O campus da Genentech em South San Francisco não é só um endereço corporativo.
É o ponto de partida de uma história que começou com rabiscos em guardanapos e que, cinco décadas depois, segue redesenhando os limites do que a ciência consegue fazer.
Fundada em 1976 a partir de um encontro improvável entre o cientista Herbert Boyer e o investidor Robert Swanson, a Genentech se consolidou como a empresa que praticamente inventou a biotecnologia moderna, abrindo caminho para tratamentos que hoje salvam milhões de vidas.
Mas cinquenta anos é tempo suficiente para o mundo mudar bastante, e a empresa sabe disso melhor do que ninguém.
Hoje, com Ashley Magargee no comando e a inteligência artificial entrando de vez nos laboratórios, a Genentech está no meio de uma das transformações mais ambiciosas da sua história. 🚀
Não se trata apenas de adotar novas tecnologias por modismo.
O que está em jogo é repensar desde a disposição física das bancadas nos labs até o plano mestre de expansão do campus para os próximos 50 anos, tudo isso com um investimento bilionário da Roche como combustível.
A pergunta que fica no ar é: como uma empresa que nasceu de três horas de conversa e alguns desenhos em papel se prepara para os próximos 50 anos em um mundo dominado por dados, algoritmos e descobertas em velocidade de máquina?
É exatamente isso que vamos explorar aqui. 👇
Uma empresa que nasceu grande antes mesmo de saber que seria
Para entender o tamanho do que está acontecendo agora na Genentech, vale dar alguns passos atrás e lembrar de onde tudo veio. O próprio começo já é quase uma lenda. Quando o venture capitalist Robert Swanson ligou para o especialista em DNA recombinante Herbert Boyer propondo abrir uma empresa, o cientista nem estava convencido de que valia a pena o encontro. Boyer topou dar apenas dez minutos de atenção. Os dois se encontraram em um bar chamado Churchill’s e, três horas depois, já tinham vários desenhos rabiscados em guardanapos. Foi dali que nasceu tudo.
A aposta inicial era um conceito que a maioria da comunidade científica achava improvável: usar bactérias geneticamente modificadas para produzir proteínas humanas em escala. O trabalho de Boyer para transformar bactérias em verdadeiras fábricas de insulina levou à aprovação do Humulin em 1982, medicamento que acabou licenciado para a Eli Lilly. Esse momento não foi apenas um marco para a empresa, foi o início de uma indústria inteira, a biotecnologia como a conhecemos hoje. Desde então, a biotecnologia deixou de ser uma ideia distante para se tornar um setor maduro, cheio de recursos e fervilhando de ideias. Novas startups surgem praticamente todo dia, e o campus da Genentech em South San Francisco está cercado por empresas menores, muitas delas fundadas por ex-funcionários da própria Genentech, como Denali Therapeutics, Alumis e Alector.
A partir dali, a Genentech foi construindo um portfólio de descobertas que realmente a diferenciou. O grande salto veio com os anticorpos para o tratamento de câncer, como Rituxan, Herceptin e Avastin, que começaram a ser aprovados no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000. Esses produtos colocaram o campus de South San Francisco no mapa como um dos endereços mais importantes da medicina global.
Desde que a Roche adquiriu o controle total da empresa em 2009, em uma operação de 47 bilhões de dólares, a Genentech opera com uma autonomia bastante incomum para uma subsidiária de um grupo farmacêutico desse porte. Essa independência não é acidental, é estratégica. A Roche entendeu que a cultura de inovação que faz a Genentech funcionar depende de um ambiente onde cientistas têm espaço para arriscar, errar e tentar de novo. Esse arranjo permitiu que a empresa mantivesse seu ritmo de pesquisa e desenvolvimento mesmo depois da aquisição, continuando a atuar como um dos principais motores de P&D da Roche, que é uma das maiores farmacêuticas do mundo.
É dentro desse contexto de independência preservada e legado de inovação que Ashley Magargee assumiu o papel de CEO em 2024. Curiosamente, ela não é alguém de fora. Magargee começou a carreira na própria biotech há mais de duas décadas, na área de acesso ao mercado em oncologia. Sobre a cultura da casa, ela resume de um jeito bem direto: seja rigoroso na ciência, seja rigoroso na inovação, mas não se leve muito a sério. A ideia é garantir um ambiente realmente colaborativo e inclusivo. Para ela, mesmo depois de toda a jornada que incluiu a compra pela Roche, a identidade central da Genentech permanece intacta.
