A China ainda está muito mais presente na base tecnológica de defesa dos Estados Unidos do que qualquer funcionário do governo gostaria de admitir. E, ao contrário do que muita gente imagina, arrancar essa influência pela raiz não é nada simples.
Nos últimos anos, o desacoplamento da China virou pauta bipartidária em Washington. Não importa se o governo é democrata ou republicano, a mensagem é a mesma: reduzir a dependência chinesa é prioridade nacional, especialmente quando o assunto é tecnologia militar e segurança estratégica. Esse esforço de de-risking aparece no centro das políticas do Congresso e é peça-chave dos planos da administração Trump para reconstruir a base manufatureira americana.
Dentro da base industrial de defesa, porém, a missão é ainda mais crítica. Ali não basta reduzir riscos: é preciso um desacoplamento completo das cadeias de suprimento chinesas. O motivo é duplo. Primeiro, evitar tecnologias manipuladas que possam conter vulnerabilidades escondidas em equipamentos de segurança. Segundo, blindar-se contra os riscos de uma guerra econômica. Se a China resolver interromper a exportação de minerais críticos ou de componentes essenciais para empresas americanas — algo que já fez diversas vezes no passado — a capacidade dos EUA de produzir equipamento militar avançado pode simplesmente travar da noite para o dia.
O que está escondido na cadeia de suprimentos da defesa
A dependência do Pentágono de empresas comerciais para fabricar drones, sistemas autônomos, componentes avançados e materiais críticos representa uma ameaça cada vez mais séria ao desacoplamento da China. A aquisição de defesa acelerou com a reativação da Defense Production Act, uma lei da era da Segunda Guerra Mundial. Esse foco em acelerar a produção despertou um interesse crescente pelas startups de tecnologia de defesa.
O problema é que ter sede nos EUA, CNPJ americano e fundadores formados no MIT não garante independência real da cadeia de suprimentos chinesa. Muitas dessas empresas, sejam periféricas ou recém-chegadas ao mercado de defesa, foram construídas com capital chinês, dependem de componentes fabricados na China e lucraram por anos vendendo diretamente para o mercado chinês. Uma peça de tecnologia pode ser americana na superfície e continuar dependente de insumos chineses lá embaixo.
As relações dessas empresas americanas com a China podem ter feito todo o sentido comercial, mas criam um risco enorme em tempos de guerra. Washington precisa descobrir se as companhias que deveriam sustentar as Forças Armadas americanas conseguem operar de verdade quando a China restringe componentes, interrompe cadeias de suprimento ou explora tecnologias que foram compartilhadas antes por meio de parcerias comerciais.
A administração diversificou suas ferramentas comerciais para trazer a produção de volta ao país. Um exemplo recente foi o uso de medidas híbridas, combinando pisos de preço na importação com tarifas para mexer no mercado de polissilício. Ainda assim, manipular o comércio deveria ser o último recurso para forçar conformidade. É um método de resultados imprevisíveis, que muitas vezes deixa a cadeia de suprimentos mais complicada e aumenta os perigos para a aquisição de defesa, ao invés de reduzi-los. As empresas precisam reforçar suas próprias cadeias, atentas ao perigo de guerras comerciais e de choques vindos da China. 🔍
Baterias e terras raras: a influência econômica chinesa na prática
O impacto do controle chinês sobre as cadeias de suprimento está longe de ser apenas teórico. Várias empresas americanas já sentiram na pele o que isso significa.
O caso Skydio e o gargalo das baterias
A Skydio é uma fabricante americana de drones fundada em 2014 por um grupo de graduados do MIT. Hoje é a maior produtora de drones dos Estados Unidos e uma fornecedora central de equipamentos para as Forças Armadas. O ponto crucial para os objetivos de defesa americanos é que os drones são fabricados em território nacional, na maior parte com componentes americanos. Mas na maior parte não é totalmente. E a falta de acesso a alguns poucos componentes chineses críticos consegue causar um estrago desproporcional na produção.
Um desses pontos de falha são as baterias, que a Skydio importava da China até meados da década de 2020. Em 2024, o governo chinês sancionou a empresa, forçando-a a racionar suas baterias e a limitar drasticamente o fornecimento prometido aos clientes. A companhia foi pega de surpresa pelo corte. Ela se adaptou depois, mas o dilema de fundo era outro: a incapacidade do Pentágono de entender por completo quantas de suas necessidades de aquisição estavam presas a gargalos controlados pela China. ⚠️
Polissilício, silicone militar e o dilema da substituição
Os controles comerciais americanos sobre a importação de polissilício são uma tentativa de sair na frente antes que a China explore esse tipo de gargalo. As medidas foram pensadas para proteger empresas como a Wacker Chemical Corporation, que fabrica compostos de silicone de grau militar, elastômeros especializados e borrachas de silicone para aplicação aeroespacial.
