Uma mudança silenciosa está em curso na nação das startups
Startups israelenses sempre tiveram um jeito próprio de funcionar: equipes de vendas e marketing nos Estados Unidos, desenvolvimento firme em Israel. 🇮🇱 Não era uma regra escrita em nenhum lugar, mas todo mundo no setor seguia como se fosse lei.
Durante décadas, nem as piores crises de segurança conseguiram abalar essa estrutura. O ecossistema tech de Israel construiu uma reputação global justamente por manter a produção rodando independente do que acontecia ao redor. Bombardeios, tensões na fronteira, mobilizações militares — nada era suficiente para tirar o desenvolvedor israelense do teclado. Essa resiliência virou quase um traço cultural do setor, algo que investidores e clientes internacionais aprenderam a contar como uma certeza.
Em outubro de 2023, quando ficou claro que Israel estava entrando em um conflito prolongado, o setor tech se uniu em torno de um slogan que ganhou o mundo: Israeli Tech Delivers – No Matter What. A frase chegou a ser exibida no painel da Nasdaq, bem no coração de Times Square, em Nova York. Era uma declaração coletiva, quase um juramento público de que o ecossistema não iria vacilar, independente do tamanho da crise que estava se formando.
Dois anos e meio depois, porém, a promessa está sendo testada de um jeito que ninguém esperava. A guerra não parou, os reservistas continuam sendo convocados, o espaço aéreo segue sendo fechado com frequência, os custos operacionais subiram entre 10% e 15%, e uma pesquisa da Israel Innovation Authority revelou que 42% das startups já registraram atrasos significativos no desenvolvimento. Vinte e dois por cento disseram que já adiaram significativamente o cumprimento de metas de desenvolvimento ou o lançamento de um produto. Esses números não são só estatísticas — eles representam contratos perdidos, rodadas de investimento adiadas e clientes que começaram a olhar para outras soluções.
O resultado? Pela primeira vez, o ecossistema tech israelense está discutindo abertamente a possibilidade de mover partes do desenvolvimento para fora do país — e em alguns casos, isso está acontecendo desde o momento em que a startup nasce. 🚀
O que está mudando no DNA das startups israelenses
Por muito tempo, a concentração do desenvolvimento em Israel não era apenas uma escolha logística — era uma vantagem competitiva. O país formou, ao longo de décadas, uma das densidades mais altas de engenheiros de software e especialistas em cibersegurança do mundo. Boa parte disso veio das unidades de inteligência e tecnologia das Forças de Defesa de Israel, como a famosa Unidade 8200, que funciona como uma espécie de acelerador natural de talentos técnicos. Sair desse ambiente para desenvolver software em outro lugar soava, para muitos, como abrir mão de um dos maiores ativos do setor.
Mas a realidade de uma guerra prolongada está forçando uma revisão desse raciocínio. Quando um engenheiro sênior é convocado como reservista por semanas ou meses seguidos, o impacto no roadmap de um produto pode ser devastador. Um mês após o início da guerra, nada menos do que metade das empresas pesquisadas relatou que mais de um quarto dos seus funcionários estavam ausentes devido ao serviço de reserva ou falta de cuidados infantis. Apenas um décimo disse que sua força de trabalho não foi afetada. Startups de ciclo rápido, que dependem de sprints curtos e entregas contínuas, simplesmente não conseguem absorver esse tipo de ausência sem consequência. E como a convocação é imprevisível, o planejamento fica comprometido de uma forma que nenhuma ferramenta de gestão de projetos resolve.
Some a isso o aumento de custos impulsionado em parte pelo fortalecimento do shekel em relação ao dólar, a instabilidade do espaço aéreo que complica viagens para reuniões com investidores e clientes, e uma percepção crescente de risco por parte de fundos internacionais, e o cenário que emerge é bem diferente daquele que existia antes de outubro de 2023. O que era uma estrutura estável e previsível passou a ser um ponto de atenção nos due diligences de venture capital. Alguns investidores começaram a fazer perguntas que antes nunca fariam: onde fica o seu time de desenvolvimento? Qual é o plano de contingência se metade do time for convocado?