Inteligência Artificial dentro dos laboratórios: o que muda na prática
Falar que uma empresa está usando inteligência artificial virou quase um clichê, mas no caso da Genentech, o que está acontecendo vai bem além de um chatbot interno. A empresa está integrando modelos de IA diretamente nos fluxos de pesquisa e desenvolvimento, o que significa que algoritmos estão sendo usados para prever como moléculas vão se comportar antes mesmo de qualquer experimento físico acontecer. Isso tem um impacto enorme no tempo e no custo do desenvolvimento de novos medicamentos. Historicamente, levar uma droga da descoberta até a aprovação regulatória pode durar mais de uma década. Como a própria Magargee resume, a questão não é fazer IA pela IA. É conseguir descobrir e desenvolver o melhor medicamento possível sem gastar dez anos descobrindo o medicamento errado. 🧬
Boa parte dessa virada está ligada à chegada de Aviv Regev, uma bióloga computacional que entrou na Genentech em 2020 para liderar a unidade de pesquisa e desenvolvimento inicial, a gRED. Regev vem defendendo uma estrutura de pesquisa baseada em um conceito que ela chama de laboratório em loop, alimentado por IA. Essa transição também veio acompanhada de mudanças na liderança científica, incluindo a saída de nomes experientes como os vice-presidentes Vishva Dixit, Man-Wah Tan e Todd McDevitt, dentro de uma reestruturação da gRED. Questionada sobre essas perdas de talento, Magargee foi enfática ao dizer que a parte da identidade da Genentech não está mudando. O que muda são as ferramentas que os cientistas podem usar. Segundo ela, a tecnologia complementa a enorme capacidade científica da casa, sem substituí-la nem alterá-la.
As iniciativas de IA e automação laboratorial da Genentech incluem parcerias com gigantes da tecnologia, como a fabricante de chips Nvidia e a Anthropic. A colaboração com a Anthropic, por exemplo, envolveu testar como os agentes de IA da empresa podem operar o ensaio de proteína BCA da Genentech. E dessa experiência saiu uma descoberta curiosa: a disposição horizontal típica das bancadas de laboratório, necessária para que um humano alcance os equipamentos, pode não ser mais tão indispensável assim quando quem opera é uma máquina.
Como Magargee explicou, a ciência de bancada sempre foi um processo da esquerda para a direita, e as bancadas são horizontais há cem anos justamente porque o fluxo de trabalho segue essa lógica. Agora, a empresa está estudando quanto do espaço físico do laboratório deveria realmente ser horizontal e quanto poderia ser vertical. Parece detalhe, mas num ambiente onde o tempo e o espaço são recursos caríssimos, repensar isso pode representar ganhos reais. A localização da Genentech, encravada na baía entre São Francisco e o Vale do Silício, dá à empresa acesso fácil às gigantes de tecnologia que estão na linha de frente dessa transformação. 💡
O campus do futuro: espaço, design e os próximos 50 anos
Se tem uma coisa que diferencia a abordagem da Genentech neste momento é que a transformação não está sendo pensada só no nível digital. O icônico campus de South San Francisco está passando por uma reforma profunda, e Magargee agora supervisiona um plano mestre que olha para os próximos 50 anos. A premissa é bastante simples: o ambiente físico onde as pessoas trabalham importa tanto quanto as ferramentas que elas usam. 🏗️
Uma das partes centrais da primeira fase desse plano é tirar os cientistas da parte baixa do campus, perto da água, e levá-los para um novo centro da gRED, mais central. A construção está prevista para acontecer entre 2027 e 2033. A ideia principal por trás da mudança é melhorar a conexão e a colaboração entre os pesquisadores. O projeto é tão amplo e aberto que ainda não existe nem um número definido de fases. Magargee faz questão de elogiar a visão de longo prazo da Roche, que incentiva a empresa a fazer tudo de maneira altamente sustentável.
