Dell saiu do quase esquecimento para faturar US$ 25 bilhões com IA — e agora usa agentes de inteligência artificial até na gestão financeira
A Dell Technologies estava quase sendo riscada do mapa corporativo em 2022, quando suas ações despencaram quase 33% e o mercado parecia ter dado as costas para a empresa. Quem apostaria que, em menos de dois anos, ela construiria um negócio de infraestrutura de Inteligência Artificial do absoluto zero e chegaria à marca impressionante de US$ 25 bilhões?
Pois é, isso aconteceu de verdade. 😮
E os números não param por aí: a receita total da companhia bateu recorde histórico, chegando a US$ 113,5 bilhões, enquanto os pedidos de servidores otimizados para IA ultrapassaram US$ 64 bilhões no último ano fiscal, com um backlog de US$ 43 bilhões esperando para ser entregue.
Mas o que realmente chama a atenção nessa história não é só o tamanho dos números. É como a Dell chegou até aqui e o papel central que a IA está desempenhando dentro da própria empresa, inclusive na gestão financeira do dia a dia, nas mãos do CFO David Kennedy.
A seguir, a gente mergulha fundo nessa virada surpreendente e entende o que está por trás dessa reinvenção em tempo real. 🚀
A virada que ninguém esperava
Para entender o tamanho dessa reviravolta, é preciso voltar um pouco no tempo. Em 2022, a Dell Technologies vivia um momento complicado: o mercado de PCs estava desacelerando, os investidores estavam nervosos e as ações da empresa sofreram uma queda brutal de quase um terço em um único ano. Para muita gente dentro e fora do setor de tecnologia, parecia que a Dell estava perdendo relevância em um mercado cada vez mais dominado por gigantes da nuvem e por empresas nativas de software.
O que mudou o jogo foi uma aposta clara e direta na infraestrutura de Inteligência Artificial. Enquanto outras empresas debatiam estratégias, a Dell foi a campo construir uma linha de produtos e serviços voltados especificamente para suportar as cargas de trabalho que a IA exige — desde servidores de altíssimo desempenho até soluções de armazenamento e rede otimizadas para processar enormes volumes de dados em tempo real.
O resultado dessa aposta ficou visível nos números mais recentes. A receita total da Dell bateu US$ 113,5 bilhões, um recorde histórico para a companhia, enquanto o segmento de infraestrutura de IA saltou do zero para US$ 25 bilhões em um período curtíssimo. Esse crescimento não foi fruto de sorte. Foi o resultado de uma estratégia bem executada, com investimentos consistentes em pesquisa, parcerias estratégicas e uma cadeia de suprimentos capaz de atender a uma demanda que cresceu de forma praticamente exponencial.
David Kennedy: o CFO veterano por trás da transformação
A revista Fortune visitou recentemente o escritório da Dell em Nova York para conversar com David Kennedy, um veterano de 27 anos na companhia que foi confirmado como CFO em novembro de 2025, após atuar como interino. Em uma sala de reuniões com vista para o caos da 34th Street, Kennedy detalhou a performance recorde da gigante de Round Rock, Texas, que ocupa a posição 44 no ranking Fortune 500.
Os números que ele compartilhou são de impressionar qualquer um. Só no quarto trimestre fiscal, a Dell registrou US$ 34 bilhões em pedidos de servidores otimizados para IA, elevando o total anual para US$ 64 bilhões. A receita de servidores de IA nesse mesmo trimestre disparou 342%, atingindo US$ 9 bilhões. E a empresa fechou o ano com um backlog de US$ 43 bilhões ainda por entregar.
Kennedy não escondeu o entusiasmo ao falar sobre o futuro. Segundo ele, o pipeline de oportunidades para os próximos cinco trimestres nunca esteve tão alto. Para o ano fiscal de 2027, a Dell projeta US$ 50 bilhões em receita de servidores otimizados para IA, o que representaria um crescimento de 103% em relação ao ano anterior.
De onde vem tanta demanda?
Uma pergunta natural diante desses números é: quem está comprando tudo isso? Kennedy atribuiu a demanda a três grandes vetores:
- Neo-clouds: provedores de nuvem de nova geração que estão investindo pesado em capacidade computacional para IA.
- IA soberana: governos e organizações que querem manter o controle sobre sua infraestrutura de inteligência artificial, rodando modelos em território nacional.
