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Startups espalhadas pela Europa enxergaram uma grande oportunidade: construir a próxima geração de lasers ultrarrápidos, um componente que virou peça-chave na fabricação de chips de alto desempenho.

Em junho de 2026, a Comissão Europeia apresentou um pacote de legislações e estratégias para reforçar a competitividade e a independência do continente nos ecossistemas de semicondutores e inteligência artificial. O nome pode soar burocrático, mas o que está acontecendo nos bastidores é bem mais concreto. E começa com algo que cabe na palma da mão. Uma dessas startups, inclusive, começa a construir uma fábrica na Lituânia já em outubro. 🚀

Soberania não é uma palavra abstrata de política pública para nós, virou o motivo pelo qual financiamento, parceiros e atenção estão disponíveis, diz Celia Millon, CEO da RayVen Laser GmBH, na Alemanha. O proposto Chips Act 2.0 da União Europeia pretende apoiar toda a cadeia de suprimentos de chips, incluindo design, materiais e equipamentos de processamento como os lasers ultrarrápidos. Segundo Millon, essa mudança significa que uma quantidade significativa de recursos públicos pode chegar a pequenas startups como a dela.

Pesquisas de mercado independentes estimam o mercado global de lasers ultrarrápidos em cerca de 2,4 bilhões de dólares em 2025, crescendo a algo perto de 20 por cento ao ano para ultrapassar os 10 bilhões de dólares no início da próxima década. Os principais motores desse crescimento são a miniaturização dos semicondutores e o empacotamento avançado, além de aplicações em manufatura de precisão e na área médica.

O que faz um laser de femtossegundo tão especial?

Para entender o hype em torno desses dispositivos, vale dar um passo atrás e pensar no que um femtossegundo realmente significa. Estamos falando de um quadrilionésimo de segundo, ou seja, um intervalo de tempo tão curto que a luz mal consegue percorrer a espessura de um fio de cabelo nesse período. Quando um laser dispara pulsos nessa escala, ele consegue interagir com materiais de forma extremamente precisa, removendo ou modificando camadas atomicamente finas sem causar dano térmico ao entorno.

Esse detalhe, aparentemente técnico, tem implicações enormes. O processamento com laser ultrarrápido é essencial para componentes avançados de chips que permitem transferência de dados mais rápida. Um bom exemplo são os interposers, camadas de fiação que ajudam a conectar chiplets empilhados em pacotes de semicondutores avançados. Esses componentes precisam de minúsculos furos abertos a laser, os chamados through-glass vias, que depois são preenchidos com cobre para rotear sinais elétricos.

Isso é como uma tecnologia de impressão 3D, mas dentro do vidro, explica Nikolajus Gavrilinas, CEO e cofundador da startup lituana Litlit. Outras aplicações incluem cartões de prova para placas de circuito impresso e o corte de wafers, mostrando o quanto essa ferramenta é versátil dentro da linha de produção.

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Litlit acelera a produção na Lituânia

Em outubro, a Litlit abre uma nova fábrica em Vilnius, na Lituânia, com a meta de fabricar até 3.000 lasers de femtossegundo por ano. Esse volume colocaria a empresa no topo da capacidade global de produção. Quando a demanda está mais alta que o normal, diz Gavrilinas, os grandes players do mercado buscam empresas menos maduras. Para companhias jovens como a Litlit, é uma grande oportunidade.

Existe aqui uma diferença de perfil de cliente que vale destacar. Compradores acadêmicos de lasers de femtossegundo toleram designs caros e complexos, porque o foco deles é a pesquisa. Já a indústria precisa de lasers compactos, robustos, que não exijam manutenção e operem de forma confiável em ambientes de fábrica. É um jogo completamente diferente.

Em 2014, Gavrilinas e seus cofundadores patentearam uma abordagem para gerar pulsos de laser extremamente estáveis, com comprimento de onda de um mícron, usando apenas algumas peças de fibra óptica. A partir desse pulso inicial estável, modular o ruído se torna algo direto e controlável. A arquitetura alcança 20 por cento de eficiência de conversão elétrica para óptica, e o comprimento de onda fundamental puro é entregue em um feixe de alta energia.

Ao longo da última década, a empresa transformou essa ideia em uma tecnologia modular e compacta, além de inventar técnicas de produção mais sustentáveis. Sair da complexidade para chegar à estabilidade é a marca de uma tecnologia madura, diz Gavrilinas, e a abordagem da Litlit já chegou nesse estágio.

RayVen aposta em um comprimento de onda pouco explorado

Enquanto isso, a RayVen Laser, de Millon, seguiu por outro caminho: lasers ultrarrápidos que operam no comprimento de onda de 2 mícrons, algo que ainda não foi amplamente comercializado. Nesse comprimento de onda, explica Millon, o silício se torna muito mais transparente do que nos comprimentos tradicionais. Em vez de apenas remover uma superfície, o feixe pode ser focado e estruturado dentro do próprio silício.

