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Americanos adotam a inteligência artificial, mas com um olhar desconfiado

A inteligência artificial chegou na vida dos americanos de um jeito que poucos esperavam — rápido, silencioso e, ao mesmo tempo, cercado de dúvidas. Uma nova pesquisa do Pew Research Center, publicada em junho de 2026, revelou um cenário no mínimo curioso: enquanto o uso de chatbots praticamente explodiu nos últimos dois anos, o ceticismo sobre o que essa tecnologia pode fazer com a sociedade cresceu na mesma proporção.

É aquele paradoxo clássico — as pessoas usam, mas não confiam muito no que estão usando.

E o dado que chama atenção não é só o crescimento dos números. É o fato de que os jovens, que são exatamente quem mais usa IA no dia a dia, também são os que mais acreditam que ela vai trazer consequências negativas para o futuro. Então, o que essa pesquisa está nos dizendo de verdade? Que o impacto social da IA já não é mais uma discussão teórica — ela está acontecendo agora, com milhões de pessoas, e o debate sobre seus riscos mal começou. 🤖

O crescimento dos chatbots em números

O levantamento do Pew Research Center mostrou que 49% dos adultos americanos agora usam chatbots como ChatGPT, Gemini ou Copilot. Esse número saltou de forma expressiva — há apenas dois anos, apenas um terço das pessoas havia utilizado esse tipo de ferramenta. Cerca de um quarto dos americanos já recorre a chatbots diariamente, algo que seria considerado improvável para uma tecnologia tão recente. O crescimento foi puxado especialmente pela facilidade de acesso, pela gratuidade de muitas dessas plataformas e pela curiosidade natural que qualquer tecnologia nova desperta — especialmente quando ela consegue conversar, criar e resolver problemas de forma surpreendentemente fluida.

Segundo Anton Dahbura, especialista em IA e codiretor do Instituto Johns Hopkins para Autonomia Assegurada, esse número é bastante significativo para as empresas que produzem esses produtos.

Esse tipo de número robusto sugere que a IA está oficialmente no mainstream, afirmou Dahbura.

Em termos de plataformas específicas, o ChatGPT lidera com folga. Mais de quatro em cada dez americanos disseram que já usaram a ferramenta da OpenAI, tornando-a o chatbot mais utilizado. Na sequência aparecem o Google Gemini com 24%, o Microsoft Copilot com 17% e o Meta AI com 14%. Ferramentas como o Grok de Elon Musk, o Claude da Anthropic e o Character.ai ficaram abaixo de 10% de adoção cada uma.

Mas existe um detalhe importante nesse cenário de adoção acelerada: usar não significa confiar. A mesma pesquisa apontou que uma parcela significativa dos usuários regulares de chatbots demonstra preocupações sérias sobre a confiabilidade das informações geradas por essas ferramentas. Erros factuais, alucinações — que é quando a IA simplesmente inventa dados com uma confiança absurda — e a falta de transparência sobre como esses sistemas funcionam são pontos que pesam bastante na percepção das pessoas. Ou seja, a adoção cresceu, mas a relação entre o usuário e a ferramenta ainda está longe de ser uma relação de plena confiança. 📊

Para que os americanos usam chatbots

A pesquisa também detalhou como essas ferramentas estão sendo utilizadas na prática. Entre os entrevistados que usam chatbots, os principais usos são:

  • Busca por informações: 42% dos usuários recorrem a chatbots para pesquisar temas diversos
  • Tarefas de trabalho: 38% entre os que estão empregados usam IA para atividades profissionais
  • Entretenimento: cerca de 25% utilizam chatbots para se divertir
  • Criação ou edição de imagens e vídeos: proporção similar à de entretenimento
  • Conselhos médicos ou informações sobre dieta e fitness: cerca de 20% dos usuários
  • Consumo de notícias: menos de 15% usam chatbots como fonte de informação jornalística
  • Suporte emocional: 10% dos americanos relataram usar chatbots para conversas de cunho pessoal

Dahbura fez um alerta específico sobre essa última categoria. Ele recomendou cautela em relação à dependência excessiva e à confiança mal direcionada nos chatbots, especialmente quando se trata de apoio emocional. Ferramentas de IA não têm consciência, não têm empatia real e não carregam nenhuma responsabilidade sobre o bem-estar de quem as utiliza.

