Investimentos em tecnologia de defesa batem recordes em 2026 impulsionados por guerras
Os investimentos em tecnologia de defesa estão vivendo um momento que poucos analistas ousariam prever há alguns anos. Conflitos reais estão redesenhando o mapa do capital de risco global e transformando startups militares em algumas das apostas mais disputadas do mercado.
Desde o início de 2026, empresas do setor captaram impressionantes US$ 12,3 bilhões em rodadas de capital de risco, segundo dados compilados pela PitchBook para o Financial Times. Esse número é quase o dobro do registrado no mesmo período do ano anterior e já supera os US$ 9,95 bilhões levantados ao longo de todo o ano de 2025.
O que explica esse salto tão expressivo? A resposta está nos conflitos ativos ao redor do mundo, que estão funcionando como uma espécie de laboratório real para novos sistemas militares. A guerra na Ucrânia e as tensões no Golfo Pérsico aceleraram a busca por soluções mais baratas, mais rápidas de produzir e tecnologicamente mais avançadas.
É nesse cenário que drones, embarcações autônomas e inteligência artificial de campo de batalha se tornaram os ativos mais disputados do mercado de tecnologia em 2026. E os investidores, de Silicon Valley a Berlim, estão colocando bilhões na mesa para não ficar de fora dessa corrida. 🚀
Por que os conflitos viraram o motor dos investimentos em defesa
Durante muito tempo, o setor de defesa era visto como território quase exclusivo de grandes contratantes governamentais, empresas centenárias com contratos bilionários e ciclos de desenvolvimento que podiam durar décadas. Mas os conflitos mais recentes mudaram essa lógica de forma bastante drástica.
A guerra na Ucrânia, em especial, expôs uma realidade que nenhum relatório de consultoria conseguiria descrever tão bem quanto o campo de batalha em si: sistemas caros, pesados e difíceis de operar estavam sendo superados por tecnologias menores, mais ágeis e de custo muito mais acessível. Drones comerciais adaptados, por exemplo, passaram a desempenhar papéis táticos que antes exigiriam equipamentos de altíssimo valor, e isso chamou a atenção de todo mundo, especialmente dos investidores.
Daniel Rudnicki Schlumberger, chefe da iniciativa de segurança e resiliência do JPMorgan para Europa, Oriente Médio e Ásia, resumiu bem a situação ao afirmar que estamos vendo a mudança mais importante na forma como as guerras são travadas, possivelmente a maior de todos os tempos. Ele também destacou que as valuations subiram de forma acentuada conforme os investidores perceberam que se trata de um setor com uma necessidade de longo prazo.
Essa mudança de perspectiva abriu uma janela enorme para startups e empresas de tecnologia que antes não teriam chance de competir com os gigantes do setor. O capital de risco, que historicamente evitava defesa por questões éticas, regulatórias e de ciclo longo de retorno, passou a enxergar uma oportunidade concreta de entrar num mercado que, de repente, começou a funcionar com a velocidade e a lógica do mundo tech.
Empresas conseguindo fechar contratos em meses, pilotar protótipos diretamente em zonas de conflito e iterar rapidamente com base em feedback real — isso é exatamente o tipo de dinâmica que o ecossistema de startups entende muito bem.
Os investimentos que estão chegando agora não são motivados apenas por patriotismo ou por pressão geopolítica. Existe uma lógica financeira muito sólida por trás disso. Governos europeus, pressionados pela OTAN a aumentar seus gastos militares, estão criando uma demanda previsível e de longo prazo por tecnologia de defesa. Isso dá aos fundos de venture capital uma visibilidade de receita que dificilmente encontram em outros setores. É uma combinação poderosa: urgência geopolítica somada à previsibilidade de contratos governamentais. 💰
Drones e autonomia: as apostas mais quentes do setor
Se existe um símbolo dessa nova era da tecnologia de defesa, esse símbolo tem hélices. Os drones militares e sistemas autônomos estão concentrando boa parte dos aportes registrados em 2026, e por boas razões. A capacidade de operar sem colocar vidas humanas em risco direto, aliada ao custo muito mais baixo de fabricação e operação quando comparado a aeronaves tripuladas, tornou esses sistemas praticamente indispensáveis em qualquer doutrina militar moderna.
