Ohio está deixando de ser apenas um estado do interior dos EUA para se tornar um dos polos de tecnologia mais promissores do país. E agora, o estado está construindo uma ponte cada vez mais longa e sólida rumo ao coração da inovação mundial: o Vale do Silício.
Esse movimento ganhou um capítulo importante no dia 19 de agosto, quando mais de 200 pessoas se inscreveram para o primeiro Ohio Tech Night: San Francisco — um encontro que reuniu fundadores, executivos e líderes de desenvolvimento econômico do Ohio com investidores, operadores e ex-moradores do estado que hoje vivem na Bay Area.
Os números dizem bastante coisa: cerca de 70% dos inscritos eram da região de San Francisco, enquanto aproximadamente 25% vieram do Ohio. O evento foi organizado pela OhioX, JobsOhio e Ohio Life Sciences, e aconteceu no Third Coast Foundry, o hub de inovação em San Francisco que a Ohio State e outras oito universidades de pesquisa do Meio-Oeste americano inauguraram no início deste ano.
Mas a história aqui vai muito além de um evento de networking.
O que está acontecendo é uma conexão intencional e estruturada entre dois mundos que, à primeira vista, parecem distantes, mas que têm muito mais em comum do que se imagina. De um lado, o Vale do Silício com sua concentração absurda de capital de risco, talento técnico e empresas de tecnologia. Do outro, um estado que está mostrando, na prática, que inovação de ponta não precisa nascer na Califórnia para chegar lá.
Third Coast Foundry: uma ponte física entre dois mundos
O Third Coast Foundry nasceu exatamente dessa premissa. O espaço de aproximadamente 325 metros quadrados foi aberto em junho, no bairro South Park de San Francisco, oferecendo às startups conectadas à Ohio State e suas universidades parceiras um lugar físico para encontrar investidores e empresas dentro do próprio Vale do Silício.
E olha só o tamanho da coisa: as nove universidades por trás desse esforço somam quase 10 bilhões de dólares em gastos anuais com pesquisa e mais de 300 mil estudantes. É um volume de conhecimento e produção acadêmica que poucos ecossistemas conseguem reunir.
O detalhe mais interessante é que o objetivo não é levar essas startups para a Califórnia. Como resumiu Shereen Agrawal, vice-presidente associada de inovação e empreendedorismo estudantil da Ohio State, o Third Coast Foundry é ao mesmo tempo uma presença física e uma ponte entre a Bay Area e o Meio-Oeste. A ideia é dar às empresas do Ohio um ponto de apoio no Vale, enquanto cria também um motivo para que os próprios ohioanos que já vivem por lá voltem a se conectar com o estado de origem.
Por que o Ohio está no radar da tecnologia agora?
Nos últimos anos, o Ohio passou por uma transformação silenciosa, mas bastante consistente. O estado tem atraído investimentos bilionários em infraestrutura de tecnologia, com destaque para a chegada de grandes data centers e fábricas de semicondutores. Isso não aconteceu por acaso. O Ohio oferece uma combinação difícil de bater: custo de vida acessível, mão de obra qualificada vinda de universidades sólidas, além de incentivos fiscais que tornam o ambiente muito favorável para empresas que querem escalar sem gastar uma fortuna com overhead operacional.
Além disso, o estado tem uma base industrial histórica que, longe de ser um peso, virou um diferencial competitivo. A cultura de fazer as coisas acontecerem — muito presente em cidades como Columbus, Cleveland e Cincinnati — cria um ambiente propício para o empreendedorismo de verdade, aquele que resolve problemas reais e constrói produtos com sustentabilidade. O ecossistema local está amadurecendo em ritmo acelerado, e o Ohio Tech Night foi, de certa forma, um reflexo público desse amadurecimento.
O encontro em San Francisco funcionou como um termômetro claro do interesse que o Ohio desperta em quem está no centro do universo tech. Ver 70% dos inscritos vindo da Bay Area não é um detalhe — é um sinal de que a comunidade do Vale do Silício está prestando atenção, seja por curiosidade genuína, seja porque já enxerga oportunidades concretas de negócio, investimento ou até relocalização.
Upstart: quando o Vale do Silício encontra o Ohio
Um dos melhores exemplos práticos dessa conexão foi apresentado no próprio evento por Grant Schneider, atual CTO da Upstart. A trajetória dele é praticamente um manual de como esses dois mundos podem se somar.
Schneider cresceu no sudeste do Ohio e passou uma década na Ohio State, onde conquistou um Ph.D. em estatística antes de entrar na Upstart, sediada em San Mateo, em 2014, como um dos primeiros engenheiros de machine learning da empresa. Ele retornou à companhia como CTO em fevereiro, depois de já ter liderado toda a área de machine learning da organização.
Mas a parte mais interessante aconteceu em 2018, quando a Upstart pediu a Schneider que ajudasse a encontrar uma localização para a sua segunda sede e operação de pesquisa e desenvolvimento. A empresa avaliou inicialmente cerca de 25 cidades, antes de estreitar a busca para Chicago e Columbus.
E adivinha quem venceu? Columbus.
