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A ascensão da Nscale no mercado global de infraestrutura para IA

A inteligência artificial continua movimentando cifras astronômicas ao redor do mundo, e o caso mais recente envolve uma empresa que provavelmente ainda não apareceu no seu radar. A Nscale, companhia britânica especializada em data centers e fundada em 2024, acabou de captar nada menos que 2 bilhões de dólares em uma rodada de investimentos liderada pela Nvidia. Com esse novo aporte, a empresa saltou para uma avaliação de mercado de 14,6 bilhões de dólares, um número que impressiona por si só, mas que ganha ainda mais peso quando a gente entende o contexto por trás dessa operação.

O que chama atenção nessa história vai muito além dos números. Josh Payne, CEO da Nscale, tem uma trajetória que parece roteiro de série. Ele largou a escola e começou a carreira trabalhando em minas de carvão na Austrália durante três anos. Depois passou por negócios online — vendendo suplementos de proteína e eletrônicos —, montou uma plataforma de recrutamento para trabalhadores da construção civil australianos, entrou no mercado de energia renovável e até se envolveu com mineração de criptomoedas antes de encontrar seu lugar no mercado de infraestrutura computacional para inteligência artificial. Essa bagagem diversificada parece ter dado a ele uma visão única sobre como construir uma empresa capaz de atender a demanda crescente por poder de processamento que o setor de IA exige atualmente.

A lista de clientes da Nscale já é um indicador claro de que a empresa está jogando na primeira divisão. A Microsoft, gigante de Redmond, é hoje a maior parceira comercial da companhia. Além disso, nomes como OpenAI e ByteDance — a empresa por trás do TikTok — também figuram entre os clientes atendidos. Jensen Huang, CEO da Nvidia, chegou a presentear Payne com uma garrafa de Johnny Walker depois de fechar um contrato com a Nscale no ano passado. Quando três das maiores forças do ecossistema de IA do planeta escolhem a mesma fornecedora de infraestrutura, fica difícil ignorar o que está acontecendo ali.

De minerador de carvão a CEO bilionário: a trajetória de Josh Payne

A história de Josh Payne merece um capítulo à parte porque ela é um retrato perfeito de como o boom da inteligência artificial está criando oportunidades para perfis completamente fora do padrão do Vale do Silício. Payne conta que seu interesse por empreendedorismo nasceu durante os intervalos no trabalho na mina de carvão, quando lia livros como The 4-Hour Work Week. Essa inquietação o levou a experimentar diversos negócios online até que, cerca de cinco anos atrás, ele se encantou pelo universo dos data centers enquanto trabalhava com investidores que financiavam projetos de energia renovável na Austrália.

Foi nessa época que Payne descobriu que as regiões árticas do norte da Noruega tinham acesso a uma das fontes de energia renovável mais baratas da Europa — energia hidrelétrica que custa cerca de 3 centavos de dólar por quilowatt-hora, contra uma média de aproximadamente 20 centavos no restante do continente. Em 2022, ele embarcou em um voo de mais de 24 horas de Sydney para Oslo e, duas semanas depois, saiu de lá com uma carta de intenção para adquirir um projeto que, naquela época, era uma operação de mineração de Bitcoin.

Quando o ChatGPT foi lançado no final de 2022, o interesse por data centers explodiu globalmente. Mas a grande virada de Payne veio mesmo no ano passado, quando ele conseguiu uma reunião com a Microsoft. Essa conversa se transformou na maior parceria comercial da Nscale, envolvendo projetos conjuntos na Noruega, Portugal, Reino Unido e Texas. Saindo de uma mina de carvão na Austrália para liderar uma empresa avaliada em quase 15 bilhões de dólares em poucos anos — é o tipo de história que só parece possível em momentos de transformação tecnológica profunda como o que estamos vivendo agora.

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O papel da Microsoft e os investimentos bilionários em data centers

A relação entre Microsoft e Nscale merece um olhar mais atento porque ela revela muito sobre como as grandes empresas de tecnologia estão estruturando suas operações de inteligência artificial. O acordo, estimado pela Bloomberg em cerca de 23 bilhões de dólares, não é apenas um contrato de prestação de serviços — é uma aposta estratégica da Microsoft em diversificar sua base de infraestrutura. A empresa de Satya Nadella já investe pesado em seus próprios data centers ao redor do mundo, mas a demanda por capacidade computacional para treinar e rodar modelos de IA está crescendo em um ritmo que nem mesmo as big techs conseguem acompanhar sozinhas.

