipos, testes de usabilidade e colaboração direta com times de engenharia.
Esse trabalho exigia entender o que o usuário tentava fazer, por que travava em determinadas etapas e quais decisões de design poderiam reduzir esse atrito. Ao mesmo tempo, exigia traduzir linguagem técnica em algo que usuários de áreas diversas conseguissem entender. Sem perceber, ela já estava treinando exatamente as habilidades que mais tarde seriam críticas para atuar com comunicação em IA.
Além da função interna, Sajani começou a construir uma presença pública no LinkedIn, falando sobre carreira em design e, aos poucos, sobre inteligência artificial aplicada a produtos. O conteúdo começou a ganhar tração. Com consistência e foco, o perfil dela chegou a cerca de 26 mil seguidores, o que aumentou muito sua visibilidade tanto dentro quanto fora da empresa.
Quando a empresa precisou de alguém para explicar IA
Cerca de dez meses antes de contar sua história ao Business Insider, a empresa de software industrial de IA onde Sajani trabalha decidiu estruturar melhor a forma como se comunicava sobre seus produtos de inteligência artificial. Eles não precisavam de um cientista de dados extra, mas sim de alguém que fizesse a ponte entre produto, tecnologia e público.
Foi nesse momento que a liderança percebeu que ela era a pessoa certa para isso. Ela já dominava o contexto interno, conhecia as equipes de produto, estava acostumada a traduzir complexidade e ainda tinha uma audiência crescente interessada em IA e design. O encaixe foi natural.
Ela então assumiu o cargo de AI content manager, passando a liderar a estratégia de comunicação e conteúdo em IA da companhia. A função não foi simplesmente inventada do zero: ela surgiu de uma necessidade real de explicar claramente o que a empresa estava construindo em termos de IA, tanto para o público interno quanto para clientes, parceiros e mercado.
Como é o trabalho de uma AI content manager
Hoje, o cotidiano de Sajani é bem diferente do antigo trabalho de UX focado em interface, mas as habilidades que ela usa são praticamente as mesmas, aplicadas em outro contexto.
Mensagens de adoção de IA
Uma das suas principais responsabilidades é desenvolver mensagens de adoção de IA. Isso inclui explicar:
- O que os produtos de IA da empresa fazem na prática
- Como diferentes áreas podem usar essas soluções no dia a dia
- Que benefícios reais podem esperar, sem promessas exageradas
- Quais limites, riscos e cuidados existem no uso das ferramentas
Ela pensa em tom de voz, exemplos concretos, linguagem acessível e estrutura das mensagens, sempre com a pergunta em mente: essa explicação faz sentido para alguém que não é técnico?
Global AI town hall
Sajani também produz e modera um global AI town hall, um encontro mensal em formato de transmissão executiva para todos os funcionários do mundo. Nesse evento interno, a liderança apresenta novidades, mostra casos de uso, fala sobre roadmap de IA e responde dúvidas.
Ela cuida do roteiro, do formato das conversas, da construção das perguntas e da forma como os temas são apresentados para públicos com níveis bem diferentes de familiaridade com IA. É um trabalho que mistura produção de conteúdo, curadoria de informações e design de experiência, só que agora voltado para um grande evento e não para uma única interface.
Podcast em vídeo sobre IA industrial
Outra frente importante é a produção e apresentação de um podcast em vídeo chamado Voices of Industry. Nele, Sajani conversa com líderes seniores de diversos domínios e setores, explorando como estão adotando IA industrial em processos complexos.
Ela faz a pesquisa prévia, prepara os tópicos, conduz a entrevista, direciona o papo para temas relevantes e traduz, em tempo real, termos técnicos em exemplos que qualquer profissional consiga acompanhar. Em algumas semanas, o trabalho é mais voltado para produção em vídeo e viagens. Em outras, o foco está em comunicação estratégica e apoio a vendas, criando materiais que ajudam equipes comerciais a explicar as soluções de IA a clientes.
Por que UX design foi totalmente aproveitado nessa transição
Empatia e tradução do complexo para o simples
Segundo Sajani, o núcleo do trabalho de UX é entender o que a pessoa quer fazer e por que não está conseguindo. Esse mesmo raciocínio serve quando o desafio é explicar IA.
Antes de planejar um town hall ou um episódio de podcast, ela pesquisa:
- Quem vai assistir
- O que esse público já sabe sobre IA
- Quais dúvidas e medos provavelmente vão surgir
- Que respostas as pessoas precisam levar consigo ao final
Essa combinação de empatia com escuta ativa é típica do UX designer e foi reaproveitada de forma quase direta na nova função. Em vez de observar alguém travando em um formulário, ela agora observa alguém travando em um conceito: o que é um modelo, por que o sistema erra às vezes, por que a IA precisa de dados, e assim por diante.
Mesma base, entregas diferentes
Ela resume a mudança de forma bem clara: as funções e os títulos podem mudar, mas as habilidades centrais de UX continuam muito relevantes. A diferença é que, em vez de desenhar telas de interface, ela está desenhando como as pessoas entendem uma nova categoria de produto, a IA industrial.
