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Startups de tecnologia climática lideram a transição energética de US$ 2,3 trilhões

A energia limpa captou um investimento recorde de US$ 2,3 trilhões em 2025 — e esse número diz muito sobre o momento em que vivemos. Mesmo com o recuo político dos Estados Unidos em relação às metas climáticas durante o segundo mandato de Donald Trump, o setor seguiu em frente com força total. É um paradoxo curioso: enquanto o discurso político em algumas regiões esfriava, o dinheiro continuava fluindo para tecnologias que geram energia limpa, fortalecem redes elétricas e reduzem emissões no transporte pesado. O mercado, nesse caso, falou mais alto do que qualquer declaração política.

E tem um personagem central nessa história toda: a inteligência artificial. A demanda energética global ligada à IA deve quadruplicar nos próximos dez anos, pressionando data centers, redes elétricas e toda a cadeia de infraestrutura energética a se reinventarem — e rápido. 🚀 Isso significa que a corrida por soluções de tecnologia climática deixou de ser uma questão ambiental isolada para se tornar uma necessidade estrutural da economia digital.

É nesse cenário que o BloombergNEF Pioneers 2026 entra em cena, selecionando 12 startups de um pool de 611 candidatas que estão, de verdade, movendo a agulha da transição energética global. Essas empresas foram escolhidas por enfrentar três dos maiores desafios desse processo: alimentar data centers com energia limpa e eficiente, equilibrar a oferta e a demanda nas redes elétricas e descarbonizar o transporte pesado terrestre e marítimo. Juntas, elas mostram que o mundo está cada vez mais rodando em elétrons — e que existe um modelo de negócio muito sólido por trás dessa transformação.

Como resumiu Claire Curry, líder global de tecnologia, indústria e inovação do BNEF, historicamente o setor se referia à redução de emissões como metas de emissão líquida zero. Mas, como os conflitos recentes têm demonstrado, boa parte da transição energética agora diz respeito a segurança doméstica e fornecimento para Europa, Índia e China.

Por que 2025 virou um marco para a energia limpa

O volume de capital que chegou ao setor de energia limpa em 2025 não foi apenas um recorde numérico. Ele representou uma virada de mentalidade entre investidores, governos e empresas de tecnologia que, por anos, trataram a descarbonização como um custo — e hoje a enxergam como uma oportunidade de crescimento real. Os principais índices de energia limpa e tecnologia de rede da S&P também superaram a maioria dos outros índices de ações nos últimos 12 meses, reforçando que há retorno financeiro concreto nesse mercado.

Parte significativa desse dinheiro veio de fundos de venture capital apostando em startups de tecnologia climática, mas outra fatia igualmente relevante veio de grandes corporações que precisam garantir fornecimento energético limpo para suas operações, especialmente aquelas ligadas à computação em nuvem e à inteligência artificial. A guerra no Irã, por sua vez, trouxe para o centro do debate os riscos de continuar dependendo de combustíveis fósseis, potencialmente acelerando ainda mais os investimentos em tecnologia limpa.

A pressão sobre os data centers é um dos motores mais claros dessa movimentação. De acordo com o BNEF, espera-se que os data centers globais consumam até 1.600 terawatts-hora de eletricidade até 2035 — aproximadamente cinco vezes o que o Reino Unido consumiu no último ano. Com a demanda quadruplicando na próxima década, a conta de energia deixa de ser um detalhe operacional e passa a ser um fator estratégico de sobrevivência para qualquer empresa de tecnologia.

Além disso, a transição energética ganhou um novo sentido de urgência com eventos climáticos extremos registrados nos últimos anos. Ondas de calor, secas prolongadas e tempestades intensas começaram a afetar diretamente a estabilidade das redes elétricas em diferentes partes do mundo, tornando a diversificação das fontes de energia não apenas uma meta ambiental, mas uma questão de resiliência operacional. 🌱

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Data centers sustentáveis: onde a IA encontra a eficiência energética

À medida que ferramentas de IA se tornam mais populares, a demanda energética dos data centers cresce de forma exponencial. Além de adicionar mais eletricidade livre de carbono ao mix energético global, encontrar soluções que ajudem a conter a fome quase insaciável de energia desses centros de dados é absolutamente vital. Três das startups selecionadas pelo BloombergNEF Pioneers atacam esse problema de ângulos distintos e complementares.

