Os AI agents já conseguem fazer coisas bem impressionantes: pesquisar fornecedores, comparar preços, organizar entregas e até negociar condições de serviço de forma totalmente autônoma. Eles identificam quem pode entregar uma carga, comparam valores e mandam mensagem para o fornecedor combinando os detalhes da operação.
Mas na hora de pagar a conta, aí a coisa trava. 😬
O motivo é simples e ao mesmo tempo frustrante: toda a infraestrutura financeira que existe hoje foi construída pensando em humanos do outro lado da transação. Os chamados trilhos financeiros, que são a estrutura por trás da movimentação de dinheiro e informação entre bancos, empresas e consumidores, nasceram para operações iniciadas por pessoas. Cartão de crédito, transferência bancária via ACH, autorização de pagamento… tudo isso depende de alguém apertando um botão, assinando algo ou confirmando uma operação. E quando o agente precisa agir sozinho, em velocidade de máquina, esse modelo simplesmente não funciona.
É exatamente aí que entra a Natural, uma startup fundada em 2025 com uma proposta bastante direta: reconstruir os trilhos financeiros do zero, dessa vez pensando nos agentes primeiro. Com US$ 30 milhões recém-captados em uma rodada Series A, a empresa chega ao mercado pronta para enfrentar gigantes como o Stripe e redefinir o que significa fazer um pagamento na era da inteligência artificial. 🚀
O problema real por trás dos pagamentos com AI agents
Quando você pensa em um AI agent moderno, provavelmente imagina algo altamente capaz: ele navega pela internet, lê documentos, envia e-mails, agenda reuniões e até toma decisões complexas com base em dados. Mas existe uma barreira que poucos percebem logo de cara, e que trava praticamente qualquer fluxo autônomo que envolva dinheiro.
Toda vez que um agente precisa concluir uma transação financeira, ele esbarra em sistemas que simplesmente não foram desenhados para lidar com ele. A fricção não é um bug, ela é uma característica estrutural de uma infraestrutura financeira que nasceu décadas atrás, num mundo onde humanos eram os únicos protagonistas possíveis. Sistemas tradicionais como cartões e ACH dependem de autorização humana para cada transação, o que desacelera qualquer agente projetado para operar de forma independente.
Isso significa que, hoje, um agente que precisa pagar por um serviço externo, liquidar uma fatura ou transferir recursos entre contas depende, invariavelmente, de uma intervenção humana em algum ponto do processo. Às vezes é uma confirmação por SMS, às vezes é uma assinatura digital, às vezes é simplesmente uma tela de login. Para um humano, esses mecanismos fazem todo o sentido como camadas de segurança. Para um agente operando de forma autônoma e em escala, cada um desses pontos de fricção é uma interrupção que quebra o fluxo, aumenta a latência e inviabiliza o modelo operacional inteiro.
De onde veio a ideia da Natural
A história da Natural começa mais ou menos um ano antes do lançamento, quando o cofundador e CEO Kahlil Lalji percebeu que os AI agents estavam evoluindo mais rápido do que a arquitetura financeira conseguia acompanhar. Ficou claro para ele que os sistemas atuais não conseguiam dar conta de tarefas como pagar um fornecedor de forma autônoma, receber pagamentos ou permitir que agentes transacionassem entre si.
Curiosamente, Lalji não queria voltar para o setor financeiro. Ele tem formação em bancos e finanças, mas se preparava para lançar uma nova startup justamente tentando fugir dessa área. Sua empresa anterior, a Ivella, um produto bancário e financeiro voltado para casais e apoiado pela Y Combinator, foi vendida em 2023 para a Earnin, onde ele trabalhou como engenheiro por dois anos. Ele contou ao TechCrunch que tinha se machucado com o setor financeiro depois que a era das taxas de juros zero chegou ao fim.
Mesmo assim, ele não conseguiu ignorar a oportunidade. Nas palavras dele, o tema ficava voltando à sua cabeça o tempo todo, porque parecia óbvio que os pagamentos feitos por agentes seriam, estruturalmente, o problema mais importante desse novo espaço. Foi essa convicção que o fez seguir adiante.
Para tirar a ideia do papel, Lalji se juntou a Eric Wang, seu cofundador na Ivella, e a Walt Leung, ex-gerente de engenharia da Nextdoor. Juntos, fundaram a Natural em 2025, posicionando a empresa como uma camada de orquestração de agentes que permite que os AI agents movimentem e armazenem recursos. Ao integrar a infraestrutura da Natural, as empresas podem deixar seus agentes fazerem pagamentos autônomos, receberem valores e transacionarem tanto com humanos quanto com outros agentes.