- Base corporativa da Dell: empresas tradicionais que já eram clientes e agora estão expandindo suas operações com infraestrutura dedicada à IA.
Na visão de Kennedy, existe um sentimento crescente entre as organizações de que ficar de fora da corrida pela IA é um risco cada vez mais perigoso. Ele resumiu assim: o medo de ser deixado para trás está se tornando mais poderoso do que qualquer outro fator de decisão.
Analistas do Bank of America reforçaram essa leitura ao aumentar suas projeções para os servidores de IA da Dell, elevando a estimativa do trimestre corrente para cerca de US$ 15 bilhões e a projeção anual para aproximadamente US$ 60 bilhões, citando demanda acima das expectativas. A Morningstar também revisou para cima sua estimativa de valor justo, destacando que a sustentação da demanda por IA será determinante para o potencial de valorização de longo prazo.
O desafio do fornecimento: a nuvem que paira sobre o céu aberto
Se existe algo que pode frear essa trajetória impressionante, é a oferta de componentes. Kennedy foi direto ao ponto: simplesmente não há componentes suficientes no ecossistema para satisfazer completamente a demanda global por infraestrutura de IA.
No entanto, ele argumenta que os relacionamentos de décadas da Dell com seus fornecedores dão à empresa uma vantagem competitiva significativa na hora de garantir os componentes disponíveis. Diferente de alguns concorrentes, a Dell forneceu guidance completo para o ano fiscal de 2027 — um sinal, segundo Kennedy, de que a empresa tem compromissos firmes de fornecimento para sustentar essas projeções.
Sobre a lucratividade dos servidores de IA, tema que deixa alguns investidores nervosos, Kennedy se mostrou tranquilo. A Dell mira margens operacionais de um dígito médio no negócio de infraestrutura de IA, patamar que vem mantendo de forma consistente. A lógica dele é simples: margens de um dígito médio sobre US$ 50 bilhões representam muitos dólares no fim do dia. 💰
A fábrica de IA: o conceito no centro da estratégia
No coração da estratégia da Dell está o que Kennedy chama de fábrica de IA — uma pilha de infraestrutura completa, de ponta a ponta, construída em torno dos dados. Isso inclui servidores equipados com GPUs desenvolvidos em parceria com a NVIDIA, um negócio de armazenamento em larga escala e sistemas de rede otimizados para cargas de trabalho de IA.
Para Kennedy, tudo gira em torno dos dados. Como gerenciá-los, armazená-los, utilizá-los e distribuí-los de forma eficiente. Ele destacou que a capacidade da Dell de construir, implantar e manter sistemas com uptime superior a 99,9% tem sido um diferencial fundamental para fortalecer o relacionamento com clientes.
A empresa já conta com mais de 4.000 fábricas de IA corporativas implantadas em clientes, com mais de 750 adicionadas apenas no quarto trimestre. Esses números mostram que não estamos falando de projetos piloto ou testes pontuais, mas de implementações em escala real, gerando valor de negócio concreto para organizações de diversos setores.
IA agêntica dentro de casa: como a Dell transforma sua própria operação financeira
Um dos aspectos mais fascinantes dessa história é que a Dell Technologies não está apenas vendendo infraestrutura de IA para outras empresas. Ela está usando ativamente a tecnologia dentro de casa, inclusive nas áreas mais sensíveis do negócio.
Nos últimos dois anos, a Dell investiu na modernização e padronização de seus sistemas internos para preparar o terreno para uma adoção mais ampla de IA. Essa base agora está permitindo à empresa escalar o uso de IA agêntica internamente — ou seja, agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas de forma autônoma, tomando decisões dentro de parâmetros definidos.
Kennedy detalhou como isso funciona na prática dentro da área de finanças:
- Agentes de IA estão realizando reconciliações contábeis e lançamentos de diário.
- Gêmeos digitais foram implementados nas organizações de cadeia de suprimentos e serviços.
- Um modelo interno de chat de vendas com CRM devolveu múltiplas horas por semana à equipe comercial.
O CFO foi ainda mais longe no plano pessoal. Ele incubou uma equipe de cientistas de dados dentro da própria área financeira e construiu agentes proprietários sob o framework de governança interna da Dell. Kennedy usa IA para otimizar sua agenda, automatizar e-mails e fazer análises detalhadas de previsões financeiras por país e segmento de negócio.