Os casos concretos que mostram o tamanho do impacto
Não é preciso ir longe para encontrar exemplos reais do que está acontecendo. Autoridades do governo dos EUA, por exemplo, instruíram centros de desenvolvimento de corporações multinacionais operando em Israel a não abrirem seus escritórios após ameaças iranianas de atacar esses locais. Enquanto os centros em Israel ficavam fechados, o trabalho e os projetos foram transferidos para outras regiões mais estáveis — e a pergunta que ninguém quer fazer em voz alta é se esses projetos vão voltar quando a guerra terminar.
Um executivo israelense da Intel deu uma ideia da realidade operacional: a guerra estourou em um momento sensível para um dos projetos importantes da empresa. Centenas de funcionários foram convocados para a reserva e, por causa da escassez de mão de obra e da necessidade urgente de entregar dentro do prazo, parte do trabalho foi transferida para os times de desenvolvimento da empresa na Índia. Segundo esse executivo, o núcleo do projeto permaneceu em Israel e a Intel cumpriu seus prazos, mas o precedente ficou ali, registrado.
A Wix, uma das empresas tech mais conhecidas de Israel, reconheceu que o desenvolvimento de um importante produto de design baseado em inteligência artificial foi atrasado e acabou sendo lançado um trimestre depois do planejado, justamente por causa do serviço de reserva entre a equipe de desenvolvimento.
Além dos desafios de força de trabalho, as restrições de voo também causaram estragos operacionais, limitando o acesso a eventos do setor e complicando a importação de materiais. Trinta e cinco por cento das empresas relataram danos comerciais significativos como resultado dessas restrições. 📉
Para onde está indo o desenvolvimento
As destinações mais comuns para onde as startups israelenses estão direcionando parte das suas operações de desenvolvimento incluem Nova York, Portugal, Canadá, Polônia e Índia. Nova York tem emergido como destino preferido, com mais de 500 startups israelenses ou fundadas por israelenses já operando na cidade. Ao mesmo tempo, cerca de 38 mil israelenses deixaram o país nos últimos três anos.
Portugal, em especial, tem aparecido com frequência nessa conversa — o fuso horário é compatível com Israel e com boa parte da Europa, o custo de vida é mais acessível do que nos grandes centros tech, e o país tem investido de forma consistente na formação de profissionais de tecnologia. A Riskified, por exemplo, abriu um centro de desenvolvimento em Portugal em 2023 e desde então expandiu suas operações no exterior. Hoje, apenas 60% dos seus funcionários estão baseados em Israel, em comparação com 70% no final de 2022.
O Canadá oferece outra proposta atraente. Segundo Tamir Hay, sócio da PwC Israel que se mudou recentemente para Nova York, um centro de desenvolvimento no Canadá custa hoje 20% menos do que em Israel. Na Europa Central e em Portugal, os custos são ainda menores.
A Polônia e outros países do Leste Europeu atraem por razões parecidas: boa densidade de talentos técnicos, custos menores do que Europa Ocidental e uma infraestrutura de tecnologia que cresceu muito nos últimos anos. A Índia, por sua vez, já era destino clássico de outsourcing para muitas empresas globais, e startups israelenses que antes resistiam a esse modelo agora estão reconsiderando.
Os números confirmam a tendência de forma concreta. Em 2024, empresas tech israelenses contrataram aproximadamente 5 mil desenvolvedores fora de Israel, enquanto no primeiro semestre de 2025 o número de desenvolvedores trabalhando domesticamente caiu cerca de 6%.
Startups que já nascem distribuídas
O que é mais revelador nessa movimentação, porém, não são as empresas que estão realocando times existentes. São as startups que estão nascendo já com uma estrutura distribuída, sem nem tentar concentrar o desenvolvimento em Israel. Isso representa uma quebra cultural significativa.
Novas startups como Majestic Labs, Cylake — fundada por Nir Zuk — e Dimer Health já estão distribuindo equipes de desenvolvimento entre Israel e os Estados Unidos. Em muitos casos, fundadores não israelenses ou executivos realocados fornecem a capacidade de liderar esforços de desenvolvimento no exterior desde os primeiros passos.
