Especialista do MIT alerta: automatizar vagas de entrada da Gen Z pode sair muito caro para as empresas
A inteligência artificial está redesenhando o mercado de trabalho em uma velocidade que poucos conseguiam imaginar há alguns anos. E no meio desse furacão tecnológico, surge uma questão que vai além dos números de emprego e desemprego: o que acontece quando as empresas começam a automatizar justamente as vagas que formam os profissionais do futuro?
Essa é a pergunta que Andrew McAfee, pesquisador do MIT e co-líder da Initiative on the Digital Economy, está colocando na mesa. E a resposta dele pode surpreender muita gente no mundo corporativo.
Segundo McAfee, cortar as contratações de entrada por causa da automação não é só uma decisão arriscada para o curto prazo. É uma estratégia que pode comprometer seriamente a competitividade das empresas nos próximos anos. 🤔
E o cenário fica ainda mais interessante quando a Geração Z entra na conversa. Essa geração não é só mais uma leva de candidatos disputando vagas. Ela é, hoje, a geração que mais utiliza ferramentas de IA no ambiente profissional. Cerca de 76% dos jovens da Gen Z relataram usar alguma ferramenta independente de IA, o maior índice entre todas as gerações, de acordo com um estudo da Deloitte.
Então, o que está acontecendo de verdade com o mercado de trabalho para jovens talentos, quem está nadando na contramão e o que isso significa para o futuro das empresas que apostam em IA? Vem com a gente. 🚀
O problema real com o corte de vagas de entrada
Quando uma empresa decide substituir funções iniciais por automação, ela até consegue reduzir custos operacionais no curto prazo. Parece uma equação simples: menos contratações, menos folha de pagamento, mais margem. Mas Andrew McAfee argumenta que essa lógica ignora um fator absolutamente crítico para o crescimento saudável de qualquer organização: o pipeline de desenvolvimento de talentos.
As vagas de entrada, muitas vezes vistas como posições menores ou de baixo valor estratégico, são exatamente onde os futuros líderes, especialistas e tomadores de decisão de uma empresa aprendem como as coisas funcionam na prática, desenvolvem visão sistêmica e constroem as bases do conhecimento que vão carregar por toda a carreira.
Em entrevista ao Harvard Business Review, McAfee foi bem direto sobre isso:
Como as pessoas vão aprender a fazer o trabalho senão pelo aprendizado prático, treinamento e modelo de aprendizagem no emprego? É assim que se aprende trabalho complexo de conhecimento: ajudando alguém que já domina o assunto com as tarefas rotineiras. E quando colocamos automação demais nisso rápido demais, perdemos essa escada de aprendizado.
O raciocínio de McAfee parte de uma observação bastante concreta sobre como o conhecimento corporativo se propaga dentro das organizações. Um analista júnior que passa dois ou três anos processando dados, interagindo com clientes, apoiando equipes e entendendo os processos internos acumula um tipo de inteligência organizacional que nenhum sistema automatizado consegue replicar. Essa pessoa aprende o contexto, aprende os erros históricos da empresa, aprende a cultura. E quando ela cresce dentro da organização, carrega tudo isso consigo.
Quando você elimina essas posições, não está apenas economizando um salário. Está interrompendo o ciclo natural de formação de profissionais que entendem profundamente o negócio.
Além disso, existe um efeito colateral que muitas empresas só percebem tarde demais. Ao reduzir drasticamente as contratações de empregos de nível inicial, as organizações acabam criando um vácuo geracional dentro das suas equipes. Daqui a cinco ou dez anos, quando os profissionais seniores de hoje começarem a se aposentar ou a migrar para outras oportunidades, as empresas vão olhar para os lados e perceber que simplesmente não há uma geração intermediária pronta para assumir esses papéis. E aí, o custo de remediar esse gap vai ser infinitamente maior do que qualquer economia gerada pela automação dessas vagas iniciais. 😬
A Gen Z e a inteligência artificial: uma relação mais profunda do que parece
A Geração Z, nascida entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2010, cresceu em um mundo onde a tecnologia não era uma novidade. Era o ambiente. Essa geração não precisou aprender a usar smartphones, redes sociais ou ferramentas digitais como se fossem idiomas estrangeiros. Elas eram a língua nativa. E quando a inteligência artificial generativa começou a ganhar escala, especialmente com o boom de ferramentas como o ChatGPT e similares, a Gen Z foi a primeira a incorporar essas tecnologias na rotina de trabalho de forma orgânica, sem o peso da resistência ou da desconfiança que muitas vezes aparece em gerações anteriores.
