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Inteligência Artificial e Japão formam uma combinação que, há alguns anos, pareceria improvável para muita gente.

O país famoso por manter máquinas de fax em repartições públicas e carimbos de borracha como assinatura oficial virou, quase da noite para o dia, um dos mercados mais quentes do planeta para tecnologia de IA. Essa transformação não aconteceu por acaso e nem foi planejada com aquela precisão típica do planejamento corporativo japonês. Ela foi empurrada por uma necessidade real, urgente e que não tem solução fácil: a falta de gente para trabalhar.

E no centro dessa virada está um personagem inusitado: Devin-kun, o apelido carinhoso que engenheiros japoneses deram ao agente de software da Cognition AI. O sufixo kun em japonês é reservado para colegas próximos, geralmente mais jovens ou de posição similar. Ou seja, a comunidade técnica do Japão não está tratando esse agente de IA como uma ferramenta, mas como alguém do time. Segundo Russell Kaplan, presidente da Cognition AI, houve até um debate na comunidade sobre qual seria o honorífico correto para o Devin, e a conclusão foi justamente esse apelido afetuoso. Isso diz muito sobre o que está acontecendo por lá 🇯🇵

Mas por trás desse apelido simpático existe uma história bem mais complexa, que mistura demografia em colapso, infraestrutura digital envelhecida e uma aposta bilionária de empresas americanas no mercado asiático. Para entender como o Japão chegou até aqui e o que a adoção do Devin-kun revela sobre o futuro do trabalho em tecnologia, é preciso olhar para alguns números que assustam qualquer ministério do planejamento.

O problema que nenhuma contratação resolve

O Japão tem hoje a população mais envelhecida do mundo, com quase 30% dos seus habitantes acima dos 65 anos. E a projeção não é nada animadora: estima-se que a população em idade ativa vá encolher mais de 30% entre agora e 2060. Esse fenômeno, conhecido como shrinking workforce, já é sentido em praticamente todos os setores da economia japonesa, mas na tecnologia o impacto é ainda mais visível porque a demanda por profissionais qualificados só aumenta enquanto o número de pessoas disponíveis para ocupar essas posições cai. Não é exagero dizer que o Japão enfrenta uma crise de workforce sem precedentes na era digital.

Os números do próprio governo japonês colocam o tamanho do desafio em perspectiva. Em 2023, o Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI) estimou que o país enfrentaria uma escassez de 789 mil engenheiros de software até 2030. É gente demais faltando para um setor que não para de crescer, e nenhuma campanha de contratação, por mais agressiva que seja, consegue produzir profissionais qualificados na velocidade necessária para fechar esse buraco.

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Para piorar o cenário, boa parte da infraestrutura digital japonesa ainda roda em sistemas legados que datam das décadas de 1980 e 1990. Bancos, seguradoras, órgãos governamentais e até grandes varejistas operam com arquiteturas antigas que precisam ser mantidas, atualizadas e eventualmente migradas para ambientes modernos. Esse trabalho exige profissionais experientes em linguagens e plataformas que os jovens programadores simplesmente não aprendem mais. O gap entre o que o mercado precisa e o que a força de trabalho disponível consegue entregar virou um problema crônico que o governo japonês tenta resolver há anos com incentivos, reformas educacionais e programas de requalificação, todos com resultados parciais e insuficientes diante da magnitude do desafio.

Foi nesse contexto que a Inteligência Artificial deixou de ser uma curiosidade tecnológica para se tornar uma resposta concreta a uma necessidade existencial. Como resumiu Kaplan, as necessidades são reais, especialmente em infraestrutura crítica e governo, com o país rodando em sistemas envelhecidos e uma força de trabalho em declínio. E quando o Devin, da Cognition AI, apareceu no mercado como um agente capaz de executar tarefas de desenvolvimento de software de forma autônoma, a recepção no Japão foi entusiasmada de um jeito que surpreendeu até os próprios criadores do produto.

Cognition AI e o agente que virou colega de trabalho

A Cognition AI é uma startup americana com sede em San Francisco, fundada em 2023, que rapidamente ganhou atenção ao apresentar o Devin, descrito pela empresa como um verdadeiro colega de time em engenharia de software. O produto não é apenas um assistente de codificação que completa linhas de código ou sugere funções, como fazem ferramentas como o GitHub Copilot. O Devin foi construído para entender um problema, planejar a solução, escrever o código, testar, identificar erros e implantar o resultado de forma autônoma, tudo isso dentro das próprias ferramentas que a equipe de engenharia já usa no dia a dia. Ele foi um dos primeiros exemplos daquilo que muita gente começou a chamar de funcionário de IA, um agente integrado a plataformas como o Slack, ao qual dá para atribuir tarefas sem precisar ficar mandando comando atrás de comando.