HT Materials Science — Dublin, Irlanda

Fundada em 2018, com US$ 40 milhões em financiamento, a HT Materials Science parte de uma analogia simples: hardware de computação é como o corpo humano — precisa da temperatura certa para funcionar. Manter essa temperatura ideal consome até 30% da energia de um data center, segundo a Agência Internacional de Energia. A empresa desenvolveu um aditivo químico que aumenta a capacidade de transferência de calor da água que circula nos sistemas de resfriamento, permitindo que os data centers gastem menos energia para resfriar seus equipamentos.

Point2 — San Jose, Califórnia

Fundada em 2017 e com US$ 55 milhões captados, a Point2 atacou um gargalo que poucos pensam quando falam de eficiência em data centers: os cabos de cobre. Os data centers dependem fortemente de cabos de cobre para transmitir dados, mas existem limites de eficiência nessa transmissão — sem falar na volatilidade dos preços do cobre. A Point2 desenvolveu uma abordagem alternativa que usa ondas de rádio para transmitir dados por materiais plásticos. O resultado, segundo a empresa, é uma redução de duas vezes no consumo de energia em comparação com os cabos de cobre ativos usados em transmissão de dados de alta velocidade.

EmeraldAI — Washington DC

Fundada recentemente, em 2024, e já com US$ 68 milhões em financiamento, a EmeraldAI desenvolveu um software otimizado por IA que sincroniza o consumo de energia dos data centers com a capacidade disponível na rede elétrica em tempo real. Quando a rede está sob estresse, o sistema adia tarefas computacionais que não exigem resposta imediata e redireciona as urgentes para outra instalação onde há abundância de eletricidade. Isso evita que as redes elétricas fiquem sobrecarregadas e também reduz a dependência dos data centers de geradores diesel de backup. ⚡

Achatando a curva do pato: o desafio de equilibrar oferta e demanda na rede

Afastar-se dos combustíveis fósseis significa conectar mais turbinas eólicas e painéis solares à rede elétrica, mas uma adoção maior de energia renovável vem com seus próprios problemas. Um dos principais desafios é conhecido como a curva do pato — uma ilustração que mostra o desalinhamento entre a demanda diária de eletricidade e a geração de energia solar disponível ao longo do dia.

Quando o sol brilha, os painéis solares enviam mais eletricidade para a rede do que o necessário. Depois que o sol se põe, a contribuição solar cai justamente quando as necessidades de eletricidade aumentam. Em locais com grande capacidade solar instalada, essa assimetria obriga as concessionárias a desconectar painéis solares ao meio-dia e instalar outras formas de geração de energia para os picos noturnos. Isso prejudica a rentabilidade dos projetos renováveis e desencoraja investidores de construir mais — mas, para startups que enfrentam desafios de gerenciamento de carga, também representa uma oportunidade enorme.

Como explicou Claire Curry, do BNEF, a curva do pato é completamente impulsionada pelo fato de que ainda não se descobriu uma forma eficiente de combinar oferta e demanda com energia solar.

XL Batteries — Marlborough, Massachusetts

Fundada em 2019 com US$ 30 milhões em financiamento, a XL Batteries fabrica baterias de fluxo orgânico que duram até impressionantes 250 horas — contra as típicas quatro horas das baterias de íon-lítio convencionais. Seus produtos armazenam energia em eletrólitos líquidos mantidos em tanques e liberam eletricidade circulando o líquido por uma pilha de baterias. Com o uso de eletrólitos não tóxicos e não inflamáveis, a empresa afirma que pode instalar suas baterias perto ou dentro de áreas densamente povoadas, evitando o nível de escrutínio regulatório exigido para instalações de íon-lítio de tamanho similar.