A Anduril Industries, com sede no Vale do Silício e conhecida por seus drones e torres de vigilância, é o exemplo mais emblemático desse boom. A empresa quase dobrou sua avaliação para US$ 61 bilhões em uma rodada de US$ 5 bilhões no mês passado, com investidores como Thrive Capital e Andreessen Horowitz entre os participantes. Sozinha, a Anduril respondeu por quase metade do total de capital levantado por startups americanas do setor em 2026.
Outras startups americanas também se destacaram. A Saronic Technologies, especializada em embarcações autônomas de superfície, e a Shield AI, fabricante de drones aéreos, também levantaram capital expressivo nesse período.
O que está alimentando os investimentos nesse segmento vai além da demanda imediata dos conflitos. Há uma corrida tecnológica acontecendo em paralelo, onde o domínio da autonomia em ambientes hostis pode definir quem vai liderar contratos militares pelos próximos 20 anos. A inteligência artificial aplicada a sistemas de defesa, especialmente em navegação autônoma, reconhecimento de alvos e tomada de decisão em tempo real, está no centro dessa disputa.
Thomas Preuss, diretor de investimentos do fundo de defesa tech do grupo DTCP, observou que embora o mercado esteja bastante movimentado, o superaquecimento se concentra em nichos como drones aéreos. Segundo ele, ainda existem oportunidades significativas em áreas como sistemas marítimos autônomos e satélites.
Embarcações autônomas entram no radar dos investidores
Além dos drones aéreos, as embarcações autônomas também estão ganhando cada vez mais espaço nas conversas de capital de risco. O conflito no Golfo aguçou o interesse em tecnologia de defesa marítima de forma bastante concreta.
A startup britânica Kraken Technology, cujas embarcações autônomas de caça a minas foram selecionadas pela Marinha Real britânica para operação no Estreito de Ormuz, está buscando levantar cerca de US$ 100 milhões com uma avaliação próxima de US$ 1 bilhão, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto. A empresa está trabalhando com assessores do PJT Partners no processo. Tanto a Kraken quanto o PJT se recusaram a comentar.
A guerra no Mar Negro já havia demonstrado como sistemas navais não tripulados podem ser extraordinariamente eficazes e muito mais difíceis de detectar e neutralizar do que embarcações convencionais. Isso abriu um novo segmento de interesse para os investidores, com startups focadas em drones de superfície e submarinos autônomos recebendo atenção e recursos que até pouco tempo atrás seriam inimagináveis fora dos laboratórios das marinhas de guerra. 🤖
O boom é americano, mas a Europa está correndo atrás
Os dados deixam claro que o boom atual é fortemente concentrado nos Estados Unidos. Das startups americanas vieram US$ 11,4 bilhões do total de US$ 12,3 bilhões captados, embora a Anduril tenha respondido por quase metade desse valor sozinha.
Já as startups europeias de defesa tech completaram rodadas no valor de US$ 460 milhões em 2026, segundo os dados da PitchBook. Porém, esse número exclui vários grandes financiamentos que ainda estão em andamento.
Por muitos anos, o centro de gravidade dos investimentos em tecnologia de defesa estava claramente nos Estados Unidos. Silicon Valley ditava as regras, os contratos do Pentágono eram o grande prêmio, e a Europa ficava num papel bem mais secundário. Mas os conflitos próximos às suas fronteiras mudaram o cálculo europeu de forma profunda.
Países como Alemanha, França, Reino Unido e as nações bálticas passaram a investir ativamente no desenvolvimento de um ecossistema local de defesa tech, criando fundos dedicados, simplificando regulações para startups do setor e estabelecendo parcerias para acelerar o desenvolvimento de tecnologia militar.
Alemanha se torna um polo surpreendente de startups de defesa
Berlim, em particular, virou um polo surpreendente de startups de defesa. A Alemanha, que historicamente tinha uma relação bastante cautelosa com gastos militares por razões históricas bem conhecidas, deu uma guinada significativa na sua política de defesa.
A Helsing, startup alemã de drones com inteligência artificial que conta com o apoio de Daniel Ek, fundador do Spotify, estava em maio levantando US$ 1,2 bilhão com uma avaliação de cerca de US$ 18 bilhões, conforme reportado pelo Financial Times. Outro grupo alemão, a Stark, também está em negociações para captar pelo menos € 300 milhões, avaliando a fabricante de drones kamikaze em aproximadamente € 2,5 bilhões.
Benoit Fosseprez, sócio-geral do grupo de investimentos AVP, que recentemente lançou um novo fundo europeu de defesa tech de € 500 milhões em parceria com a firma de venture capital Earlybird, afirmou que o mercado está aquecido e que as startups estão endereçando o que corresponde aos orçamentos de longo prazo dos exércitos europeus.