É nesse vácuo que empresas como a Nscale se posicionam. Elas fazem parte de uma nova geração de provedores de data centers conhecidos como neoclouds, que assumem o risco financeiro de construir a infraestrutura massiva necessária para a IA enquanto as grandes empresas de tecnologia podem avaliar como a demanda evolui antes de se comprometerem com seus próprios projetos caríssimos. Outras empresas nesse mesmo segmento incluem a CoreWeave, com sede em Nova Jersey, a Nebius em Amsterdã e a IREN em Sydney.

O modelo funciona mais ou menos assim: a Microsoft e outras gigantes firmam contratos com neoclouds como a Nscale para adquirir poder computacional de forma rápida, transferindo parte de seus passivos para essas parceiras. É uma estratégia que permite às big techs terem acesso imediato à capacidade que precisam sem arcarem sozinhas com todo o investimento inicial em construção e equipamentos. Para a Nscale, isso significa receita garantida por contrato. Para a Microsoft, significa flexibilidade operacional.

No entanto, o acordo também carrega riscos significativos. Se a Microsoft decidir que não precisa mais da Nscale quando o contrato vencer, Payne terá que encontrar outro cliente gigante para absorver toda aquela infraestrutura, incluindo 200 mil chips de IA da Nvidia. O prazo médio dos contratos da Nscale é de cerca de cinco anos e meio, segundo o próprio CEO, embora ele não tenha divulgado os termos específicos do acordo com a Microsoft.

Conselho de peso: Sheryl Sandberg e outros executivos de elite

Outro movimento que reforça a credibilidade da Nscale é a entrada de Sheryl Sandberg no conselho da empresa. A ex-COO da Meta é uma das executivas mais respeitadas do setor de tecnologia no mundo, e sua presença traz não apenas experiência em gestão de operações globais, mas também uma rede de contatos que pode abrir portas importantes para a companhia britânica. Sandberg foi apresentada a Payne por um headhunter no final do ano passado e disse ter feito uma análise detalhada do negócio da Nscale antes de aceitar o convite.

Em entrevista, Sandberg comparou a visão e a ambição do jovem CEO com as de seu antigo chefe, Mark Zuckerberg. Ela reconheceu que existem riscos envolvidos, mas afirmou que seu papel no conselho é justamente usar a experiência que acumulou para ajudar Payne a navegar esses desafios. A escolha de Sandberg não parece casual — ela construiu sua reputação justamente escalando operações complexas em uma das maiores plataformas digitais do planeta, o que se conecta diretamente com o momento que a Nscale enfrenta agora.

Além de Sandberg, a empresa também trouxe para o conselho Nick Clegg, outro ex-executivo da Meta, e Sue Decker, ex-executiva do Yahoo. Oyvind Eriksen, CEO da Aker — uma das maiores empresas industriais da Noruega — também integra o board depois de ter sido contatado por Payne via LinkedIn. Eriksen disse acreditar que a Nscale pode sobreviver a eventuais turbulências do mercado graças ao acesso a capital, energia barata e confiável e contratos que ajudam a cobrir os custos de construção e aquisição de semicondutores. Ele foi ainda mais longe, sugerindo que a empresa poderia até adquirir concorrentes em dificuldade quando uma eventual correção de mercado acontecer.

Os riscos e desafios por trás do crescimento acelerado

Por mais empolgante que esse cenário pareça, é importante colocar algumas questões na mesa. O crescimento acelerado da Nscale acontece em um mercado que está sendo inflado por expectativas enormes em relação à inteligência artificial, e nem todas essas expectativas necessariamente vão se concretizar no curto prazo. A própria empresa já acumula obrigações financeiras consideráveis. No mês passado, a Nscale assumiu 1,4 bilhão de dólares em dívidas, incluindo empréstimos da Blue Owl, uma firma de Wall Street que tem enfrentado escrutínio por práticas de empréstimos consideradas arriscadas. Antes disso, em setembro, a empresa já havia levantado outros 1,1 bilhão de dólares com investidores.

