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Crypto foi feito para agentes de IA, não para humanos, diz CEO da Alchemy

As transações financeiras sempre foram moldadas em torno de uma coisa: o comportamento humano.

Horários bancários, fronteiras geográficas, documentos físicos, filas e formulários — tudo isso existe porque o sistema foi desenhado para pessoas que dormem, que vivem em países específicos e que precisam estar presentes para movimentar dinheiro.

Mas e quando o participante econômico não é humano?

Essa é exatamente a pergunta que Nikil Viswanathan, CEO e cofundador da Alchemy, vem respondendo com uma tese que está ganhando cada vez mais atenção no mundo da tecnologia e das finanças descentralizadas: o crypto não foi feito para humanos — e talvez nunca tenha sido.

A ideia pode soar estranha à primeira vista, especialmente considerando o quanto a indústria cripto investiu em tornar wallets, exchanges e blockchains mais acessíveis para o usuário comum. Mas Viswanathan aponta para uma direção diferente. Segundo ele, os AI agents — sistemas de inteligência artificial capazes de agir de forma autônoma no mundo digital — estão se tornando participantes econômicos ativos, e a infraestrutura cripto pode ser exatamente o que eles precisam para operar. 🤖

Não como uma alternativa ao sistema financeiro tradicional, mas como a camada nativa de um novo tipo de economia — uma que não para, não dorme e não precisa de papel.

Por que o sistema financeiro tradicional não foi feito para agentes autônomos

Pense bem: quando você abre uma conta bancária, precisa apresentar documentos, comparecer pessoalmente ou passar por processos de verificação de identidade que levam dias. Quando uma empresa quer fazer uma transferência internacional, ela precisa lidar com fusos horários, correspondentes bancários, taxas escondidas e prazos que podem chegar a cinco dias úteis.

Todo esse processo foi projetado com uma premissa central — de que existe um ser humano do outro lado da operação, com CPF, endereço e responsabilidade jurídica.

Mas os AI agents não têm CPF. Eles não têm endereço residencial. E, principalmente, eles não esperam.

Como o próprio Viswanathan destacou em entrevista ao CoinDesk, os agentes de IA operam de maneira fundamentalmente diferente de humanos. Eles não dormem, não vivem em lugar nenhum, não entram em agências bancárias e não carregam cartões. E, cada vez mais, eles não apenas auxiliam em tarefas — eles realizam transações de forma independente.

Quando um agente de inteligência artificial autônomo precisa executar uma tarefa que envolve pagamento — contratar um serviço de API, remunerar outro agente por processamento de dados, liquidar uma micro-transação em milissegundos — o sistema bancário convencional simplesmente trava. Não existe conta corrente para software. Não existe KYC para um modelo de linguagem. Não existe formulário de abertura de conta para uma entidade que existe apenas como código rodando em um servidor.

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Isso não é uma limitação técnica menor — é uma barreira estrutural que impede uma nova geração de participantes econômicos de operar com eficiência no mundo real.

E é justamente aqui que a narrativa do crypto começa a fazer muito mais sentido do que parecia antes. A blockchain não exige identidade humana. Ela exige apenas uma carteira, uma chave privada e acesso à rede. Um AI agent pode gerar sua própria wallet em segundos, receber pagamentos, executar transações e interagir com contratos inteligentes sem precisar de aprovação de nenhum gerente de banco.

Todas as transações de agentes são online e inerentemente globais

Viswanathan, que estará no palco do Consensus Miami no próximo mês para falar sobre a convergência entre IA e infraestrutura financeira, foi direto ao ponto durante a entrevista: todas as transações realizadas por agentes acontecem online e são inerentemente globais.

Essa frase carrega um peso enorme. Quando dizemos que algo é inerentemente global, estamos dizendo que não existe o conceito de fronteira. Um agente de IA rodando em um servidor na Irlanda pode pagar outro agente hospedado em Singapura sem que nenhum dos dois precise se preocupar com câmbio, regulação local ou horário de funcionamento de qualquer instituição financeira. O dinheiro se move como dados — porque, na prática, ele é dado.

É por essa razão que Viswanathan afirmou que o crypto é a infraestrutura global para o dinheiro que os agentes precisam. Não uma opção entre várias, mas a infraestrutura que faz sentido por design.

A complexidade que afasta humanos é exatamente o que atrai máquinas

Aqui entra um ponto que parece contraintuitivo, mas faz todo o sentido quando você para para pensar. Durante anos, a comunidade cripto tentou resolver um problema: como tornar a experiência do usuário mais simples. Seed phrases de 24 palavras, chaves privadas em formato hexadecimal, interações diretas com contratos inteligentes via código — tudo isso é um pesadelo para a maioria dos seres humanos. E a indústria gastou bilhões tentando esconder essa complexidade atrás de interfaces bonitas.