O impacto na força de trabalho
A disciplina operacional que acompanhou essa transformação veio com um custo humano. O quadro de funcionários da Dell caiu aproximadamente 10%, cerca de 11.000 colaboradores, no ano fiscal de 2026, de acordo com o registro 10-K da empresa. Essa foi a terceira queda consecutiva de magnitude semelhante. A companhia gastou US$ 569 milhões em indenizações no último ano fiscal.
Segundo o documento regulatório, as reduções decorreram de reorganizações internas, limites na contratação externa e outras medidas de alinhamento de custos ligadas aos esforços de modernização do negócio. A empresa declarou que, apesar dessas decisões difíceis, continua focada em capacitar seus funcionários e atrair, desenvolver e reter talentos.
A visão de Kennedy sobre o impacto da IA na força de trabalho é que a tecnologia redistribui o esforço para atividades de maior valor. Ele destacou que o nível de responsabilidade permanece o mesmo, especialmente no que diz respeito às relações com auditores e reguladores. Na prática, os profissionais estão recebendo ajuda para tomar decisões mais rápidas e com melhor embasamento.
A importância da qualidade dos dados e dos prompts
Kennedy também enfatizou dois pontos fundamentais para quem quer implementar IA agêntica com sucesso. O primeiro é a qualidade dos dados: você é tão bom quanto os dados que possui, então é essencial garantir que eles estejam limpos e organizados. O segundo é a capacidade de direcionar o agente no formato correto, já que um agente de IA quer trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana, e precisa de instruções claras para entregar resultados relevantes. 💡
O que esses números significam para o mercado de tecnologia
A performance financeira da Dell Technologies em torno da Inteligência Artificial não é apenas uma boa notícia para os acionistas da empresa. Ela é um sinal importante sobre a direção que o mercado de tecnologia está tomando de forma mais ampla. Quando uma companhia com décadas de história e um portfólio tão diversificado quanto o da Dell consegue construir um negócio de US$ 25 bilhões em infraestrutura de IA em menos de dois anos, fica claro que a demanda por esse tipo de solução é real, robusta e ainda está longe do seu pico.
Para empresas de todos os portes que ainda estão avaliando se é hora de investir em infraestrutura de IA, o caso da Dell funciona como um termômetro confiável. A escala dos pedidos, o tamanho do backlog e o crescimento da receita da companhia mostram que as organizações que estão saindo na frente são aquelas que já começaram a montar sua capacidade computacional para suportar aplicações de IA, seja no treinamento de modelos próprios, seja na integração de ferramentas de IA em seus processos existentes.
Além disso, os resultados da Dell reforçam algo que muitos especialistas já vinham sinalizando: a infraestrutura é a camada fundamental de toda a cadeia de valor da IA. Sem servidores capazes, sem redes rápidas, sem armazenamento eficiente e sem sistemas integrados de gestão, as aplicações de IA simplesmente não conseguem funcionar com a performance necessária para gerar valor de negócio. Essa percepção está fazendo com que os investimentos em infraestrutura de IA cresçam em uma velocidade muito superior ao que os analistas previam há dois ou três anos.
A Dell como case de uso próprio: credibilidade que vende
Essa postura de ser o próprio case de sucesso tem um valor estratégico enorme. Quando a Dell chega a um cliente e propõe soluções de infraestrutura de IA, ela não está falando de teoria. Está compartilhando experiências reais de implementação, aprendizados concretos e resultados mensuráveis que aconteceram dentro da própria operação.
Isso gera um nível de confiança e credibilidade muito mais alto do que qualquer argumento de venda convencional seria capaz de criar. A empresa está mostrando, na prática, que agentes de IA podem transformar operações financeiras, otimizar cadeias de suprimento e devolver tempo produtivo às equipes. É um diferencial que poucas empresas do setor conseguem replicar com a mesma profundidade e autenticidade.
Com a projeção de US$ 50 bilhões em receita de servidores de IA para o próximo ano fiscal, um pipeline recorde de oportunidades e a aplicação interna cada vez mais sofisticada de IA agêntica, a Dell Technologies está escrevendo um dos capítulos mais surpreendentes da história recente da tecnologia. De empresa dada como ultrapassada a protagonista da corrida pela infraestrutura de inteligência artificial — uma transformação que pouquíssimas companhias do seu tamanho conseguiram realizar em tempo real. 🎯
