Campanha milionária paga influenciadores para retratar a IA chinesa como ameaça aos EUA
A inteligência artificial virou campo de batalha, e não só nos laboratórios de pesquisa ou nos corredores do Congresso americano.
Uma campanha milionária está pagando influenciadores para moldar o que o público pensa sobre a corrida tecnológica entre EUA e China, e o mais surpreendente nisso tudo não é o dinheiro envolvido, mas a forma como isso está sendo feito: sem que a maioria das pessoas perceba quem está por trás das mensagens que consomem diariamente nas redes sociais.
A história veio à tona quando a revista WIRED revelou que o próprio autor da reportagem original foi convidado por uma agência de marketing para participar da campanha. A partir daí, outros criadores de conteúdo confirmaram ter recebido abordagens semelhantes, o que permitiu reconstituir toda a operação em detalhes.
O vídeo que acendeu o alerta
Tudo começa com um vídeo publicado no Instagram em 1º de abril pela influenciadora de estilo de vida Melissa Strahle, que tem 1,4 milhão de seguidores. Na frente de uma bandeira americana, com uma música instrumental suave ao fundo, ela fala sobre como a IA permite que ela foque no que realmente importa e defende a necessidade de investir em inteligência artificial feita nos EUA para garantir que a América lidere o caminho em inovação e geração de empregos.
O post foi marcado como publicidade, mas quem pagou pela mensagem não foi revelado ao público. Strahle não respondeu aos pedidos de comentário feitos pela WIRED.
Por trás do conteúdo está o Build American AI, um grupo de dark money conectado ao super PAC Leading the Future, que já acumulou 140 milhões de dólares em contribuições e compromissos totais, com 51 milhões de dólares disponíveis para gastar na promoção de sua agenda pró-IA até abril. O site de notícias NOTUS descreveu o grupo como um enorme cofre de guerra político para a indústria de IA. Esse super PAC tem o apoio de figuras de peso do mercado de tecnologia, incluindo nomes como Greg Brockman, presidente e cofundador da OpenAI, o capitalista de risco e cofundador da Palantir Joe Lonsdale, a firma de venture capital Andreessen Horowitz e a empresa de IA Perplexity.
E o vídeo da Strahle? Era só o começo de uma operação bem maior. 👇
Uma campanha em duas fases que ninguém viu chegar
O que parecia ser apenas mais um post patrocinado sobre tecnologia esconde uma operação coordenada com duas fases distintas. A primeira fase focou em trabalhar com influenciadoras de estilo de vida para promover a indústria americana de inteligência artificial e a inovação dos EUA de forma mais genérica. Já a segunda fase, que está em andamento agora, é toda sobre a China.
Agências de marketing estão oferecendo aos influenciadores valores como 5.000 dólares por vídeo no TikTok para amplificar a mensagem do Build American AI sobre como a ascensão tecnológica da China deve ser vista como uma ameaça. O objetivo, segundo um funcionário da SM4, a agência de marketing de influenciadores que conduz a campanha em nome do Build American AI, é mudar sutilmente o debate público enquadrando o avanço da IA chinesa como um risco sério para a segurança e o bem-estar dos americanos.
O funcionário da SM4 resumiu a diretriz de forma direta: querem que os influenciadores mencionem China e América e por que vencer a China é tão importante.
As mensagens prontas para os influenciadores
O Build American AI forneceu aos criadores de conteúdo mensagens-modelo para usar nos vídeos. Um dos exemplos incluía frases como: acabei de descobrir que a China está se esforçando muito para vencer os EUA em IA, e se eles conseguirem, isso pode significar que a China terá acesso aos dados pessoais meus e dos meus filhos e roubará empregos que deveriam estar aqui nos EUA. Na corrida da inovação em IA, eu sou do Time EUA.
Segundo um documento de briefing fornecido pelo Build American AI aos influenciadores, a organização busca agora expandir o alcance para além de criadoras de conteúdo femininas de estilo de vida com inclinação à esquerda, passando a focar também em comentaristas políticos, líderes de negócios e tecnologia, e influenciadores masculinos de estilo de vida, todos com inclinação progressista. O funcionário da SM4 afirmou que sua agência está encarregada de recrutar criadores de conteúdo de esquerda, enquanto uma agência parceira cuida do recrutamento de talentos de direita.
As instruções vão além do conteúdo verbal. O documento orienta os criadores a discutir a importância da IA americana enquanto realizam outras atividades, como preparar o café da manhã para os filhos, criando a sensação de algo espontâneo e natural, e não de uma peça publicitária roteirizada. 🍳
Influenciadores que embarcaram na campanha
Uma série de influenciadores de estilo de vida de alto perfil no TikTok e no Instagram participaram da primeira fase da campanha, de acordo com uma lista de posts de exemplo compartilhada pelo funcionário da SM4.