Base Power — Austin, Texas

Com uma das captações mais expressivas entre os vencedores — US$ 1,3 bilhão em financiamento — a Base Power, fundada em 2023, constrói seu negócio em torno da ideia de transformar lares americanos em usinas virtuais de energia. A empresa aluga e instala baterias para proprietários de imóveis, que podem acessar parte da energia armazenada durante quedas de energia sem arcar com um custo inicial elevado. Em troca, a Base Power usa software para controlar quando carregar e descarregar essas baterias, vendendo eletricidade de volta às concessionárias durante períodos de alta demanda. A empresa já instalou baterias em mais de 10.000 casas no Texas e planeja expandir para Illinois.

Qvantum — Astorp, Suécia

Originalmente fundada em 1993 e rebatizada em 2021 após uma fusão, a Qvantum levantou US$ 150 milhões para resolver um problema específico: como garantir eletricidade suficiente para alimentar bombas de calor, especialmente nos horários de pico à noite. A solução combina software alimentado por IA com tanques de água integrados que funcionam como baterias térmicas. A tecnologia liga as bombas de calor para aquecer os tanques de água quando há eletricidade suficiente na rede e libera o calor armazenado para os consumidores mais tarde. Além disso, a empresa recicla calor residual gerado por instalações industriais — incluindo data centers vizinhos — para reduzir ainda mais a energia necessária para aquecer edifícios residenciais.

Descarbonizando o transporte pesado e marítimo

O transporte limpo é a maior fatia do bolo de investimentos em tecnologia climática. O setor recebeu US$ 893 bilhões em financiamento no ano passado, segundo o BNEF. Desse total, US$ 53 bilhões foram para veículos comerciais — um aumento de 57% em relação ao ano anterior, superando todos os outros setores em ritmo de crescimento.

Como observou Angie Farrag-Thibault, vice-presidente de transporte global do Environmental Defense Fund, era inimaginável que um mercado assim pudesse existir apenas cinco anos atrás. Iniciativas voluntárias da indústria e um número crescente de políticas governamentais ajudaram o setor de transporte limpo a ganhar velocidade rapidamente.

Na China, quase 78.000 caminhões elétricos de médio e grande porte foram vendidos apenas no quarto trimestre de 2025 — embora alguns subsídios tenham sido eliminados e o crescimento deva desacelerar um pouco este ano. No mar, navios elétricos de grande porte ainda estão a anos, senão décadas, de distância. Mas combustíveis de baixo carbono e outras tecnologias, de redução de atrito ao aproveitamento do vento, são maduras o suficiente para serem implantadas hoje. O transporte marítimo limpo recebeu US$ 4,2 bilhões em investimentos no ano passado.

DeepWay — Hefei, China

Fundada em 2020 com US$ 456 milhões em financiamento, a DeepWay aposta que caminhões semirreboques elétricos são bons — mas versões autônomas seriam ainda melhores. Atualmente, a empresa vende sistemas automatizados de Nível 2 (L2) que auxiliam motoristas com direção, frenagem e aceleração. A empresa trabalha no desenvolvimento de veículos com tecnologia L4, semelhante ao Waymo, que permitirá a caminhões seguirem a liderança de um caminhão dirigido por humano, com a meta de alcançar esse nível de autonomia entre 2028 e 2030. 🚛

Silverstream Technologies — Londres, Reino Unido

Fundada em 2010 e com US$ 25 milhões captados, a Silverstream Technologies vende sistemas que geram uma camada de microbolhas ao longo do casco de um navio. Isso reduz o arrasto, cortando consumo de combustível e emissões. Embora a tecnologia não zere as emissões de um navio, ela tem vantagens-chave: navios antigos podem ser adaptados com o sistema, e ele já está sendo implantado. A empresa tem mais de 250 sistemas encomendados, com mais de 150 navios operando no mar.

WattEV — Long Beach, Califórnia

Fundada em 2020 com US$ 100 milhões em financiamento, a WattEV opera como um gestor de frota verticalmente integrado, alugando caminhões, contratando motoristas e construindo depósitos de carregamento. A empresa também desenvolve tecnologia de transformadores de estado sólido para tornar o carregamento mais eficiente. Atualmente opera seis locais de carregamento, com mais 12 em desenvolvimento, e planeja ter 100 depósitos em operação até 2035.