McAfee, que também é cofundador da Workhelix, uma startup focada em ajudar empresas a entenderem o retorno sobre investimento em IA, destacou esse ponto com clareza:
Existe uma grande queda demográfica no uso de IA. Conforme as pessoas ficam mais velhas, tendem a ficar mais presas aos seus hábitos e menos dispostas a experimentar coisas radicalmente novas como a IA. Então, se você está reduzindo suas contratações de nível inicial, provavelmente está sacrificando futuras oportunidades de aprendizado e os profissionais qualificados do futuro. Também está fechando a torneira dos usuários mais entusiastas e avançados de IA dentro da sua organização.
Dados recentes de pesquisas globais sobre o uso de IA no ambiente profissional confirmam essa percepção. Os trabalhadores mais jovens, especialmente aqueles com menos de 30 anos, são os que mais utilizam ferramentas de inteligência artificial no dia a dia, seja para redigir e-mails, analisar dados, criar apresentações, automatizar tarefas repetitivas ou até mesmo para apoiar decisões estratégicas. Isso coloca a Gen Z em uma posição bastante singular: eles são ao mesmo tempo os mais ameaçados pela automação nas vagas de entrada e os mais capacitados para trabalhar ao lado dessas mesmas ferramentas.
O paradoxo aqui é real e merece atenção. As empresas que estão cortando empregos de nível inicial justamente porque a IA pode executar essas tarefas estão, na prática, abrindo mão de contratar os profissionais que melhor sabem como usar a IA. A Gen Z não só usa essas ferramentas com naturalidade, ela sabe como extrair valor delas, sabe quando confiar nos outputs e quando questionar, sabe como integrar a IA no fluxo de trabalho de forma produtiva. Esse tipo de fluência tecnológica é exatamente o que as empresas dizem que querem, mas muitas estão inadvertidamente afastando ao fechar as portas para os talentos mais jovens do mercado. 🤖
Um mercado de trabalho cada vez mais difícil para os jovens
Para muitos jovens profissionais, o alerta de McAfee não é apenas teoria. É algo que já estão vivendo na pele. O mercado de trabalho para posições iniciais ficou significativamente mais apertado nos últimos anos.
Segundo o relatório Class of 2026 Network Trends, da plataforma Handshake, as publicações de vagas focadas em posições de entrada caíram 2% em relação ao ano anterior e estão 12% abaixo dos níveis pré-pandemia. Enquanto isso, a taxa de desemprego para graduados entre 22 e 27 anos está em 5,6%, segundo dados do Federal Reserve de Nova York.
A ansiedade é crescente. Quase nove em cada dez formandos da turma de 2026 estão preocupados com a possibilidade de a IA ou a automação substituir vagas de entrada. Esse número subiu de forma expressiva em relação aos 64% registrados em 2025, de acordo com pesquisa da Monster.
Algumas vozes do setor de tecnologia intensificaram esses temores. Dario Amodei, CEO da Anthropic, por exemplo, já repetiu diversas vezes que a inteligência artificial pode eliminar até metade de todos os empregos de colarinho branco no nível de entrada.
O cenário parece preocupante, mas existe um contraponto importante. Dados históricos sugerem que trabalhadores jovens podem ser mais resilientes do que imaginam. Uma análise recente do Goldman Sachs descobriu que jovens trabalhadores com formação universitária tendem a experimentar perdas salariais aproximadamente metade do tamanho das de outros profissionais deslocados na década seguinte à perda do emprego. Eles também são mais propensos a trocar de ocupação e migrar para funções que complementam novas tecnologias, em vez de competir com elas.
O relatório do Goldman Sachs afirmou que, contrariando as preocupações atuais de que os custos da IA vão pesar especialmente sobre recém-formados, os trabalhadores mais jovens historicamente conseguiram se ajustar de forma mais flexível por meio de mobilidade ocupacional e atualização de habilidades.
Grandes empresas de tecnologia que estão apostando em talentos de entrada
Nem toda empresa está recuando nas contratações de jovens profissionais. Alguns grandes players estão indo exatamente na direção contrária, apostando que profissionais em início de carreira serão essenciais para construir e escalar a inteligência artificial dentro das suas operações.
IBM triplicando contratações de nível inicial
A IBM anunciou que vai triplicar suas contratações de nível inicial, com o objetivo de construir habilidades mais duráveis e gerar maior valor de longo prazo. Arvind Krishna, CEO da IBM, foi enfático sobre o assunto ao declarar que a empresa esperava contratar mais pessoas recém-saídas da faculdade nos próximos 12 meses do que havia contratado nos últimos anos.
Salesforce contratando mil novos graduados
Marc Benioff, CEO da Salesforce, anunciou que a empresa está contratando mil novos graduados e estagiários para ajudar a construir seus sistemas de IA. Benioff foi direto nas redes sociais ao comentar que disseram que a IA mataria os empregos de entrada, enquanto, na prática, esses graduados e estagiários estão justamente construindo a IA, impulsionando projetos como Agentforce e Headless360 dentro da Salesforce.