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O perfil de quem usa e quem não usa

O perfil de uso varia bastante dependendo da faixa etária. A pesquisa mostrou que dois terços dos americanos entre 18 e 29 anos usam chatbots, assim como 61% das pessoas entre 30 e 49 anos. Já entre os maiores de 50 anos, a maioria ainda não utiliza essas ferramentas. Adultos com ensino superior tendem a usar chatbots com mais frequência e para finalidades mais complexas, como pesquisa, escrita profissional e análise de dados. Já os mais jovens utilizam de maneira mais ampla e variada — desde entretenimento até suporte emocional, passando por tarefas acadêmicas.

Esse recorte é importante porque ajuda a entender melhor por que o ceticismo e o uso intenso coexistem tão tranquilamente na mesma geração.

Ceticismo que cresce junto com o uso

Um dos achados mais intrigantes da pesquisa do Pew é justamente essa convivência aparentemente contraditória entre adoção em massa e desconfiança crescente. Segundo os dados, 40% dos americanos acreditam que a inteligência artificial terá um impacto negativo sobre a sociedade nas próximas duas décadas, contra apenas 16% que enxergam um impacto positivo. Outros 31% acreditam que o efeito será neutro, e o restante simplesmente não tem certeza.

E entre os jovens de 18 a 29 anos — aqueles que mais usam chatbots no dia a dia — o pessimismo é ainda maior. 48% dos americanos nessa faixa etária esperam que a IA tenha um impacto negativo sobre a sociedade. Isso quebra um pouco aquela narrativa de que quem usa mais, confia mais. Na prática, parece que quanto mais as pessoas interagem com a IA, mais elas percebem suas limitações e os riscos que ela carrega no longo prazo.

Os americanos mais velhos são menos propensos a prever um resultado negativo, mas também são mais propensos a se sentirem inseguros sobre o que está por vir.

Eu acho que os americanos estão reconhecendo corretamente que a IA pode ser usada para o bem ou para propósitos nefastos, disse Dahbura. E é inteligente da parte deles estarem preocupados no ambiente em que vivemos agora, onde basicamente vale tudo.

As principais preocupações dos americanos

As preocupações levantadas pelos entrevistados giram em torno de eixos bem definidos. No que diz respeito ao emprego, o medo de que chatbots e sistemas de inteligência artificial substituam funções humanas aparece de forma consistente nas respostas — e não é um medo infundado, considerando que empresas ao redor do mundo já estão reestruturando equipes justamente por causa da automação.

Sobre a desinformação, a preocupação é ainda mais imediata. Dahbura destacou que ameaças como deepfakes simplesmente não existiam há poucos anos e hoje já representam um problema concreto. Com a facilidade de gerar textos, imagens e até vídeos falsos usando IA, o potencial para manipulação de narrativas em escala nunca foi tão alto.

E a privacidade fecha o trio de preocupações. 71% dos americanos esperam que a IA torne suas informações pessoais menos seguras, segundo o levantamento. Dahbura disse que os americanos estão sendo perspicazes ao reconhecer essas ameaças à segurança de dados.

Quase dois terços dos entrevistados acreditam que a IA está avançando rápido demais. E essa também é uma preocupação legítima na ausência de barreiras efetivas de proteção.

Provavelmente existem mais efeitos colaterais da IA por vir que nem pensamos ainda, acrescentou Dahbura. 🔍

A IA está acontecendo com as pessoas, não apenas para elas

Dahbura fez uma observação que resume bem o momento atual. Ele destacou que os americanos provavelmente estão interagindo com inteligência artificial muito mais do que imaginam, levando em conta a presença dessa tecnologia em dispositivos domésticos, chamadas telefônicas, assistentes virtuais, termostatos inteligentes, câmeras de segurança e muito mais.

A IA está acontecendo com a gente, disse Dahbura. Essa é, eu acho, a melhor forma de colocar.

A pesquisa do Pew confirma essa percepção ao mostrar que 96% dos americanos já ouviram ou leram algo sobre inteligência artificial — um aumento de 11 pontos percentuais nos últimos quatro anos. A consciência sobre o que são chatbots especificamente também cresceu em relação a dois anos atrás. O tema deixou de ser nicho e se tornou parte da conversa cotidiana.

As preocupações sobre IA — seja no ambiente doméstico, no trabalho ou na escola — já não são hipotéticas, como Dahbura enfatizou. Os números de uso da pesquisa mostram que elas estão impactando milhões de pessoas no aqui e agora. Os americanos encontram IA sem nem tentar, praticamente todos os dias.

