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A inteligência artificial chegou com tudo no mercado de trabalho chinês, e quem está no meio dessa transformação sabe bem o que isso significa na prática.

Fei Zhaojun, programador de 40 anos em Pequim, viveu isso de perto quando seu chefe perguntou se a IA poderia substituir humanos na programação. Duas semanas depois, ele e outros 160 colegas estavam demitidos. Não foi um caso isolado.

A China está adotando a inteligência artificial em um ritmo que poucos países conseguem acompanhar, e isso está mudando a vida de trabalhadores das mais diversas áreas, de programadores a tradutores, de roteiristas a entregadores. Alguns estão perdendo espaço rapidamente. Outros estão encontrando formas criativas de se reinventar dentro desse novo cenário. E tem ainda quem esteja apostando que, no longo prazo, a automação pode ser mais aliada do que inimiga, especialmente em um país com uma população que envelhece rápido. Mas entre a teoria e a realidade do dia a dia, há muita incerteza no meio do caminho. O que está acontecendo com os trabalhadores chineses é, na prática, um retrato do que o mundo inteiro pode enfrentar nos próximos anos. 🌏

Quando a IA vira concorrente direto no trabalho

O caso de Fei Zhaojun não é uma exceção no cenário atual da China. Impulsionadas por políticas do governo, empresas chinesas de tecnologia passaram a integrar ferramentas de inteligência artificial diretamente nos seus fluxos de produção, especialmente em áreas que antes eram consideradas seguras, como desenvolvimento de software, criação de conteúdo e tarefas físicas. O resultado prático dessa mudança é que equipes inteiras estão sendo reduzidas, e os profissionais que restam precisam fazer mais com menos tempo e menos gente ao lado. O ritmo da adoção é tão acelerado que muitos trabalhadores mal tiveram tempo de entender o que estava acontecendo antes de receberem o aviso de demissão.

Até pouco tempo atrás, Fei duvidava que a IA pudesse programar com perfeição, mesmo com seus chefes achando que já estava perto o bastante. Como ele mesmo resume, o trabalho dos programadores de nível intermediário é essencialmente substituível na maioria dos casos. Mesmo que isso vire um desastre no futuro, ele reconhece que, por enquanto, só resta usar a ferramenta porque todo mundo já está usando. Hoje, ele faz vídeos curtos no estilo vlog durante uma pausa na carreira, enquanto decide o próximo passo. Os vídeos, que falam sobre a vida de pessoas comuns, ainda não pagam suas contas, mas ele torce para que ajudem outras pessoas.

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Curiosamente, algo chama a atenção de quem observa o mercado chinês de perto. Segundo Shujing He, analista sênior em Pequim da firma de pesquisa Plenum, parece haver bem menos resistência à IA na China do que em outros lugares. A maioria das pessoas se mostra positiva, neutra ou levemente interessada na tecnologia. Ela conta ainda que muitos que temem ser substituídos, ou que já saíram dos empregos tradicionais, estão ansiosos para experimentar negócios e projetos independentes baseados em IA. O nível de interesse, nas palavras dela, é impressionante.

Se não pode vencê-los, junte-se a eles

Diante de um cenário tão desafiador, muitos trabalhadores chineses não estão simplesmente aceitando a situação de braços cruzados. Du Qinchun, tradutor em meio período na cidade de Chengdu, no sudoeste da China, é um bom exemplo. Ele passou a ajudar no treinamento de um modelo de IA voltado para traduções, e isso trouxe mais trabalho para ele, pelo menos por enquanto. O problema é o valor pago. Segundo Du, a remuneração no setor foi cortada em mais da metade em comparação com o que era anos atrás.

Essa tendência é tão evidente que cursos universitários de idiomas estrangeiros, que já foram muito populares, vêm perdendo prestígio na medida em que as ferramentas de tradução baseadas em IA se tornam cada vez mais comuns. E os números confirmam essa transformação. De acordo com a firma de inteligência de mercado IDC, a fatia de empresas industriais chinesas que dizem usar modelos e agentes de IA saltou de 9,6% em 2024 para 47,5% no último ano. Um crescimento e tanto em tão pouco tempo. 📈

Segundo Yanze Du, gerente sênior de pesquisa da IDC em Pequim, o vibrante ecossistema de código aberto da China favorece uma inovação maior na aplicação de IA em contextos industriais, aproximando gradualmente a capacidade dos modelos da criação de valor real nas empresas. Robôs humanoides já conseguem, por exemplo, separar encomendas em centros postais, ainda que em pequena escala, e estão avançando para tarefas mais humanas, como dirigir o trânsito e preparar café. Os robôs de entrega de comida também ganham terreno pelo país, ameaçando potencialmente o sustento de milhões de entregadores chineses.

A IA generativa também está cada vez mais presente na criação, produção e distribuição da indústria de curtas dramáticos da China. Segundo relatos da mídia local, o número de séries curtas em vídeo vertical feitas para celulares caiu cerca de 75% no primeiro trimestre do ano em comparação com o mesmo período do ano anterior. Como resume Shujing He, tarefas que antes exigiam treinamento especializado agora podem ser feitas por quase qualquer pessoa com acesso a ferramentas de IA, algo especialmente visível no desenvolvimento de software e na criação de conteúdo multimídia. Como consequência, trabalhadores com funções muito concentradas nessas áreas correm maior risco de deslocamento.