Amazon mantendo o pipeline de talentos jovens
Até a Amazon, que enfrentou escrutínio por ter demitido milhares de trabalhadores nos últimos anos, está mantendo seu pipeline de jovens talentos. A gigante da tecnologia planeja trazer 11 mil estagiários de engenharia de software em 2026, em linha com os anos anteriores. Matt Garman, CEO da AWS, afirmou que a empresa está contratando tantos desenvolvedores de software quanto sempre contratou e que, na verdade, a demanda por esses profissionais está acelerando.
Esses exemplos mostram que existe um entendimento crescente entre as grandes empresas de que investir em talentos de nível inicial não é um custo a ser cortado. É um investimento estratégico que vai determinar a capacidade da organização de inovar e competir no cenário da IA nos próximos anos.
O que as empresas estão fazendo de errado e como corrigir o rumo
O grande equívoco de muitas organizações está em enxergar a automação e a contratação de jovens talentos como variáveis opostas numa equação de custo, quando na verdade elas deveriam funcionar como forças complementares dentro de uma estratégia de crescimento. Automatizar tarefas repetitivas e de baixo valor agregado faz todo o sentido do ponto de vista operacional. O problema começa quando essa lógica é aplicada de forma indiscriminada, eliminando não apenas as tarefas, mas também as oportunidades de aprendizado e desenvolvimento que acompanham essas funções.
Uma coisa é usar IA para ajudar um analista júnior a trabalhar com mais eficiência. Outra, bem diferente, é usar IA para eliminar a existência desse analista júnior.
As organizações que estão acertando nesse equilíbrio são aquelas que tratam a inteligência artificial como uma ferramenta de amplificação de capacidade humana, e não como substituta. Elas contratam profissionais da Gen Z sabendo que esses jovens já chegam com fluência em IA e então investem em programas estruturados de desenvolvimento que combinam essa habilidade tecnológica com o conhecimento profundo do negócio que só o tempo e a experiência prática podem construir.
O resultado é uma geração de profissionais que não só sabe usar as ferramentas mais modernas do mercado, mas também entende o contexto em que essas ferramentas precisam ser aplicadas para gerar valor real.
McAfee deixa claro que o caminho não é ignorar a automação. Até porque isso seria impossível e contraproducente. O caminho é ser inteligente sobre quais funções fazem sentido automatizar e quais funções existem não apenas para produzir um resultado imediato, mas para formar as pessoas que vão conduzir a empresa nos próximos anos. Essa distinção parece sutil, mas faz toda a diferença entre uma empresa que cresce de forma sustentável com a IA e uma empresa que economiza no curto prazo e acorda, alguns anos depois, sem saber quem vai tocar o barco. 🎯
O futuro dos talentos no mercado movido por IA
O mercado de trabalho está passando por uma transformação que não tem precedente claro na história recente. A velocidade com que a inteligência artificial está avançando e sendo integrada nos processos corporativos não deixa muito espaço para hesitação, mas também não perdoa decisões tomadas sem a devida reflexão estratégica. E quando o assunto são os empregos de entrada e os jovens talentos da Geração Z, a decisão de automatizar ou contratar precisa levar em conta muito mais do que uma planilha de custos de RH.
O que pesquisadores como McAfee estão sinalizando é que as empresas precisam adotar uma visão de longo prazo sobre o que significa construir uma força de trabalho competitiva na era da IA. Isso inclui entender que os jovens que entram hoje no mercado de trabalho, com toda a sua fluência digital e familiaridade com ferramentas de inteligência artificial, são um ativo estratégico que vai se valorizar com o tempo, desde que recebam as condições certas para crescer e desenvolver seu potencial dentro das organizações.
É interessante observar que as vagas de nível inicial costumam ser as menos custosas para as empresas. No entanto, como McAfee argumenta, cortá-las arrisca comprometer tanto a eficiência de custos quanto o desenvolvimento da força de trabalho no longo prazo. É um daqueles casos em que economizar no lugar errado acaba custando muito mais caro.
A automação veio para ficar, e a Gen Z sabe disso melhor do que qualquer outra geração. O que está em jogo agora não é uma batalha entre humanos e máquinas pelo mercado de trabalho. Essa narrativa já ficou para trás. O que está em jogo é a capacidade das empresas de construir equipes onde humanos e IA trabalham juntos de forma inteligente. E para isso acontecer, as organizações precisam de talentos que cresceram nesse mundo.
Fechar a porta para esses profissionais, justamente agora, pode ser um dos erros mais caros que uma empresa comete nessa virada de era. 💡