Essa reformulação do campus faz parte de um investimento de 50 bilhões de dólares que a farmacêutica suíça anunciou nos Estados Unidos, por volta da mesma época em que outras grandes farmacêuticas também fizeram novos compromissos no país. Entre as iniciativas da Roche está ainda a abertura de um novo Centro de Inovação em Boston, dentro do Enterprise Research Campus de Harvard. Segundo Magargee, essa localização coloca os cientistas no coração de uma das comunidades de pesquisa mais dinâmicas do mundo, combinando conhecimento profundo em biologia de doenças com o poder da IA e da ciência de dados para acelerar descobertas.
A CEO reconhece que parte dos 50 bilhões é um reempacotamento de investimentos que já estavam em andamento, mas destaca que também houve decisão específica de fazer novos aportes nos Estados Unidos. O motivo, segundo ela, é a primazia americana em termos de talento científico e de manufatura, além de garantir produção e suprimento robustos para os pacientes do país.
O campus guarda lembranças constantes de sua história. Há abelhas cuidadas por funcionários da Genentech, que se autodenominam gBees, zumbindo entre as flores perto de um centro de saúde e fitness em formato circular, uma homenagem a uma antiga lojinha de donuts que ficava ali antes da expansão da primeira empresa de biotecnologia do mundo. E há também uma famosa estátua de bronze que recria a cena de Boyer e Swanson sentados à mesa, no encontro que começou tudo. Os funcionários costumam colocar moedas nas xícaras seguradas pelos fundadores, em busca de boa sorte.
O pipeline que empolga a liderança
A oncologia continua sendo uma área âncora para a Genentech, ao lado de hematologia, neurociência, imunologia e oftalmologia. Mas Magargee também está determinada a levar a empresa para novos territórios, como doenças cardiovasculares, renais e metabólicas. Para ela, o que funciona melhor é se manter dedicado e focado em uma área de doença, entender profundamente a biologia por trás dela e construir moléculas que atuem de forma precisa contra ela, investindo de ponta a ponta, desde a pesquisa inicial até o paciente.
Entre os ativos que mais animam a CEO estão duas pequenas moléculas que já estão sob análise do FDA. Uma delas é o giredestranto, um degradador seletivo de receptor de estrogênio por via oral, que aguarda uma decisão da agência para o fim de novembro como tratamento adjuvante em câncer de mama inicial HR+. Apesar de ter falhado surpreendentemente em um estudo de primeira linha em câncer de mama metastático, a Roche e a Genentech ainda enxergam um potencial enorme no produto. Curiosidade: o nome giredestranto vem justamente da unidade gRED da empresa.
A outra molécula que empolga Magargee é o fenebrutinibe, um inibidor de BTK que está sendo encaminhado para aprovação em esclerose múltipla, ainda que tenha enfrentado algumas preocupações relacionadas à segurança. Além dessas, ela cita o trontinemabe, um anticorpo projetado para atravessar a barreira hematoencefálica e tratar a doença de Alzheimer. Como ela mesma reconhece, a neurociência e o Alzheimer são áreas realmente difíceis, e essa molécula parece ter potencial real de mudar os desfechos clínicos para pacientes que precisam desesperadamente de alternativas.
A combinação de inteligência artificial com um plano de expansão física pensado em décadas coloca a Genentech numa posição única: é uma empresa que olha para o futuro sem ignorar o peso e o valor do que já construiu.
Magargee apresentou essas perspectivas de pipeline debaixo de um banner que mostra Lamar, um paciente com linfoma tratado com sucesso pelo biespecífico Columvi, aprovado em 2023. Lamar estava gravemente doente antes de entrar em um ensaio clínico, e a foto dele funciona como um lembrete constante para os cientistas da empresa não se acomodarem. A mensagem que ele deixa, segundo Magargee, é clara: é preciso ter senso de urgência, porque existem pessoas que dependem desses estudos clínicos. É preciso empurrar a ciência cada vez mais rápido.
O que está acontecendo em South San Francisco não é uma ruptura com o passado. É uma continuidade inteligente, onde cada nova ferramenta, cada metro quadrado novo do campus e cada modelo de inteligência artificial incorporado ao pipeline de pesquisa e desenvolvimento serve ao mesmo propósito que motivou Boyer e Swanson naquela conversa de três horas em 1976: encontrar formas melhores de tratar doenças e melhorar a vida das pessoas. A biotecnologia mudou muito desde então, e a Genentech mudou junto, mas o norte continua o mesmo. E isso, no fim das contas, é o que torna essa história tão interessante de acompanhar. 🔬