O apetite do mercado japonês por essa tecnologia é impressionante. De acordo com Kaplan, o Japão foi o primeiro ou o segundo país mais popular em termos de engajamento de usuários da empresa como um todo. Por isso a Cognition AI escolheu o Japão como o primeiro passo da sua expansão pela Ásia, abrindo um escritório em Tóquio em abril, com planos de transformar Singapura na sede da região Ásia-Pacífico ainda este ano.

Os resultados práticos ajudam a explicar o entusiasmo. Diante de uma exigência nacional de conformidade em TI, o governo da cidade de Sapporo precisou modernizar mais de um milhão de linhas de código legado, um trabalho que, segundo Kaplan, normalmente exigiria cerca de 200 meses de esforço de engenharia. Usando o Devin, os engenheiros de Sapporo concluíram a tarefa em aproximadamente um quarto desse tempo. É esse tipo de ganho de eficiência que faz o Japão parecer o campo de provas ideal para engenharia de software movida a IA.

Quando esse agente chegou ao mercado japonês, algo interessante aconteceu. Em vez de ser recebido com a resistência que muitas tecnologias ocidentais encontram ao tentar penetrar na cultura de trabalho japonesa, conhecida por seus rituais, hierarquias e formas muito específicas de colaboração, o Devin foi incorporado ao vocabulário afetivo das equipes de engenharia. O apelido Devin-kun não é apenas uma curiosidade cultural fofa. Ele sinaliza que esses profissionais estão genuinamente integrando o agente ao fluxo de trabalho da equipe, atribuindo a ele um papel relacional, não apenas funcional. E quando um grupo de pessoas começa a tratar uma tecnologia como membro do time, a adoção tende a ser muito mais orgânica, duradoura e profunda do que qualquer campanha de implementação corporativa conseguiria produzir. 🤖

A aposta do Japão na IA americana

O caso da Cognition AI não é isolado. O Japão virou a porta de entrada preferida das empresas americanas de IA que miram expansão global. Tanto a OpenAI quanto a Anthropic escolheram Tóquio para abrir seus primeiros escritórios internacionais. Gigantes como Microsoft e Alphabet comprometeram bilhões de dólares em data centers no país. A Microsoft, por exemplo, anunciou um investimento de 10 bilhões de dólares em infraestrutura de IA e cibersegurança em solo japonês.

Enquanto países como Coreia do Sul e Singapura fazem da chamada IA soberana uma prioridade nacional, o Japão parece mais confortável em apostar na IA americana, resultado dos investimentos e das relações próximas do país com os laboratórios de IA dos Estados Unidos. Como observou Kaplan, o Japão investiu de forma desproporcional em trabalhar lado a lado com empresas americanas para influenciar os roadmaps desses produtos e atender às necessidades domésticas locais. Não é coincidência que um dos maiores investidores da OpenAI seja a Softbank, a gigante japonesa de telecomunicações comandada pelo entusiasta de tecnologia Masayoshi Son.

Há ainda um efeito colateral positivo dessa integração: a IA pode ajudar o Japão a conectar seus sistemas digitais com o resto do mundo. Kaplan apontou que a baixa proficiência em inglês historicamente gerou certo isolamento para algumas empresas japonesas. Mas a natureza multilíngue da IA vai derrubando essa barreira. Um engenheiro japonês pode trabalhar inteiramente em japonês com o Devin enquanto colabora, por meio do agente, com equipes do outro lado do planeta.

O que muda no trabalho de quem programa

Uma das perguntas mais comuns quando se fala em agentes de Inteligência Artificial capazes de escrever código é a mais óbvia: os programadores vão perder o emprego? No contexto japonês, essa pergunta ganha uma camada extra de complexidade porque o problema não é excesso de programadores, é justamente o contrário. A escassez de profissionais de tecnologia no Japão é tão severa que ferramentas como o Devin-kun não chegaram para substituir ninguém, chegaram para preencher vagas que simplesmente não têm candidatos humanos suficientes para ocupar.

