As bolsas dos EUA dispararam nesta quarta-feira (4), depois que os democratas conquistaram vitórias expressivas em disputas-chave pelo país, segundo a NBC News. As projeções deixaram claro, logo cedo, que o partido deve ficar com o controle do Senado americano e também da Câmara. Wall Street gostou de poder virar a página da incerteza política sem passar dias esperando uma definição, algo que não aconteceu em eleições anteriores.
A festa, porém, veio com uma ressalva. Analistas ouvidos pela reportagem enxergam risco para o ritmo dos investimentos em inteligência artificial, porque vitórias democratas em estados importantes podem frear a construção de data centers. Quem acompanha os investimentos em tecnologia no Brasil tem bons motivos para prestar atenção. Boa parte da IA usada por aqui roda na infraestrutura dessas empresas americanas.
A virada foi rápida. Na noite de terça, quando os primeiros números começaram a sair, os contratos futuros do Nasdaq 100 chegaram a cair 2,5%. Na manhã seguinte, o cenário era outro. De acordo com a NBC News, o Nasdaq Composite subiu 2,2%, o S&P 500 avançou mais de 1,9%, o Russell 2000, índice que reúne empresas pequenas e médias, ganhou 1,5%, e o Dow Jones saltou 1.500 pontos.
O que mais agradou foi a clareza. Segundo a reportagem, George Saravelos, do Deutsche Bank, avalia que uma ampla maioria democrata no Congresso, somada à disposição declarada de Donald Trump de trabalhar com a oposição, tende a funcionar como um freio para decisões mais extremas. Na leitura dele, o mercado passa a ver mudanças bruscas vindas da Casa Branca como algo com prazo de validade.
Economistas do Goldman Sachs foram além. Eles esperam que os democratas usem prazos fiscais para tentar limitar a guerra com o Irã, rever parte das tarifas e desfazer cortes de gastos aprovados no ano passado. O petróleo, que subiu bastante neste ano por causa do conflito, recuou mais de 9%.
O lado de baixo: data centers e ações de tecnologia
Aqui mora o principal contraponto. Estrategistas do Morgan Stanley, citados pela NBC News, apontam um humor um pouco mais negativo com a IA, já que cresce a expectativa de restrições a data centers.
O Goldman Sachs faz uma distinção útil. No plano federal, pouca coisa deve mudar no curto prazo, porque qualquer regra sobre IA e data centers ainda precisaria do apoio dos dois partidos. Nos estados, a conversa é diferente. Vitórias democratas por lá podem resultar em pausas temporárias nas obras, com potencial de atingir cerca de 45% da expansão de capacidade planejada nos EUA, segundo o banco.
Os nomes ajudam a entender por quê. Na Geórgia e em Ohio, os democratas eleitos para o governo, Keisha Lance Bottoms e Amy Acton, já defenderam pausar a construção de data centers em seus estados. No Texas, Gina Hinojosa derrotou o governador republicano Greg Abbott. Para Sarah Bianchi, da Evercore, as vitórias democratas nesses três estados, que concentram uma fatia relevante dos projetos do país, significam novas pausas e restrições ao setor. Foi ela quem descreveu o resultado como um tsunami azul.
O Texas pesa mais. Talvez nenhum outro estado tenha atraído tanto a atenção de quem investe em IA, e Tobin Marcus, da Wolfe Research, avaliou em nota recente que é o único com escala suficiente para que uma desaceleração faça diferença de verdade. Além disso, as projeções indicam vitórias democratas no Senado em estados disputados onde os data centers foram tema de campanha, como Geórgia, Carolina do Norte, Michigan, Ohio, Iowa e Kansas.
A reação veio no mesmo dia. SpaceX e Tesla, ambas comandadas por Elon Musk e com atuação em IA e data centers, recuaram cerca de 4%, segundo a reportagem. Musk, que gastou centenas de milhões de dólares apoiando candidatos republicanos, ironizou nas redes que colocar data centers no espaço parece cada vez mais atraente. Ele já propôs levar servidores de IA para a órbita, mas a maioria dos especialistas vê grandes obstáculos na ideia.
Há ainda outro foco de tensão. Analistas do JPMorgan Chase mencionaram um possível risco de investigação para executivos próximos de Trump. Lideranças democratas já sinalizaram interesse em apurar projetos do presidente a partir de janeiro, quando a nova maioria terá poder de convocação no Congresso.
O contexto mostra o tamanho do que está em jogo. Desde a eleição de 2024, o Nasdaq 100 subiu 40%, contra cerca de 30% do S&P 500, de acordo com a NBC News. Boa parte desse avanço veio das ações de tecnologia e das centenas de bilhões de dólares que Amazon, Nvidia, Microsoft e Alphabet vêm aplicando em modelos, data centers e equipamentos. Esse movimento já vinha sendo acompanhado por aqui, como mostramos ao falar de como a inteligência artificial e a automação impulsionam investimentos.
E o mercado já andava nervoso. Na sexta-feira, segundo a reportagem, o S&P 500 e o Nasdaq tiveram o pior dia desde meados de junho, depois que Intel e Amazon, duas fornecedoras importantes para empresas de IA, apresentaram resultados mistos. A dúvida sobre quando esses investimentos gigantes vão dar retorno não começou agora.
Mesmo assim, Bianchi pede calma. Para a analista, o efeito real vai depender dos detalhes, como regras de transição para projetos já em andamento e a possibilidade de obras migrarem para outros estados. Ela prevê, porém, um 2027 turbulento para quem desenvolve data centers, com empresas obrigadas a se adaptar a um cenário regulatório em mudança.
O que isso muda para quem trabalha com tecnologia no Brasil
Por enquanto, nada muda no dia a dia. Mas o assunto merece atenção. Modelos, serviços de nuvem e APIs de IA usados no Brasil dependem, em boa parte, da infraestrutura que as big techs mantêm nos EUA. Se a construção de data centers perder fôlego por lá, é um sinal que vale acompanhar de perto.
Outro ponto é o humor dos investidores. A oscilação das ações de tecnologia pode mexer com o apetite de quem financia inovação, e isso eventualmente respingaria em startups e projetos de IA que buscam investimentos em tecnologia no Brasil. É uma possibilidade, não uma previsão.
Para quem empreende ou trabalha com marketing e produto, a recomendação é simples. Fique de olho em preços, limites de uso e disponibilidade das ferramentas de IA nos próximos meses. E evite decisões precipitadas com base no barulho de um único dia de bolsa.
No curto prazo, o mercado ganhou alívio político. No médio, fica a dúvida sobre a infraestrutura que sustenta a IA. Os próximos marcos são a chegada da nova maioria ao Congresso, em janeiro, e as primeiras decisões estaduais sobre data centers. Para entender como Washington vem tratando o tema, leia também sobre como a inteligência artificial pressiona a legislação no Congresso dos EUA.