Mas Viswanathan fez uma observação que muda a perspectiva completamente. Ele disse que agentes leem em zeros e uns, e que essa é a linguagem nativa deles — que também é a linguagem do crypto.

O que para nós é confuso e complicado, para uma máquina é natural. Um AI agent não tem dificuldade em gerenciar uma chave privada. Ele não vai esquecer uma seed phrase. Ele não vai clicar no botão errado ao interagir com um smart contract. A complexidade que sempre foi vista como o grande obstáculo à adoção cripto por humanos é, na verdade, uma vantagem competitiva quando o usuário é uma máquina.

Viswanathan fez uma comparação interessante para ilustrar esse ponto. Ele comparou a transição de ferramentas cripto usadas por humanos para ferramentas cripto usadas por agentes de IA com a mudança histórica do sistema postal para a internet. Assim como o e-mail é muito mais poderoso que o correio tradicional porque foi desenhado para computadores, o crypto segue uma lógica similar — é um sistema nativo do mundo digital que ganha potência máxima quando operado por entidades digitais. 📬

A infraestrutura cripto como camada nativa da economia dos agentes

A Alchemy é uma das maiores plataformas de infraestrutura para desenvolvimento em blockchain do mundo. A empresa fornece as ferramentas e serviços que desenvolvedores precisam para construir aplicações baseadas em blockchain — incluindo APIs, infraestrutura de nós e serviços de dados que alimentam desde aplicativos financeiros até tokens não fungíveis e jogos. Basicamente, a Alchemy permite que empresas criem e escalem produtos onchain sem precisar gerenciar toda a complexidade dos sistemas blockchain por conta própria.

Com essa posição privilegiada no ecossistema, Viswanathan tem uma visão única sobre como os desenvolvedores estão usando essa infraestrutura hoje. Segundo ele, uma mudança silenciosa já está acontecendo: cada vez mais, os casos de uso que aparecem na plataforma não são de humanos tentando gerenciar seus próprios ativos cripto — são de sistemas automatizados que precisam executar lógica financeira de forma programática, em escala e sem intervenção manual.

A infraestrutura cripto oferece algumas características que são praticamente únicas para esse cenário:

  • Operação ininterrupta: blockchains funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem feriados e sem horário de fechamento. Para um AI agent que pode precisar liquidar uma transação às 3h da manhã de um domingo, isso é essencial.
  • Programabilidade nativa: contratos inteligentes permitem criar lógicas complexas de pagamento que se executam automaticamente quando determinadas condições são satisfeitas, sem aprovação humana em cada etapa.
  • Acesso permissionless: qualquer entidade pode participar da rede sem precisar de autorização de terceiros, resolvendo diretamente o problema de identidade para agentes autônomos.
  • Alcance global instantâneo: não existem fronteiras, fusos horários ou correspondentes bancários no caminho da transação.

Essa combinação de características cria possibilidades que simplesmente não existem no sistema financeiro convencional, e começa a explicar por que pensadores como Viswanathan acreditam que estamos diante de uma convergência histórica entre inteligência artificial e crypto. 🚀

Você pode programar uma wallet cripto — mas não pode programar uma conta bancária

Uma das frases mais marcantes de Viswanathan durante a entrevista foi quando ele disse que é possível escrever código para gerenciar uma carteira cripto, mas não é possível escrever código para gerenciar uma conta bancária da mesma forma.

Essa distinção é fundamental. No mundo cripto, tudo é acessível via código. Um desenvolvedor — ou um AI agent — pode criar uma carteira, enviar e receber pagamentos, interagir com protocolos DeFi, trocar tokens e executar estratégias financeiras complexas, tudo através de linhas de código. No sistema bancário tradicional, mesmo as APIs mais avançadas oferecem funcionalidade limitada, dependem de aprovações manuais, operam dentro de horários restritos e exigem camadas de autenticação humana.

Para um agente de IA, a diferença entre esses dois mundos é a diferença entre ter liberdade total de ação e estar preso em uma burocracia que não foi desenhada para ele. É como colocar um carro de Fórmula 1 em uma estrada de terra — a tecnologia está lá, mas o ambiente simplesmente não permite que ela funcione no potencial máximo.