Na prática, os princípios permanecem:
- Conhecer profundamente o usuário ou público
- Reduzir a complexidade em camadas compreensíveis
- Criar fluxos claros – antes em telas, agora em narrativas e eventos
- Construir confiança em algo novo, passo a passo
Aprendendo IA na prática, junto com o trabalho
Embora já escrevesse sobre IA no LinkedIn, Sajani ainda precisava ganhar fluência técnica suficiente para fazer entrevistas profundas com líderes do setor industrial e explicar produtos de IA sem perder detalhes importantes.
Ela não focou em aprender a programar, mas sim em entender como os produtos de IA da empresa funcionam, quais problemas resolvem e como são aplicados em diferentes indústrias.
Três meses imersa nos times de produto
Nos primeiros três meses na nova função, ela se infiltrou literalmente nos times de produto de IA. Sentava em reuniões diárias, acompanhava as discussões de engenharia, escutava debates sobre modelos, dados e integrações e fazia perguntas que, para ela, pareciam básicas.
Com o tempo, essas perguntas foram deixando de ser consideradas bobas e passaram a abrir conversas importantes sobre clareza, experiência do usuário e impacto real. Ao ouvir as explicações várias vezes, em diferentes contextos, ela foi ligando os pontos e criando uma visão clara o suficiente para traduzir tudo isso para públicos não técnicos.
Aprender enquanto faz
Um ponto que ela destaca é que a maior parte do seu aprendizado veio ao mesmo tempo em que o trabalho acontecia. Em vez de parar a carreira para estudar IA e só depois aplicar, ela foi aprendendo com base nas demandas reais do dia a dia: um episódio específico do podcast, um evento global, um material de apoio para vendas, um comunicado interno.
Esse modelo de aprendizado integrado ao trabalho mostrou que muita gente dentro das próprias organizações de IA também está aprendendo em tempo real, ajustando discurso, ferramentas e processos à medida que o cenário evolui.
O conselho de quem já fez a transição
Sajani conta que estava confortável e feliz como lead UX designer, sem planos imediatos de mudar de área. Mesmo assim, quando a oportunidade apareceu, ela decidiu encarar o desafio, apoiada pelo fato de que não estaria começando do zero, e sim reaproveitando uma base sólida.
Parar de esperar se sentir pronto
Para quem pensa em fazer uma transição parecida, especialmente vindo de design, o recado dela é direto: não espere se sentir totalmente pronto. Mesmo as pessoas que já trabalham em IA estão ajustando rota o tempo todo.
Na visão dela, quem vem de UX já tem boa parte do que é necessário para atuar em comunicação e estratégia de IA:
- Capacidade de entender públicos com níveis diferentes de conhecimento
- Facilidade em explicar conceitos com exemplos concretos
- Sensibilidade para perceber resistência, medo e empolgação
- Vivência em transformar insight em decisão de produto
A parte específica de IA é, nas palavras dela, aprendível. O importante é se expor a problemas reais, acompanhar times técnicos e se permitir perguntar muito.
Mais do que certificado, prova de trabalho
Outro ponto forte da experiência dela é que um certificado em IA não foi o que abriu a porta. O que chamou a atenção da liderança foi o trabalho público que ela já vinha fazendo no LinkedIn: posts explicando IA de forma simples, reflexões sobre carreira em design, discussões sobre mudanças trazidas pela automação.
Quando a vaga foi criada, os executivos já sabiam como ela pensava, que tipo de conteúdo produzia e quais eram seus pontos fortes. Não precisaram imaginar seu potencial; já tinham visto na prática.
Por isso, ela sugere que designers deixem de enxergar o portfólio como uma pasta estática de projetos concluídos e passem a tratá-lo como um corpo vivo de trabalho público. Isso pode incluir:
- Textos explicando como pensam sobre IA e experiência do usuário
- Estudos de caso publicados em plataformas abertas
- Conteúdos curtos analisando tendências do setor
- Reflexões sobre como ferramentas de IA impactam o trabalho de design
A ideia é que, quando alguém considerar você para uma vaga ligada a IA, já consiga ter um panorama claro da sua forma de raciocinar e comunicar, antes mesmo de uma entrevista formal.
UX, IA e comunicação: um futuro cada vez mais integrado
A história de Sajani Lokuge mostra um movimento que tende a ficar cada vez mais comum: profissionais de UX ocupando papéis estratégicos em comunicação, conteúdo e adoção de IA dentro das empresas. A tecnologia avança rápido, mas a capacidade de explicar, contextualizar e humanizar essa tecnologia continua sendo um diferencial enorme.
No fim do dia, o coração do trabalho dela segue o mesmo de quando começou em UX: entender pessoas, reduzir ruído, estruturar experiências claras e apoiar quem está tentando usar algo novo. A diferença é que, agora, o objeto dessa experiência não é só uma interface, mas um conjunto complexo de produtos de inteligência artificial que estão mudando a forma como indústrias inteiras operam.
Entre telas, town halls, podcasts e estratégias globais, o fio condutor é simples: quanto melhor a explicação, maior a chance de adoção consciente, responsável e realmente útil de IA nas empresas. E é exatamente aí que o olhar de UX prova, mais uma vez, que continua essencial.