Em outros mercados, porém, o cenário é mais tenso. Para alguns investidores, as ferramentas de codificação da Cognition AI representam uma ameaça existencial a programadores e engenheiros de software, especialmente em países como a Índia, tradicional polo de trabalho de back-office. A ideia de agentes de IA fazendo esse mesmo trabalho por uma fração do custo abalou o mercado, e ações de gigantes como Infosys, Wipro, Tata Consultancy Services e HCLTech chegaram a cair entre 30% e 40% no período de doze meses.

Kaplan, no entanto, não parece preocupado com a capacidade da Índia de se adaptar. Segundo ele, o trabalho de um engenheiro pode se tornar mais divertido e impactante, com profissionais que antes atuavam sozinhos em partes específicas de um projeto ganhando promoções para liderar times inteiros de agentes de IA. As empresas que trabalham com a Cognition, disse ele, estão usando os ganhos de produtividade para se tornarem mais ambiciosas.

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A expansão da empresa pela Ásia também revelou mercados surpreendentes. A Malásia, com sua capital Kuala Lumpur, se tornou um polo regional de engenharia de software, impulsionado por uma grande base de talentos que fala inglês, custos operacionais menores e proximidade com o resto do Sudeste Asiático. Kaplan descreveu os engenheiros que sua equipe encontrou por lá como alguns dos mais habilidosos do mundo em gerenciar agentes de IA, tanto que a Cognition lançou por lá um programa de engenharia de IA aplicada para identificar e treinar os melhores profissionais. Coreia do Sul e Austrália também estão no radar da empresa como possíveis mercados de expansão.

Na prática, o que engenheiros japoneses relatam é que o agente da Cognition AI está assumindo as tarefas mais tediosas e repetitivas do dia a dia de desenvolvimento, como refatoração de código antigo, escrita de testes automatizados, documentação e correção de bugs simples, liberando os profissionais humanos para se concentrarem nas partes do trabalho que realmente exigem criatividade, julgamento contextual e conhecimento profundo do negócio. Esse modelo de divisão de trabalho entre humano e agente de IA não é novo como conceito, mas o Japão está sendo um dos primeiros mercados a aplicá-lo em escala real, em projetos de produção, com resultados documentados e em contextos de alta exigência técnica.

Outro aspecto importante dessa transformação é o efeito que ela tem sobre o conceito de workforce em tecnologia. Se um agente de IA consegue executar com qualidade uma fração significativa das tarefas de um desenvolvedor júnior ou pleno, o que muda não é apenas a quantidade de pessoas necessárias para entregar um projeto, mas também o perfil dessas pessoas. As empresas japonesas que estão na vanguarda dessa adoção já começam a redesenhar seus processos de contratação, treinamento e avaliação de desempenho para levar em conta a presença dos agentes de IA como parte permanente do fluxo de trabalho. Não se trata mais de contratar alguém que sabe escrever código, mas de contratar alguém que sabe trabalhar com um agente que escreve código. Essa mudança de perspectiva é sutil, mas tem implicações enormes para como as carreiras em tecnologia vão se desenvolver nos próximos anos, não só no Japão, mas no mundo inteiro.

Vale destacar que essa febre de adoção acontece em meio a um crescimento explosivo da própria Cognition. No fim de maio, a startup levantou mais de 1 bilhão de dólares em uma rodada de investimento que avaliou a empresa em 26 bilhões de dólares, mais que dobrando o valuation de uma rodada anterior. A receita anualizada da companhia saltou de apenas 37 milhões de dólares para 492 milhões em apenas um ano. E como o poder de processamento, o famoso compute, é um recurso finito com demanda dobrando a cada sete semanas, ter equipes espalhadas pelo mundo virou até vantagem operacional: quando é dia de trabalho no Japão, é madrugada em Nova York, o que permite usar a capacidade de processamento em horários de menor pico.

O que o Japão está vivendo hoje com a adoção da Inteligência Artificial no setor de tecnologia é, em muitos aspectos, um experimento natural que o resto do mundo vai observar com atenção. As condições únicas do país, a crise demográfica, a infraestrutura legada, a cultura de trabalho colaborativa e a abertura surpreendente para tecnologias que resolvem problemas concretos, criaram um ambiente onde a integração entre humanos e agentes de IA está avançando de forma orgânica e acelerada. E o fato de que os engenheiros por lá escolheram chamar esse agente de Devin-kun talvez seja o indicador mais honesto de que essa integração já passou da fase de experimento para a fase de convivência. 🚀

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