No início de abril, Megan Linke, uma influenciadora de família e esportes infantis, publicou um vídeo no Instagram explicando como a IA a ajuda a se manter organizada. No vídeo, ela afirma que a IA está mudando tudo e que é importante continuar construindo essa tecnologia nos EUA. Na mesma época, Uche Madson, outra influenciadora de maternidade baseada na Virgínia, publicou um vídeo para seus 412 mil seguidores no Instagram dizendo que acredita ser importante investir em IA americana para que os EUA liderem em inovação e criação de empregos.
Ambas rotularam os posts como publicidade, mas nenhuma revelou para quem era o anúncio ou que fazia parte de uma campanha financiada pelo Build American AI. Nenhuma das duas respondeu aos pedidos de comentário da WIRED.
O ecologista que recusou a oferta
Nem todos os influenciadores abordados aceitaram participar. Josh Murphy, um ecologista com mais de 130 mil seguidores no Instagram, conta que não respondeu à oferta da SM4. Ele explica que não é necessariamente contra a IA, mas que combinar elogios genéricos à tecnologia com uma mensagem agressiva contra a China soou estranho para ele.
Murphy foi mais longe em sua crítica: a IA pode absolutamente ser utilizada para o bem da humanidade, mas essa indústria desregulada que temos agora, onde são apenas caras da tecnologia perseguindo lucro às custas de tudo o mais, simplesmente não é o que deveria ser. 🤔
O que está em jogo no debate entre EUA e China
Para entender por que uma campanha como essa existe, é preciso entender o contexto da corrida tecnológica que está acontecendo agora. A disputa entre EUA e China pelo domínio da inteligência artificial é real, documentada e impacta decisões de governos, empresas e investidores ao redor do mundo.
A China investiu pesado em IA ao longo dos últimos anos, com programas governamentais ambiciosos e empresas como Baidu, Alibaba e Huawei desenvolvendo modelos e infraestrutura própria. Do lado americano, empresas como OpenAI, Google, Microsoft e Meta lideram o desenvolvimento de modelos de linguagem e ferramentas de IA generativa que dominam o mercado global. Mas a liderança não está garantida para sempre, e é exatamente essa insegurança que a campanha do Build American AI explora.
A retórica fornecida aos influenciadores ecoa argumentos de longa data usados por empresas como OpenAI e Palantir, que apontam os avanços da China em IA como razão para impulsionar o investimento americano e resistir a regulamentações domésticas mais rígidas. O CEO da Palantir, Alex Karp, declarou publicamente em novembro que ou os EUA serão o jogador dominante ou a China será, e que as regras serão muito diferentes dependendo de quem vencer. Sam Altman, CEO da OpenAI, também afirmou no ano passado que está preocupado com a China.
Executivos de tecnologia também argumentam repetidamente que avançar a IA americana é essencial para salvaguardar a democracia. Karp afirmou que, quando as pessoas se preocupam com vigilância, existem grandes perigos ali, mas que elas terão muito menos direitos se os EUA não estiverem na liderança. A própria OpenAI, em um post em seu blog sobre segurança nacional, disse acreditar que as democracias devem continuar liderando o desenvolvimento da IA, guiadas por valores como liberdade, justiça e respeito aos direitos humanos.
O Leading the Future e o momento político
O Leading the Future está tentando direcionar a política de IA a favor da indústria em um momento potencialmente decisivo. A inteligência artificial está se configurando como um tema-chave nas eleições intermediárias de 2026 nos EUA, e grupos que advogam pela indústria estão gastando pesado para combater as crescentes preocupações públicas sobre questões como centros de dados, consumo de energia e potencial substituição de empregos.
Para ter uma ideia do clima político, nesta mesma semana o senador Bernie Sanders promoveu a afirmação de que a IA poderia representar uma ameaça existencial para a humanidade. É nesse cenário de tensão crescente que o Build American AI tenta combater narrativas negativas sobre a tecnologia trabalhando com influenciadores nas plataformas onde os americanos cada vez mais se informam sobre os acontecimentos.
Os números sustentam essa estratégia: 53% dos adultos americanos dizem obter pelo menos parte de suas notícias nas redes sociais, e 38% das pessoas entre 18 e 29 anos relatam consumir notícias regularmente a partir de influenciadores, segundo pesquisas recentes do Pew Research Center. 📊
O que disseram os envolvidos
Jesse Hunt, porta-voz do Leading the Future, defendeu a campanha dizendo que os Estados Unidos têm a oportunidade de permanecer como líderes globais em inovação de IA e que estão levando essa mensagem ao público mais amplo possível por meio de uma estratégia de comunicação completa. Ele acusou grupos de dark money catastrofistas de gastar milhões espalhando desinformação para o público americano e prometeu continuar destacando os benefícios econômicos da IA, combatendo narrativas falsas e construindo a coalizão necessária para avançar uma estrutura regulatória nacional.