Vale destacar um ponto importante trazido por um relatório da Organização Internacional do Trabalho: as mulheres enfrentam riscos maiores de perder o emprego por causa da IA do que os homens. Isso acontece porque elas tendem a atuar em áreas mais suscetíveis à automação, como montagem de eletrônicos, e ainda estão sub-representadas nos campos de ciência e tecnologia. É um recorte que mostra como o impacto do desemprego tecnológico não atinge a todos da mesma maneira.

IA tem efeitos mistos em uma economia que desacelera

Há um ângulo da história que frequentemente fica de fora das manchetes sobre desemprego e automação na China. Sob a iniciativa chamada IA Mais e o plano quinquenal que vai até 2030, o governo chinês está empurrando a inteligência artificial para dentro de diversos setores, buscando ganhar vantagem na disputa tecnológica com os Estados Unidos. Como observa Zilan Qian, pesquisadora do Oxford China Policy Lab, o que é específico da China é o empenho do governo em espalhar a IA por toda a economia, o que faz a tecnologia chegar a diferentes domínios mais rapidamente do que em outros países.

Só que isso acontece em um momento delicado. O crescimento econômico chinês já vinha desacelerando. O consumo das famílias ficou abaixo do esperado, em parte porque as pessoas estão mais receosas de gastar com medo de perder o emprego. Some-se a isso a crise prolongada no mercado imobiliário, que corroeu boa parte da riqueza das famílias, e o quadro fica ainda mais complicado.

Segundo Eswar Prasad, professor de economia e política comercial da Universidade Cornell, as indústrias de tecnologia chinesas podem ser inovadoras e altamente produtivas, mas talvez não gerem muitos empregos novos. Para ele, a IA provavelmente vai elevar a produtividade em geral, mas pode ter um efeito bastante disruptivo sobre o emprego, agravando o problema de geração de vagas e trazendo consequências ruins para a estabilidade social. Assim como suas rivais americanas, as gigantes de tecnologia da China já cortaram ou reestruturaram dezenas de milhares de postos, em parte por conta da IA.

O panorama do mercado de trabalho segue incerto. A taxa geral de desemprego urbano na China gira em torno de 5%, mas entre os jovens de 16 a 24 anos, excluindo estudantes, esse número é praticamente o triplo. Por outro lado, no longo prazo, alguns especialistas acreditam que as taxas de desemprego podem até cair, já que a população de 1,4 bilhão de pessoas está envelhecendo e diminuindo rapidamente.

Xuenan Cao, professora da San Francisco Bay University com foco em tecnologia e sociedade, aponta que, até 2050, a China deve ter menos de dois adultos em idade ativa para sustentar cada aposentado, contra mais de 2,5 nos Estados Unidos. Nesse cenário, a automação pode compensar parcialmente uma força de trabalho encolhendo, em vez de ser puramente uma ameaça a ela. É uma perspectiva que não resolve o drama de quem perdeu o emprego hoje, mas coloca o debate em um contexto bem mais amplo.

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Alguns abraçam a IA para encontrar novos caminhos

Existe também um grupo de trabalhadores que está encontrando espaço justamente nas brechas que a IA ainda não consegue preencher. Wang Zhicheng, de 32 anos, costumava usar IA para brainstorming e checagem de fatos no seu antigo trabalho como roteirista em uma empresa que produzia vídeos educativos animados em 3D e exercícios interativos para crianças. Quando a empresa demitiu cerca de metade dos seus 13 roteiristas, ele preferiu pedir demissão e trabalhar de forma independente, criando livros ilustrados infantis.

Wang conta que, embora a IA às vezes economizasse tempo, os roteiros gerados costumavam soar estranhos. Os episódios ficavam repetitivos e engessados, e o nível de detalhe dedicado ao conhecimento variava muito. Para ele, a IA pode ser tratada como uma ferramenta, assim como o Word. Os humanos, segundo Wang, ainda são quem decide o que escolher ou seguir entre tudo o que a IA gera. Hoje ele toca o próprio estúdio, produzindo livros ilustrados e outros trabalhos criativos. 💡

O professor de química do ensino médio Yang Zheng, de 29 anos, também não enxerga a IA como uma ameaça ao seu trabalho, mesmo com os alunos usando a tecnologia para ajudar nas tarefas. Como ele explica, os professores não podem estar presentes o tempo todo, e ter uma ferramenta que responde em tempo real é algo bom para os estudantes, que podem fazer perguntas de acompanhamento. Ele reconhece que a IA erra bastante, mas nota que ela vem melhorando ao longo do tempo.

Para os próximos anos, economistas e especialistas em tecnologia apontam que a relação entre inteligência artificial e emprego na China vai depender muito de como o país gerencia essa transição. Se houver investimento sério em educação, requalificação profissional e políticas públicas que protejam os trabalhadores mais vulneráveis durante o período de adaptação, a IA pode de fato se tornar uma aliada poderosa no desenvolvimento econômico e social. Mas se a lógica da eficiência a qualquer custo continuar prevalecendo sem contrapartidas sociais adequadas, o risco é aprofundar desigualdades que já são bastante visíveis. O que a China fizer agora pode servir de lição, positiva ou negativa, para o resto do mundo. 🤖

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