O que a Natural está construindo, exatamente
A proposta da Natural não é criar mais uma carteira digital ou uma camada de integração sobre o que já existe. A ideia é muito mais ambiciosa: construir uma infraestrutura financeira nativa para agentes, do zero, com toda a lógica de autorização, identidade e execução pensada especificamente para o comportamento de sistemas de inteligência artificial. Isso inclui desde como um agente se autentica para realizar uma transação até como os limites de gasto são definidos, monitorados e ajustados dinamicamente conforme o contexto da operação muda.
Na prática, o que a startup oferece é uma plataforma onde os AI agents podem movimentar dinheiro com permissões bem definidas do que cada agente pode ou não fazer. Um agente de compras pode ter autorização para gastar até um determinado valor por transação, dentro de categorias específicas de fornecedores, com regras automáticas de aprovação para operações fora desse escopo. Tudo isso acontece de forma programática, sem depender de um humano validando cada etapa.
Um ponto interessante é que a Natural não quer apenas ajudar agentes a pagar e finalizar compras em nome de consumidores. A empresa também está tentando reinventar a própria infraestrutura de pagamento, incluindo como transações contestadas, ou seja, aquelas em que há uma disputa, são tratadas. Esse é um detalhe que costuma ser deixado de lado, mas que faz toda a diferença quando você pensa em confiança dentro de um sistema financeiro automatizado.
O investimento que chamou a atenção do mercado
A rodada Series A de US$ 30 milhões foi liderada por Kirsten Green, fundadora e sócia-gerente da firma de venture capital Forerunner. A Forerunner é conhecida por focar em experiências de consumo e no futuro do comércio, e Green se interessou justamente pelas ambições mais amplas da Natural. Com esse aporte, o total captado pela empresa chegou a US$ 40 milhões.
Esse tipo de capital em estágio inicial indica que o mercado já está reconhecendo a urgência do problema, não como uma necessidade futura e especulativa, mas como uma dor presente que empresas reais estão sentindo agora enquanto tentam escalar operações baseadas em automação inteligente. E não é só o dinheiro que reforça a tese: a missão da startup tem atraído profissionais experientes que já passaram por gigantes de fintech como Stripe, Ramp e Square. 💡
Enfrentar o Stripe não é pouca coisa
Qualquer empresa que entra no mercado de pagamentos com ambições de escala vai, inevitavelmente, ser comparada ao Stripe. E com razão: o Stripe é hoje uma das infraestruturas financeiras mais robustas e bem documentadas do mundo, com uma base enorme de desenvolvedores e integrações em praticamente todo ecossistema de software relevante. Dizer que você vai competir com o Stripe é como dizer que vai competir com a gravidade. 😅
Mas a Natural não está tentando ser um Stripe melhor. Ela está apostando que o Stripe, assim como toda a infraestrutura existente, foi otimizado para um paradigma que está sendo superado. Vale lembrar que o próprio Stripe também está correndo para redesenhar seus trilhos de pagamento para os AI agents, o que mostra que a disputa está longe de ser trivial.
Ainda que a Natural tenha operado apenas em fase beta até agora, Lalji afirmou ao TechCrunch que a startup já tomou decisões arquiteturais suficientemente importantes para ter uma boa chance de competir com os incumbentes. A aposta dele é que a velocidade de desenvolvimento da Natural vai permitir que ela ultrapasse os gigantes já estabelecidos e construa a infraestrutura que vai servir como a espinha dorsal financeira dos agentes de IA.
A corrida pelos pagamentos autônomos
Embora a Natural veja o Stripe como seu principal concorrente, ela não está sozinha nessa disputa. Outras startups, como a Skyfire Systems, apoiada pela DCVC, também estão tentando reinventar a base dos pagamentos para agentes de IA, usando stablecoins lastreadas em dólar. A Natural planeja incorporar stablecoins à sua arquitetura, mas sem abrir mão do suporte aos pagamentos bancários tradicionais, buscando um equilíbrio entre inovação e compatibilidade com o sistema atual.
E é aqui que a visão de longo prazo fica realmente interessante. Lalji acredita que o mercado inteiro pode crescer de forma gigantesca se as transações passarem a acontecer na velocidade de um computador, e não na velocidade de um humano. Segundo ele, o número de pagamentos que podem ocorrer no mundo pode ser duas, três ou até quatro ordens de magnitude maior do que o número de pagamentos que existe hoje.
O que está em jogo aqui vai muito além de uma startup buscando seu espaço no mercado de fintechs. Se a tese da Natural estiver correta, e há boas razões para acreditar que está, estamos no começo de uma transformação profunda em como pagamentos funcionam. Uma transformação onde os agentes deixam de ser dependentes de humanos para executar transações e passam a ser participantes de pleno direito no sistema financeiro, com identidade, autonomia e responsabilidade próprias. Isso muda praticamente tudo sobre como pensamos em dinheiro, autorização e confiança no mundo digital.