Um caso emblemático é a Artemis, uma startup de cibersegurança recém-revelada que emprega atualmente 30 pessoas inteiramente em Nova York, muitas delas israelenses, e planeja estabelecer um centro de desenvolvimento israelense apenas em uma fase posterior. A lógica se inverteu: em vez de começar em Israel e depois abrir fora, a startup começa fora e talvez volte para Israel depois.
Empresas mais estabelecidas como Forter, Gong e HiBob já mantinham times distribuídos há mais tempo, operando centros de desenvolvimento fora de Israel. Agora, empresas públicas estão acelerando a expansão da sua presença global, seguindo o mesmo caminho. 📍
Fundadores estão se mudando mais cedo
A mudança também é evidente entre os próprios fundadores. Cada vez mais, pelo menos um cofundador se muda para o exterior logo após levantar o primeiro investimento. No passado, esse papel era tipicamente preenchido por fundadores com perfil mais voltado para negócios — o CEO ou o head de vendas. Agora, até fundadores com perfil técnico estão se mudando para fora e construindo equipes de desenvolvimento no exterior.
Tamir Hay, da PwC Israel, descreveu a tendência de uma forma que vai além dos números. Segundo ele, as casas em Tenafly, New Jersey, já esgotaram, os preços dos imóveis dispararam, e os israelenses que chegaram nos últimos meses já estão procurando moradia nas quatro cidades vizinhas. Em uma das escolas locais, uma escola pública regular, 40% das crianças da turma são israelenses.
Nas palavras de Hay: cada vez mais empresas que estão sendo criadas hoje estão examinando e, em alguns casos, de fato estabelecendo centros de desenvolvimento nos Estados Unidos. Às vezes esses centros são liderados por gestores israelenses que se mudaram, mas a maior parte da força de trabalho é local. Pode ser que isso seja um evento extremo pontual por causa da série de guerras, mas dois anos atrás não havia nenhuma discussão entre jovens empreendedores de startups sobre estabelecer atividades de desenvolvimento fora de Israel. Agora a discussão existe. Há brotos que ainda não são uma tendência, mas que precisam ser endereçados estrategicamente.
O peso dos fatores econômicos
A guerra não é o único fator empurrando essa movimentação. O fortalecimento do shekel frente ao dólar tornou as operações em Israel relativamente mais caras, enquanto alternativas no exterior ficaram mais atraentes do ponto de vista financeiro. Como destacou Hay, por um lado, como israelenses, é positivo ver o shekel forte em tempos de guerra — é um bom sinal para a economia. Por outro, alternativas no exterior estão se tornando uma consideração significativa.
Danny Akerman, da Key1 Capital, apontou outro fator menos discutido: a competição feroz por talentos dentro de Israel. Segundo ele, toda a região de Sarona em Tel Aviv produz um efeito de FOMO — funcionários estão constantemente conversando uns com os outros sobre condições e novas empresas que estão surgindo e recrutando, gerando uma movimentação constante. Por isso, bastantes empresas preferem buscar funcionários em locais com menos competição, principalmente na Europa.
E tem mais um elemento entrando nessa equação: a inteligência artificial. Hay observou que o capital humano israelense ainda é o grande diferencial tecnológico, mas por causa das ferramentas de IA, muitos processos de desenvolvimento estão se tornando cada vez mais automatizados. O foco continua sendo em pessoas de alta qualidade, mas na era da IA, menos delas são necessárias. Isso muda o cálculo de forma significativa — se você precisa de menos desenvolvedores para entregar o mesmo resultado, a pressão para que todos estejam em Israel diminui proporcionalmente. 🤖
Vozes de cautela no ecossistema
Nem todo mundo no setor vê essa movimentação como inevitável ou mesmo desejável. Gili Raanan, da Cyberstarts, argumentou que distribuir o desenvolvimento está se tornando uma necessidade prática: conforme empresas israelenses vendem plataformas cada vez mais críticas para clientes globais, elas não podem arriscar ter pessoal-chave incapaz de viajar ou operar livremente.