O que muda nas finanças quando agentes autônomos entram em cena

Imagine um ecossistema onde AI agents contratam outros AI agents para realizar tarefas especializadas, pagando por esses serviços em tempo real com frações de criptomoedas. Um agente responsável por pesquisa de mercado pode pagar outro agente especializado em análise de sentimento, que por sua vez paga um terceiro agente por acesso a dados históricos. Tudo isso acontece em questão de segundos, com transações registradas de forma transparente na blockchain, sem intermediários, sem taxas absurdas e sem atrasos.

Esse cenário não é ficção científica — as peças tecnológicas para que ele aconteça já existem, e a única coisa que falta é a adoção em escala.

Do ponto de vista das finanças corporativas e institucionais, essa dinâmica também tem implicações enormes. Empresas que utilizam sistemas de IA para gerenciar operações complexas poderiam programar seus agentes para executar pagamentos a fornecedores automaticamente quando uma entrega é confirmada, liquidar contratos de prestação de serviço sem intervenção do departamento financeiro e realocar recursos entre diferentes projetos em tempo real com base em métricas de desempenho.

A eficiência gerada por esse tipo de automação financeira seria significativa, e a infraestrutura cripto seria o trilho sobre o qual tudo isso correria.

Um futuro em camadas: finanças tradicionais, crypto, agentes e humanos

Viswanathan descreveu sua visão de futuro como uma arquitetura em camadas. Na base, finanças tradicionais e crypto coexistindo como infraestrutura fundamental. Acima disso, uma camada de agentes de IA operando sobre essa infraestrutura financeira. E no topo, uma interface humana — simples, intuitiva e acessível — que permite às pessoas controlarem seus próprios fundos com mais facilidade do que nunca.

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Ele comparou essa estrutura com a forma como a internet funciona hoje: computadores operam a internet, mas são os humanos que a utilizam. Da mesma forma, agentes vão operar o sistema financeiro, enquanto humanos simplesmente colhem os benefícios dessa operação automatizada.

Esse modelo resolve um dos maiores paradoxos do crypto: a tecnologia é poderosa demais para ser ignorada, mas complexa demais para ser usada diretamente pela maioria das pessoas. Com AI agents fazendo o trabalho pesado — gerenciando carteiras, otimizando fluxos de capital, executando transações — os humanos podem finalmente ter acesso a um sistema financeiro mais global, mais programável e mais autônomo, sem precisar entender os detalhes técnicos por trás de tudo isso. 💡

O impacto vai além da eficiência operacional

Quando AI agents se tornam participantes econômicos de verdade — capazes de deter ativos, executar transações e honrar compromissos financeiros de forma autônoma — toda a estrutura de como pensamos sobre propriedade, responsabilidade e valor começa a ser questionada.

Quem é o dono dos ativos que um agente acumula? Como a tributação funciona quando o agente econômico não é uma pessoa jurídica convencional? Como reguladores devem tratar entidades autônomas que movimentam valores significativos sem supervisão humana direta?

Essas são perguntas que reguladores, advogados e economistas ao redor do mundo já começam a discutir, e as respostas vão moldar a próxima fase da economia digital.

O que a tese de Viswanathan revela sobre o momento atual

A grande sacada do argumento de Viswanathan não é apenas dizer que o crypto é útil para AI agents. É apontar que talvez o crypto nunca tenha sido realmente sobre humanos para começo de conversa.

A tecnologia blockchain nasceu com características — descentralização, programabilidade, acesso permissionless, operação contínua — que fazem muito mais sentido quando você pensa em máquinas como usuárias do que quando pensa em pessoas comuns tentando substituir seu cartão de débito. A narrativa de adoção em massa pelo consumidor final pode ter sido, na verdade, um desvio de rota — uma tentativa de encaixar uma tecnologia construída para um paradigma diferente dentro de moldes que ela nunca se encaixou perfeitamente.

Isso não quer dizer que humanos não se beneficiam do crypto — claramente se beneficiam, de diversas formas. Mas sugere que o caso de uso mais natural, mais orgânico e mais poderoso dessa tecnologia pode ser justamente servir como a camada financeira de uma economia onde AI agents são participantes autônomos com necessidades reais de movimentação de valor.

O que torna esse momento particularmente interessante é a velocidade com que as duas tecnologias — inteligência artificial e crypto — estão evoluindo em paralelo. Os modelos de linguagem estão ficando cada vez mais capazes de executar tarefas complexas de forma autônoma, enquanto a infraestrutura blockchain está ficando mais rápida, mais barata e mais acessível para desenvolvedores.

Quando essas duas curvas de evolução se cruzam — e tudo indica que esse cruzamento já está acontecendo — o resultado pode ser uma nova categoria de atividade econômica que ainda não tem nome, mas que já tem os alicerces tecnológicos prontos para suportá-la. 🔗

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