Isso abre novas possibilidades de manufatura para a indústria de semicondutores, com processos que são mais eficientes, exigem menos etapas ou simplesmente não eram possíveis antes. Entre esses processos estão o processamento pela parte traseira do chip, a estruturação profunda de superfícies e as through-silicon vias, que permitem que camadas de chips 3D conversem entre si. A tecnologia atual para essas tarefas envolve muitos produtos químicos e água. Fazer tudo apenas com lasers é mais simples, mais econômico e gera menos resíduo material. ♻️

Hoje a RayVen está construindo e qualificando suas duas primeiras linhas de produto em escala piloto de baixo volume, e não em produção em massa. Os primeiros clientes e colaboradores incluem institutos de pesquisa, laboratórios universitários e grupos de pesquisa e desenvolvimento industrial que precisam de uma fonte de laser para experimentos de processamento de materiais. Uma nova injeção de financiamento da União Europeia, em abril, impulsionou a expansão da empresa mais fundo no mundo do processamento de semicondutores. Agora eles estão construindo sistemas demonstrativos com duas universidades parceiras.

Millon conta que tem visto aumento de demanda em várias frentes: interesse crescente de clientes, atenção cada vez maior a esse comprimento de onda em conferências científicas e novas necessidades de manufatura surgindo na fabricação de circuitos fotônicos integrados e óptica co-empacotada.

Mais dados, mais lasers

Nem todo mundo está tão otimista, e é bom ouvir os dois lados. Eric Mottay, cofundador da gigante de lasers ultrarrápidos Amplitude Laser, em Bordeaux, e hoje consultor independente, duvida que a campanha de soberania tecnológica da Europa tenha muita influência sozinha sobre as empresas locais de lasers de femtossegundo. O microprocessamento é um domínio importante em geral, mas reúne muitas aplicações de nicho que ficam fora do escopo dos grandes players, segundo ele.

As indústrias de telecomunicações e transmissão de dados, no entanto, têm um caso de mercado bem claro para os lasers de femtossegundo. E as empresas emergentes precisam demonstrar capacidade de produzir volumes muito altos. Mottay enxerga bom potencial para empresas da União Europeia inovarem nessa área.

Uma dessas empresas é a suíça Menhir Photonics. O foco dela são lasers de femtossegundo miniaturizados e de precisão, no comprimento de onda de 1,5 mícron. Nosso laser funciona como um metrônomo que sincroniza sistemas de telecomunicações, explica Benjamin Rudin, CTO da Menhir. A sincronização precisa entre torres de celular, por exemplo, fica cada vez mais importante com a alta largura de banda de dados dos sistemas 6G.

Essa tecnologia também é valiosa em tecnologias quânticas, na geração de micro-ondas de precisão e no chaveamento óptico de alta velocidade dentro de data centers de IA. Fomos procurados por empresas que fazem coisas que nunca estiveram no nosso radar, diz Rudin. Ele cita como exemplo o trabalho com uma companhia que fornece transceptores de data center para transmissão segura de dados.

No momento, segundo Rudin, nenhuma outra empresa fabrica lasers ultrarrápidos com a mesma combinação de especificações da Menhir. Diodos de laser com chaveamento de ganho conseguem cumprir função parecida no mundo das telecomunicações, mas têm pior desempenho de ruído e menos largura de banda. Comparado aos mercados acadêmicos tradicionais, que usam lasers ultrarrápidos em pesquisa de física quântica, os mundos de datacom e telecom exigem maturidade, confiabilidade e preços baixos. A ideia sempre foi miniaturizar nossos lasers e automatizar totalmente a produção para atender esse mercado, afirma.

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Miniaturização: o próximo desafio dos lasers ultracompactos

Se você perguntar para qualquer engenheiro de fabricação o que ele mais quer em um equipamento de laser, a resposta quase sempre vai incluir a palavra compacto. Sistemas tradicionais são grandes, caros e exigem condições de operação bastante controladas, o que limita a adoção em linhas de produção onde o espaço físico é precioso. A corrida atual entre as startups europeias é justamente resolver esse problema, entregando desempenho técnico em um formato muito mais viável para uso industrial em escala.

Motivada pela demanda crescente por infraestrutura digital, a Menhir Photonics inaugurou uma instalação de produção de última geração em Zurique em agosto passado. O local está desenvolvendo máquinas de montagem totalmente automatizadas para produzir módulos de laser de poucos centímetros quadrados. O plano é concluir o primeiro protótipo até o fim de 2026, chegar à automação completa até o fim de 2027 e produzir dezenas de milhares de unidades compactas por ano até 2028. Esse tema da soberania está ficando importante. A gente percebe o quanto depende da China, diz Rudin. 😄

Afinal, soberania ou mercado?

Carlos Lee, diretor do European Photonics Industry Consortium (EPIC), também prefere ir com cautela e aponta que a palavra soberania pode funcionar como uma espécie de cortina de fumaça. Mesmo que a Europa consiga estabelecer suas próprias fábricas de semicondutores, ela ainda precisa comprar equipamentos de manufatura fora do continente, e a fonte de laser é apenas uma pequena parte de tudo isso.

Ou você é 100 por cento independente, ou você não é. Se você não tem nem as chaves de fenda para montar a máquina, você não é independente, provoca Lee. Ainda assim, mesmo que o Chips Act da União Europeia e seu sucessor não levem o continente a mais independência, se ajudarem a indústria, já valem a pena. Como resume Lee: É o mercado, e não a soberania, o verdadeiro motor de tudo isso.

No fim das contas, essa combinação de incentivos públicos, demanda crescente e maturação tecnológica está criando um cenário raro para startups europeias de lasers ultrarrápidos. Seja pelo discurso da soberania ou pela força pura do mercado, a Europa está construindo agora um ecossistema que pode virar referência global nessa tecnologia. E para um continente que perdeu espaço na corrida dos chips, isso representa uma chance real de reequilibrar o jogo em pelo menos um pedaço importante do tabuleiro. 🎯

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