A Upstart procurava talento técnico, custos mais baixos e uma localização que pudesse complementar — e não substituir — sua sede na Bay Area. Nas palavras do próprio Schneider na época, não era uma situação de abandonar a Bay Area, mas sim de combinar o melhor dos dois mundos. E o escritório de Columbus rapidamente se tornou muito mais do que uma operação de bastidores: um dos primeiros produtos de refinanciamento automotivo da empresa foi construído em cerca de 90% em Columbus, com times locais atuando em engenharia, ciência de dados e machine learning.
A experiência da Upstart virou um daqueles casos que os líderes do Ohio querem replicar cada vez mais: empresas que ganham as vantagens de um grande mercado de tecnologia sem precisar concentrar todo o talento e as operações por lá.
Path Robotics: construído no Ohio, escalado nas costas
Outro exemplo poderoso desse modelo é a Path Robotics, empresa de inteligência artificial física sediada em Columbus. Ao longo de 2026, ela vem avançando cada vez mais dentro da base industrial de defesa dos Estados Unidos.
O movimento mais recente foi um acordo potencial de até 600 milhões de dólares com a Huntington Ingalls Industries (HII), a maior construtora naval militar do país. A HII assinou acordos baseados em performance que somam até 900 milhões de dólares com a Path e com a californiana GrayMatter Robotics, com o objetivo de levar automação habilitada por IA para a construção de navios da Marinha. A Path pode receber até 600 milhões de dólares em trabalho ao longo de sete anos, caso cumpra as metas de desempenho estabelecidas.
E a geografia toda dessa história é fascinante. A HII constrói seus navios em grandes estaleiros na Virgínia e no Mississippi. A tecnologia de robótica da Path está sendo desenvolvida em Columbus. A GrayMatter fica na Califórnia. Ou seja, parte da tecnologia que vai equipar os estaleiros costeiros americanos está sendo construída a centenas de quilômetros do litoral, bem no interior do país. A Path, aliás, também foi uma das parceiras fundadoras do encontro em San Francisco.
Silicon Valley e Ohio: mundos opostos ou parceiros estratégicos?
Quando se fala em Silicon Valley, a imagem que vem à mente costuma ser de startups avaliadas em bilhões antes mesmo de faturar um centavo, venture capitals que movem montanhas com uma reunião e engenheiros disputados por salários astronômicos. Esse ambiente tem seus méritos óbvios — a densidade de talento, capital e conexões que a Bay Area oferece é praticamente impossível de replicar em qualquer outro lugar do mundo. Mas ele também tem seus limites. O custo de vida absurdo e a competição predatória por talentos criaram um ecossistema que nem sempre é o mais saudável para todos os tipos de negócio. É nesse contexto que o Ohio começa a surgir não como concorrente do Vale, mas como complemento estratégico.
A ideia de construir pontes entre esses dois ecossistemas é, no fundo, muito mais inteligente do que tentar transformar Columbus em uma nova San Francisco. O que o Ohio Tech Night propôs foi exatamente isso: criar um canal de comunicação genuíno entre quem tem capital e visibilidade global e quem tem execução, infraestrutura e um mercado em expansão. Fundadores do Ohio ganham acesso a investidores que talvez nunca tivessem olhado para o estado sem esse tipo de iniciativa. E investidores da Bay Area descobrem oportunidades em estágios iniciais, com valuations mais realistas e times com uma mentalidade de produto muito mais orientada à resolução de problemas concretos.
O que esse movimento significa para o ecossistema de inovação
Eventos como o Ohio Tech Night são mais do que encontros sociais bem organizados. Eles representam uma mudança de narrativa — e narrativa, no mundo das startups e do capital de risco, importa muito. Durante anos, empreendedores de estados como o Ohio precisavam se mudar para a Califórnia ou Nova York para serem levados a sério por investidores. Esse paradigma está sendo questionado de forma cada vez mais contundente, e iniciativas que colocam os dois mundos numa mesma sala ajudam a acelerar essa transformação.
Outro ponto que merece destaque é o papel dos ex-moradores do Ohio que hoje vivem na Bay Area. Esse grupo é um ativo subestimado dentro dessa equação toda. São pessoas que conhecem profundamente a cultura, os valores e as oportunidades do estado, mas que também dominam a linguagem, os códigos e as redes do ecossistema de Silicon Valley. Eles funcionam como tradutores naturais entre esses dois mundos, e sua presença expressiva no evento é um indicador de que existe um senso de identidade e orgulho regional que transcende a geografia.
A conexão do Ohio com a Bay Area, na verdade, não é nova. O que está mudando é o esforço de torná-la mais intencional e estruturada. Com empresas do Ohio construindo tecnologia relevante em escala nacional, universidades criando uma presença física em San Francisco e milhares de ohioanos trabalhando dentro do ecossistema tecnológico da Bay Area, já existe uma rede robusta para se apoiar.
Para o ecossistema de inovação e empreendedorismo como um todo, o que o Ohio está construindo serve de exemplo prático de que é possível desenvolver um polo tecnológico relevante fora dos centros tradicionais. O segredo não está em copiar o Vale do Silício, mas em entender quais são os diferenciais locais e usá-los de forma inteligente para atrair o tipo certo de atenção, investimento e talento. O Ohio Tech Night foi apenas mais um passo nessa direção — e o mundo tech está começando a prestar atenção nisso. 🚀