Cartas na manga: os wildcards da transição energética

Nem todas as vencedoras do Pioneers se encaixam em categorias tradicionais. Os wildcards deste ano oferecem um vislumbre de setores e regiões emergentes em tecnologia climática — de ônibus elétricos na África à mineração de cobre assistida por micróbios e à eliminação de produtos químicos eternos das baterias.

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BasiGo — Nairóbi, Quênia

Fundada em 2021 com US$ 50 milhões, a BasiGo ajuda motoristas a trocar ônibus a diesel por elétricos no Quênia e em Ruanda. Apesar de ter apenas cinco anos, a startup já é responsável pela maioria dos ônibus elétricos nas estradas dos dois países e opera a maior rede de carregamento rápido DC da África. A empresa constrói os ônibus localmente usando kits fabricados no exterior e aluga os veículos aos operadores, cuidando também da infraestrutura de carregamento.

Endolith — Denver, Colorado

A demanda por cobre deve superar a oferta, resultando em um déficit de 19 milhões de toneladas métricas até 2050, segundo o BNEF, impulsionado pela eletrificação e pelo boom da IA. Fundada em 2023 com mais de US$ 20 milhões em financiamento, a Endolith criou micróbios especializados para extrair mais cobre do minério. Os micro-organismos são adicionados durante processos de lixiviação ácida para recuperar mais cobre de minério de baixo teor. A empresa já está realizando seu primeiro teste de campo nos EUA e tem parcerias com as gigantes da mineração Rio Tinto e BHP.

GRST — Hong Kong

Fundada em 2015 com US$ 80 milhões, a GRST aborda um dos lados menos discutidos das baterias: os aglutinantes que conectam materiais ativos aos eletrodos dependem de PFAS, os chamados produtos químicos eternos, associados a sérias preocupações de saúde. A empresa desenvolveu uma tecnologia que elimina os PFAS, criando um aglutinante solúvel em água que pode ser reciclado sem depender de produtos químicos perigosos ou altas temperaturas.

O papel estratégico da inteligência artificial nessa equação

A IA não é apenas uma consumidora voraz de energia — ela também é uma das ferramentas mais poderosas disponíveis para otimizar o uso dessa energia. Modelos de machine learning estão sendo aplicados na previsão de geração solar e eólica, no gerenciamento inteligente de baterias, na detecção de falhas em turbinas e painéis, e na otimização de rotas para frotas de transporte sustentável. Essa dualidade é fascinante: ao mesmo tempo em que a IA cria uma demanda energética sem precedentes, ela oferece as ferramentas para que essa demanda seja atendida de forma mais eficiente e com menor impacto ambiental.

Várias das 12 startups selecionadas incorporam IA como componente central de seus produtos — caso da EmeraldAI no gerenciamento de data centers e da Qvantum na gestão térmica residencial. Essa convergência entre tecnologia climática e inteligência artificial está criando uma nova categoria de empresa, às vezes chamada de climate tech + AI, que atrai tanto investidores de cleantech quanto fundos de tecnologia que antes olhavam apenas para software puro. O resultado é um fluxo de capital ainda mais robusto e diversificado chegando ao setor.

Apesar dos sinais de progresso, a transição não está acontecendo rápido o suficiente. Grandes empresas de tecnologia gastaram bilhões de dólares patrocinando projetos de energia limpa, mas suas emissões continuam subindo. E países concordaram com um imposto global de carbono sobre o transporte marítimo, apenas para vê-lo ser travado por pressão da administração Trump. Ainda assim, o que o BloombergNEF Pioneers 2026 evidencia é que a transição energética não é mais um projeto do futuro. Ela está acontecendo agora, impulsionada por necessidade econômica, pressão regulatória e, principalmente, por inovação tecnológica genuína.

As 12 startups selecionadas são um recorte do que há de mais promissor nesse universo — e o fato de terem emergido de um processo que avaliou mais de 600 candidatas diz muito sobre o nível de efervescência e competitividade que esse mercado alcançou. A energia limpa deixou de ser o plano B e se tornou, definitivamente, o plano principal. 🌍

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