A questão da regulação: confiança em baixa

Se há algo que a pesquisa deixou especialmente claro é que os americanos não confiam que o governo vai dar conta de regular essa tecnologia de forma adequada. Mais de dois terços dos entrevistados disseram não ter confiança na capacidade do governo de regular a IA de maneira eficaz.

E Dahbura considerou essa preocupação justa.

Sim, com certeza, ele disse. E especialmente quando se leva em conta a influência da indústria de IA, não parece particularmente bom que consumidores e indivíduos serão protegidos no futuro próximo.

Ele observou que as barreiras de proteção são insuficientes, com apenas um punhado de estados americanos tendo tomado a iniciativa de legislar sobre o assunto por conta própria. Esse vácuo regulatório é preocupante justamente porque a tecnologia não para de evoluir, e os riscos se multiplicam na mesma velocidade — ou mais rápido — do que a capacidade das instituições de reagir a eles.

O impacto social da IA já é uma realidade

A discussão sobre o impacto social da inteligência artificial costumava ser tratada como algo do futuro — um problema que a humanidade precisaria resolver em algum ponto lá na frente. Mas a pesquisa do Pew Research Center deixa claro que esse futuro já chegou, e ele chegou sem muito aviso. Com metade dos adultos americanos já tendo interagido com algum tipo de chatbot de IA, os efeitos dessa tecnologia sobre comportamentos, relacionamentos, mercado de trabalho e até saúde mental já são observáveis no presente.

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Profissionais de saúde relatam pacientes que preferem conversar com chatbots antes de buscar atendimento médico real. Professores lidam diariamente com trabalhos gerados por IA. Jornalistas competem com sistemas que produzem conteúdo em segundos. Esse é o impacto real, concreto e já em curso.

Outro ponto que merece atenção é a questão da desigualdade no acesso e nos benefícios da IA. Enquanto usuários com maior escolaridade e renda conseguem extrair vantagens competitivas reais dessas ferramentas — seja para aumentar produtividade, seja para aprender novas habilidades de forma mais rápida — populações com menos acesso à tecnologia ficam de fora desse ganho. Isso cria um risco real de aprofundamento de desigualdades já existentes. O debate sobre democratização da IA, portanto, não é só tecnológico — ele é profundamente político e social.

Vale lembrar também que um relatório recente apontou que quase 9 em cada 10 crianças nos Estados Unidos já utilizam algum tipo de IA, levantando preocupações sobre dependência educacional e emocional entre os mais jovens. Esse é um desdobramento que adiciona mais uma camada de complexidade ao cenário.

A IA pode ser positiva, mas a confiança vai demorar

Apesar do tom predominantemente cauteloso, Dahbura reconheceu que a inteligência artificial pode ser algo positivo para a sociedade no balanço geral. Ele apontou avanços significativos em áreas como desenvolvimento de software, medicina e outras que já estão se beneficiando enormemente da tecnologia.

Mas ele não espera que os americanos comecem a confiar na IA tão cedo.

Eu acho que vai ser um caminho turbulento pela frente, a menos que adotemos um caminho estratégico e pensado, não apenas em escala nacional, mas realmente internacional, porque a tecnologia não respeita fronteiras de países, disse Dahbura.

Essa fala resume bem a tensão que marca o momento atual. A tecnologia está correndo, os benefícios são reais, mas os riscos também são — e a infraestrutura de governança, regulação e debate público simplesmente não está acompanhando o ritmo. 🧠

O que fica dessa pesquisa

O retrato que a pesquisa Pew apresenta é o de uma sociedade que já atravessou a fase da curiosidade com a inteligência artificial e está começando a lidar com as perguntas difíceis que vêm depois. O uso cresceu, as ferramentas melhoraram, os chatbots ficaram mais sofisticados — mas o ceticismo também cresceu, e ele não é fruto de ignorância. Pelo contrário, parece que quanto mais as pessoas conhecem a IA, mais elas entendem que ela precisa de limites, de regulação e de um debate público muito mais honesto do que o que temos visto até agora.

O impacto social dessa tecnologia vai continuar se desdobrando nos próximos anos de formas que ainda não conseguimos prever com precisão. Mas uma coisa a pesquisa já deixou bem clara: a conversa sobre IA não pode ficar restrita a laboratórios, empresas de tecnologia e especialistas. Ela precisa chegar nas escolas, nas comunidades, nas políticas públicas e, principalmente, nas mãos das pessoas que já estão usando essas ferramentas no dia a dia — com ou sem plena consciência do que isso significa. 💡

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