Lior Handelsman, da Grove Ventures, ofereceu uma visão mais cautelosa. Segundo ele, abrir atividades de desenvolvimento no exterior é um privilégio de empresas acima de um certo tamanho. Para que funcione de verdade e contribua, é necessário ter gestão muito forte no exterior e um grupo de desenvolvimento dominante. Além disso, para que o impacto nos custos seja significativo, a empresa precisa estar acima de um certo porte. Handelsman complementou: são um ou dois meses difíceis operacionalmente, e não vale os custos, a dor de cabeça e a dispersão. Nós vemos que o high-tech está entregando seus produtos e que as empresas estão funcionando.
Essa tensão entre os que veem a distribuição como inevitável e os que a consideram uma reação exagerada reflete bem o momento do ecossistema. Não há consenso, mas o fato de a conversa existir já é uma mudança por si só.
O que isso significa para o ecossistema global de tecnologia
Israel sempre foi tratado como um caso à parte no mapa global de inovação. O apelido Startup Nation, popularizado pelo livro de Dan Senor e Saul Singer publicado em 2009, capturou bem a ideia de um país pequeno que produzia uma quantidade desproporcional de empresas de tecnologia relevantes. Parte desse sucesso sempre esteve ligada à concentração geográfica de talentos e à cultura de colaboração que se formou dentro desse ambiente compacto. Dispersar o desenvolvimento por outros países não desfaz esse legado, mas certamente muda a dinâmica que o alimentou por tanto tempo.
Para o ecossistema global de tecnologia, essa movimentação abre oportunidades reais em mercados que estavam na periferia do mapa de inovação. Países que conseguirem atrair esses times de desenvolvimento, manter a infraestrutura adequada e oferecer um ambiente regulatório estável têm a chance de absorver não apenas empregos qualificados, mas também conhecimento, cultura de produto e conexões com redes de investimento global. Esse tipo de transferência de capital humano é difícil de medir no curto prazo, mas tende a deixar marcas permanentes nos ecossistemas que recebem esses profissionais.
Durante a pandemia, Israel conseguiu trazer talentos de volta do exterior. Hoje, a tendência parece estar se revertendo, levantando preocupações não apenas sobre empregos, mas também sobre a potencial perda de conhecimento e expertise acumulados ao longo de décadas.
Apesar disso, os formuladores de políticas continuam focados principalmente em captação de recursos e exits, ao invés de olhar para tendências de emprego. Segundo dados oficiais, o número de trabalhadores de high-tech em Israel permaneceu em torno de 400 mil desde 7 de outubro, mas esse número mascara mudanças mais profundas sobre onde o trabalho de desenvolvimento está realmente acontecendo.
Grandes multinacionais como Nvidia e Google continuam expandindo sua presença em Israel, reforçando as forças duradouras do país como polo de inovação. Mas as startups, mais expostas a pressões de custo e risco operacional, estão cada vez mais olhando para fora. 🌍
Em 2024, empresas tech israelenses contrataram aproximadamente 5 mil desenvolvedores fora de Israel, enquanto no primeiro semestre de 2025 o número de desenvolvedores trabalhando domesticamente caiu cerca de 6%.
Para as próprias startups israelenses, a questão que fica em aberto é se essa distribuição vai enfraquecer ou fortalecer a identidade do produto. Times distribuídos funcionam bem quando há processos maduros, comunicação clara e uma cultura de produto bem estabelecida. Para startups em estágio inicial, onde tudo ainda está sendo descoberto, a dispersão geográfica pode ser um desafio adicional num momento que já é difícil por natureza. O equilíbrio entre resiliência operacional e coesão de time é, provavelmente, o maior desafio que esse novo modelo vai precisar resolver nos próximos anos.
O slogan Israeli Tech Delivers – No Matter What ainda circula pelo setor, mas o no matter what está ganhando um significado novo. Entregar, agora, pode significar entregar de lugares diferentes, com times espalhados por fusos horários que nunca fizeram parte do plano original. Não é exatamente o que se imaginava quando a frase apareceu no painel da Nasdaq, mas talvez seja a versão mais honesta do que significa resiliência num contexto que ninguém previu que duraria tanto. A questão agora é se esse é um ajuste temporário a um período extraordinário ou o início de uma mudança mais estrutural na forma como o high-tech israelense se organiza.