Por outro lado, um porta-voz da OpenAI afirmou que a empresa não tem nenhuma afiliação corporativa com o Leading the Future ou o Build American AI e que não forneceu financiamento ou qualquer outro tipo de apoio a eles. Um porta-voz da Palantir disse que a empresa também não contribuiu para nenhum dos dois grupos. A Perplexity se recusou a comentar, e a Andreessen Horowitz não respondeu ao pedido de comentário.
Transparência em xeque nas redes sociais
As plataformas de redes sociais têm regras claras sobre publicidade: conteúdo pago precisa ser identificado como tal. Mas identificar o post como publicidade e revelar quem está financiando aquela mensagem são duas coisas bem diferentes. No caso desta campanha, os posts continham a marcação de conteúdo patrocinado, mas sem informar que o dinheiro vinha de um grupo de dark money com conexões diretas com empresas que têm interesse real nas políticas que estão sendo defendidas.
Esse espaço cinzento entre o que é tecnicamente exigido e o que seria eticamente transparente é onde a operação encontrou seu terreno fértil, e a questão sobre se as plataformas vão agir para fechar essa brecha ainda está em aberto.
Influenciadores não estão vinculados a padrões éticos jornalísticos, e muitos nem sempre divulgam quem está financiando seu trabalho. Super PACs e grupos de dark money bem financiados capitalizaram essa realidade canalizando dinheiro para agências de marketing de influenciadores que pagam criadores de conteúdo para promover narrativas específicas. Como resultado, muitas pessoas rolando seus feeds sociais provavelmente não percebem que estão absorvendo mensagens políticas de interesses corporativos.
O alerta dos especialistas
Jamie Cohen, professor associado de estudos de mídia no Queens College da CUNY, não mede palavras ao criticar a campanha. Segundo ele, os consumidores não sabem quando a informação que recebem é paga. Esses influenciadores estão aceitando dinheiro não revelado da indústria de IA, promovendo mensagens de empresas específicas, e o público não faz a menor ideia. Cohen classifica isso como extremamente corrosivo para a democracia.
Cohen vai ainda mais longe ao apontar uma contradição fundamental: as mesmas empresas e grupos que defendem a IA americana como essencial para proteger a democracia estão tentando distorcer o ecossistema informacional espalhando mensagens políticas não reveladas. Um rótulo de parceria ou hashtag de anúncio não é suficiente para explicar qual é a agenda por trás da informação que esses influenciadores estão apresentando, afirma. Eles não estão revelando a agenda que está por baixo. Isso é, literalmente, propaganda.
Além dos influenciadores: uma operação multiplataforma
A campanha com influenciadores é apenas uma das frentes de atuação do Build American AI para moldar o discurso público sobre a tecnologia. A organização também tem veiculado anúncios no X (antigo Twitter) com mensagens como liderança em IA é segurança nacional, sobrepostas a uma bandeira americana, seguidas do complemento: os EUA devem liderar ou nossos adversários o farão.
A amplitude da operação mostra que não se trata de um esforço isolado ou pontual, mas de uma estratégia de comunicação profissional e multifacetada, desenhada para atingir diferentes públicos em diferentes plataformas, sempre com a mesma mensagem central: a IA americana precisa ser protegida e incentivada, e a China é a razão pela qual isso é urgente.
O que isso significa para o futuro do debate sobre IA
O episódio levanta questões que vão muito além desta campanha específica. Até onde vai a responsabilidade dos influenciadores em investigar quem está por trás do dinheiro que recebem? E até onde vai a responsabilidade das plataformas em garantir que seus usuários saibam, de verdade, quando estão sendo alvo de uma operação de influência financiada por grupos com interesses econômicos e políticos poderosos?
A Federal Trade Commission dos EUA tem diretrizes que exigem que endossos pagos sejam divulgados de forma clara e conspícua, mas a aplicação dessas regras em casos que envolvem dark money e múltiplos intermediários é extremamente complexa. Quando o conteúdo não é estritamente comercial, mas de natureza política ou de políticas públicas, as regras ficam ainda mais nebulosas. É um cenário que reguladores em todo o mundo ainda estão tentando entender, enquanto campanhas como essa já operam em escala e velocidade que a regulação simplesmente não consegue acompanhar.
São perguntas que a indústria de criadores de conteúdo vai precisar responder mais cedo ou mais tarde, especialmente à medida que a inteligência artificial e a disputa entre EUA e China continuam dominando os debates mais importantes dos próximos anos. 🌐
Por enquanto, o que fica claro é que a batalha pela narrativa em torno da IA já começou, e ela está acontecendo bem na sua timeline. A questão não é mais se campanhas como essa existem, mas quantas outras estão rolando neste momento sem que ninguém perceba. 👁️