Para os próximos cinco anos, a Nscale estima que precisará de mais de 45 bilhões de dólares para seus projetos de data centers ao redor do mundo. São empreendimentos em andamento no Reino Unido, Islândia, Noruega, Portugal, Texas e uma localização ainda não anunciada no Sudeste Asiático. A capacidade energética total prevista gira em torno de 5,5 gigawatts, o equivalente ao consumo de aproximadamente cinco milhões de residências nos Estados Unidos. São números que impressionam, mas que também mostram a escala dos compromissos que a empresa está assumindo.

Investidores globais mais cautelosos já enxergam sinais de uma possível bolha no mercado de IA. O argumento é que, mesmo que a inteligência artificial seja uma tecnologia transformadora de longo prazo, empresas jovens estão gastando bilhões sem um caminho claro para gerar retorno. Elas constroem instalações projetadas para durar mais de 15 anos, mas frequentemente têm contratos que cobrem apenas cerca de cinco anos. O fundo de hedge Man Group alertou em um relatório recente que a questão não é se a bolha de IA vai estourar, mas quando isso vai acontecer.

Payne rebate essas preocupações dizendo que a Nscale só constrói data centers em locais onde já tem clientes confirmados. Ele também aposta na diversificação da base de clientes como uma estratégia de proteção, mencionando que governos europeus estão buscando parceiros de tecnologia não americanos para colaborar em projetos de IA — um cenário geopolítico que pode favorecer uma empresa sediada em Londres.

A questão energética e a sustentabilidade dos data centers

Data centers voltados para cargas de trabalho de inteligência artificial consomem quantidades massivas de eletricidade, e esse consumo tende a crescer de forma exponencial à medida que os modelos ficam maiores e mais complexos. Governos ao redor do mundo já começam a se preocupar com o impacto ambiental dessa expansão, e regulações mais rígidas podem surgir nos próximos anos.

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Para a Nscale, a experiência prévia de Josh Payne com energia renovável pode ser um diferencial competitivo relevante. A estratégia da empresa de priorizar locais com acesso a energia hidrelétrica barata, como o norte da Noruega e a Islândia, mostra que existe uma preocupação em integrar soluções sustentáveis na operação desde o início. Não é apenas uma questão de responsabilidade ambiental — é também uma vantagem estratégica de longo prazo que pode influenciar decisões de parceiros como a Microsoft, que tem metas ambiciosas de sustentabilidade e precisa demonstrar progresso concreto nessa frente.

Cada megawatt de eletricidade consumido por um data center da Nscale representa um custo de construção de aproximadamente 9 milhões de dólares, segundo o próprio CEO. Multiplicando isso pela capacidade total planejada, fica fácil entender por que a empresa está explorando todas as fontes de capital disponíveis, incluindo a possibilidade de realizar uma oferta pública inicial de ações ainda este ano.

O que esperar do mercado de neoclouds nos próximos anos

A história da Nscale ilustra bem o momento atual do mercado de tecnologia. Os investimentos bilionários em infraestrutura para inteligência artificial estão remodelando o setor em uma velocidade impressionante, criando oportunidades para empresas que conseguem se posicionar no lugar certo e na hora certa. A parceria com a Microsoft, o respaldo da Nvidia, contratos com OpenAI e ByteDance, e a presença de figuras como Sheryl Sandberg no conselho formam uma combinação poderosa.

Mas como qualquer aposta de alto valor, o sucesso depende da execução. O modelo de neoclouds é relativamente novo, e a capacidade dessas empresas de honrar compromissos financeiros massivos enquanto entregam infraestrutura de ponta ainda precisa ser provada ao longo do tempo. CoreWeave, Nebius, IREN e a própria Nscale estão todas apostando que a demanda por poder computacional voltado para IA vai continuar crescendo de forma sustentada. Se essa demanda se confirmar, essas empresas podem se tornar pilares fundamentais da infraestrutura tecnológica global. Se a demanda desacelerar ou os contratos não forem renovados, algumas delas podem enfrentar sérias dificuldades financeiras.

Payne parece confiante. Nas palavras dele, a Nscale está experimentando uma demanda insaciável. E ele acredita que o desequilíbrio entre oferta e demanda é tão grande que a empresa vai conseguir diversificar completamente sua base de clientes nos próximos dois ou três anos. Os próximos meses serão decisivos para entender se a Nscale consegue transformar todo esse capital em infraestrutura real e operante — e se o mercado de data centers para IA vai sustentar o ritmo frenético de crescimento que estamos vendo agora. 🚀

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