A Advent International, gigante de private equity, anunciou em março planos de destinar até US$ 1 bilhão para tecnologias de defesa de próxima geração. Shonnel Malani, sócio-gestor da Advent, reconheceu que existem preocupações válidas sobre algumas valuations mais altas, mas argumentou que os fatores que sustentam a demanda permanecerão mesmo depois que os conflitos atuais terminarem.
Na visão de Malani, a necessidade de tecnologias e capacidades de defesa é real e não se trata de hype. Ele destacou que existe um conjunto mais sofisticado de tecnologias que podem ser usadas contra nós e que é preciso estar à altura desse desafio.
Empresas de tecnologia espacial também surfam a onda
As empresas de tecnologia espacial, embora excluídas dos dados principais compilados pela PitchBook, também estão se beneficiando desse ciclo. A Iceye, fabricante finlandesa-polonesa de satélites, levantou € 1 bilhão neste mês com uma avaliação de € 10 bilhões, quatro vezes o valor da sua captação anterior, realizada em dezembro.
Essa internacionalização dos investimentos em defesa tech é um fenômeno novo e bastante relevante. Antes, as barreiras regulatórias e de segurança tornavam muito difícil que capital estrangeiro entrasse em empresas de tecnologia militar sensível. Mas a urgência geopolítica está empurrando governos a criar mecanismos mais flexíveis para atrair esse capital sem abrir mão do controle estratégico. 🌍
O debate sobre superaquecimento e sustentabilidade
Com valuations subindo de forma acelerada, crescem também as preocupações de que partes do setor possam estar entrando em um ciclo de hype. Alguns executivos de venture capital levantaram questionamentos sobre a sustentabilidade das receitas de certas empresas caso a guerra na Ucrânia chegue a um fim.
Mas nem todos compartilham dessa visão pessimista. Florian Heinemann, sócio-fundador da Project A Ventures, afirmou que as avaliações não parecem ser exageradas, destacando que há negócios substanciais por trás dessas empresas e uma entrada expressiva de pedidos.
Mikolaj Firlej, sócio-geral e cofundador da Expeditions, um dos maiores fundos de venture capital focados em defesa tech na Europa, apontou que a região tem lacunas sérias de capacidade, especialmente em áreas como inteligência e vigilância. Ele acrescentou que o continente também carece de fabricantes locais de diversos componentes críticos.
Segundo Firlej, a primeira onda de investimentos foi sobre reconstruir o arsenal da Europa para o campo de batalha. Agora, trata-se de garantir a cadeia de suprimentos, desde a linha de frente até os chips que fazem tudo funcionar, sejam sensores, guerra eletrônica ou modelos de IA de fronteira. Na visão dele, a Europa precisa se sustentar com as próprias pernas.
O que esperar dos próximos meses
Com US$ 12,3 bilhões já captados em poucos meses de 2026 e os conflitos globais mostrando poucos sinais de arrefecimento no curto prazo, a tendência é que os números continuem subindo. A pressão sobre os governos para modernizar seus arsenais e adotar tecnologias mais sofisticadas não vai diminuir, e isso cria um ciclo virtuoso de demanda e investimento que deve perdurar por bastante tempo.
Para as startups que estão entrando nesse mercado agora, o momento é de oportunidade clara, mas também de responsabilidade técnica e regulatória muito grande. Desenvolver tecnologia de defesa exige navegar por um ambiente de compliance complexo, lidar com questões éticas sensíveis sobre autonomia em sistemas letais e construir relações de confiança com parceiros governamentais que têm ciclos de decisão muito diferentes dos clientes corporativos convencionais.
As empresas que conseguirem equilibrar inovação rápida com governança sólida são as que têm maior chance de se consolidar nesse mercado e transformar os aportes de capital de risco de hoje em contratos de longo prazo amanhã.
O mercado de drones e sistemas autônomos, em especial, deve continuar sendo o ponto focal dos investimentos nos próximos meses. A demanda por capacidades de reconhecimento, vigilância e resposta rápida está crescendo em praticamente todos os teatros de operação ao redor do mundo, e as soluções baseadas em inteligência artificial estão se mostrando cada vez mais capazes de atender essas necessidades com eficiência e custo menores do que as alternativas tradicionais.
O setor de defesa tech está, de fato, passando por uma transformação profunda — e os bilhões que estão chegando agora são apenas o começo dessa história. 🛸