O detalhe é que a produção da Wacker foi estruturada em torno do fornecimento chinês, o que obrigou a administração americana a adiar suas ferramentas comerciais até dezembro. E mesmo com essas medidas em vigor, empresas como a Wacker podem simplesmente não conseguir substituir o fornecimento chinês, deixando um buraco gritante nos esforços para consolidar a aquisição do Pentágono.
MP Materials e a dependência mineral
Os EUA estão tentando corrigir sua dependência mineral da China, mas com poucos resultados positivos até agora. A MP Materials, única grande empresa americana de terras raras, virou manchete depois de negociar um acordo de 45 milhões de dólares com o Pentágono. Historicamente, porém, ela enviava boa parte de sua produção para processamento na China.
A empresa chinesa Shenghe Resources era uma acionista importante e uma cliente dominante da MP, até o Departamento de Defesa intervir com sua estratégia de cadeia de suprimentos chamada Mine-to-Magnet, algo como da mina ao ímã. Perder seu principal cliente elevou muito os custos de investimento para o governo americano e desequilibrou as projeções da MP, já que os fabricantes de ímãs americanos não estavam prontos para absorver essa produção. Ou seja: mesmo com minas domésticas, ativos estratégicos americanos continuavam comercialmente dependentes da China até a intervenção do governo.
Capital chinês e manufatura avançada
Os riscos de cadeia de suprimentos também se estendem aos mercados de tecnologia. Empresas de automação mais novas, como a Divergent Technologies — que condensa a manufatura avançada de peças de motores e componentes de foguetes em um único processo unitário — se beneficiaram bastante de investimentos chineses.
O grupo Apollo Future Mobility, de Hong Kong, era um acionista importante da Divergent até ser forçado a vender sua participação de 100 milhões de dólares em 2024, por conta de regulações do Departamento do Tesouro voltadas à segurança nacional. Apesar dos desinvestimentos divulgados publicamente por essas empresas, não existem divulgações semelhantes vindas da Horizons Ventures, de Hong Kong, nem da Shanghai Alliance Investment, um braço de investimento do governo municipal de Xangai. Ambas foram investidoras relevantes da Divergent, enquanto a própria empresa via o mercado automotivo chinês como uma grande fonte de receita.
A Divergent também virou queridinha da nova estratégia de aquisição do Departamento de Defesa, então esses desinvestimentos provavelmente já ocorreram, ainda que de forma discreta. Mesmo assim, é um conjunto de circunstâncias bem delicado para o establishment de defesa avaliar afiliações chinesas, ainda mais num momento em que a aquisição de defesa continua fortemente exposta à influência da China.
O problema de segurança tecnológica do Pentágono
A estratégia do Pentágono está, com razão, atraindo empresas de manufatura automotiva, robótica, inteligência artificial, manufatura aditiva e mineração para dentro da base industrial de defesa. Mas, ao fazer isso, ela pode acabar aumentando a ameaça vinda da China sem querer. A inovação comercial frequentemente vem carregando dependências estrangeiras que as revisões tradicionais de defesa não foram desenhadas para detectar.
A exposição pode ir bem fundo no processo de manufatura complexo de hoje. Grandes investidores chineses costumam ter direitos de governança e de acesso a informações, o que afrouxa o controle sobre a propriedade intelectual e facilita muito uma eventual aquisição chinesa. Os EUA dependem pesadamente de baterias, minerais e componentes chineses para máquinas eletrônicas. E mesmo onde essas cadeias de suprimento são reestruturadas, a exposição passada ainda importa — porque um desinvestimento não recupera o conhecimento que já foi transferido, nem substitui de imediato uma cadeia de suprimentos já embutida.
Os Estados Unidos estão usando ferramentas comerciais como tarifas e pisos de preço, mas a solução de verdade é ter uma gama melhor de opções comerciais. As empresas precisam tomar a decisão por conta própria de reforçar a cadeia de suprimentos. Os investimentos que fizerem agora vão definir o futuro dos seus contratos governamentais no longo prazo.
A América precisa da inovação comercial para reconstruir sua base de produção militar. E uma empresa não deveria ser considerada segura só porque tem sede nos EUA ou monta o produto final por lá. A pergunta que os fabricantes de verdade precisam fazer é esta: a minha tecnologia, o meu capital e a minha cadeia de suprimentos sobrevivem ao momento em que a China deixa de agir como parceira comercial e passa a se comportar abertamente como adversária?
Para as empresas de tecnologia de defesa, a resiliência da cadeia de suprimentos é parte inseparável da própria segurança tecnológica. Não dá para separar uma coisa da outra. 🌐
Gia Kim é uma pesquisadora e analista de políticas europeia-coreana, especializada em comércio e política internacional. Filha de mãe sul-coreana e pai alemão, cresceu entre Seul e Frankfurt, desenvolvendo cedo o interesse por como a interdependência econômica e a competição geopolítica moldam as relações internacionais. Ela concluiu um mestrado em economia política internacional na London School of Economics, onde sua pesquisa focou em segurança de cadeias de suprimento.
